Marginalidade
sociológica
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Entre esses textos, que acredito não perderam vigência, e o dia de hoje, muita água correu sob as pontes. Talvez a principal seja a de ter percebido que eu mesmo sou um sociólogo marginal, assim como marginais são, em outro sentido, as mediocridades que reproduzem a sua inanidade ou a sua serventia aos interesses das classes dominantes desde posições de poder institucionais nas universidades, no governo, nas agências de fomento à pesquisa, no sindicalismo burocratizado, na imprensa domesticada, nas revistas do corporativismo profissional. E aqui, já temos uma distinção importante para começar a discussão do tema. Eu sou marginal no sentido de que exerço a sociologia desde abaixo e desde dentro. Desde as margens da sociedade, por serem bairros populares onde coexisto e insisto em ideais e práticas profissionais que foram deixados para trás, esquecidos, por sociólogos que --como um certo acadêmico super star que foi mudando de valores e lealdades de um aparente “marxismo” até o neoliberalismo, obtendo como resultado desse troca-troca, nada mais nada menos do que a Presidência da República por dois períodos consecutivos, e mais alguns louros na sua já coroadíssima cabeça. A sociologia não nasceu para exercer o poder mas para contestá-lo. Para ajudar às pessoas a perceberem as armadilhas da dominação e a elas se oporem com eficácia. Isto desde Comte até Durkheim, passando por Marx e Weber. Entende-se agora, em que sentido marginalizou-se a sociologia oficial, aquela que viaja de passagem paga por governo e fundações, a das eternas renovações de bolsas para pesquisa concedidas entre amigos que se perpetuam indefinidamente em cadeiras vitalícias de fato, aquilo que apropriadamente fora chamado do “mandarinato acadêmico.” Marginal, desde esse ponto de vista, é o livro que escrevi sobre Max Weber: ciência e valores, editado pela segunda vez pela Cortez e renascido na Argentina em edição castelhana pela Homo Sapiens, prefácio de Guillermo O´Donnell. Mas por quê marginal? Porque a ética weberiana é oposta à safadeza que se esconde na sociologia institucionalizada, essa que se vende a quem paga mais, não importa quem seja. Weber mesmo foi um marginal. Leal a si mesmo, sem concessões. Rigoroso, apaixonado, em meio a ambientes em que uma risada incomoda, destoa do tom monocórdio próprio das nulidades que perderam a alegria de viver, trocada por um prato de lentilhas –tomara que sejam transgênicas. E talvez seja necessário retornar mais uma vez a esse estilo fogoso, capaz de despertar o melhor nos outros, por aquela generosidade que brota de quem sabe que não tem nada a perder, quem percorre, como Dom Juan Matus ensinava, caminhos com coração. Numa vida em que a morte é a conselheira, não há lugar para ambigüidades. Cada ato reveste-se de um poder especial, aquela qualidade que Weber tanto admirava e soube conhecer como ninguém: o carisma. Na minha caminhada atual, pelas margens da oficialidade sociológica, posso registrar a dominância desse caráter na personalidade e atuação de profissionais, agentes de saúde, gente do povo que se reconstrói cotidianamente em lutas coletivas que não encontram espaço nos jornais. Essa humanidade pulsa em pequenos círculos. Aqueles valores supremos que dão sentido à vida estão presentes no trabalho de pessoas do meio popular que rompem o isolamento e dão as mãos, recuperando a sua autoimagem, as suas histórias, as suas memórias, as suas linguagens, as suas linhagens. Essas pessoas moram em bairros marginais, quando se olha desde a capital, desde o centro, mas fazem de tudo para escapar da marginalidade que o sistema cria: aquela que empurra para a drogadição e a violência doméstica, o alcoolismo e o desespero, a prostituição infantil e a depressão. E o fazem de maneira comunitária. Reúnem-se em locais como Postos de Saúde do Programa de Saúde da Família ou salas de Associações de Moradores. Contam com a participação de enfermeiras do Departamento de Enfermagem em Saúde Pública e Psiquiatria da UFPB formadas em terapia comunitária, criada pelo médico cearense Adalberto Barreto. Umas e outro, também, marginais para os códigos da ética privatista e consultorial, voltadas para o benefício pessoal e corporativo. Estas práticas não são isoladas. Hoje acontecem no bairro dos Ambulantes de Mangabeira, mas já houve experiências parecidas em Cabedelo, e há trabalhos dessa ordem em Tibiri, Alto do Mateus e outros locais da Paraíba. Irmãs e missionárias, médicos sanitaristas e psicólogos, agentes comunitários de saúde e população organizada constroem redes de apoio psicossocial resgatando pessoas do isolamento e da anomia. São antídotos contra certas formas de alienação que rondam todo ser humano no sistema capitalista. Vale a pena continuar na exploração destes caminhos à margem dos cursos de mestrado e dos grupelhos mediocráticos enquistados nas instituições, quaisquer que sejam. Há ares de renovação vindos de baixo e de dentro. Retomar a sociologia de Max Weber é um caminho a oferecer instigantes possibilidades para quem não quiser morrer se arrependendo de não ter vivido. As contribuições do seu pensamento e ação para uma vida melhor não podem ser menosprezadas, sob o risco de perdermos um importantíssimo aliado na tarefa da construção, manutenção e crescimento das práticas sociais humanizantes que nos protejam da robotização rotinizadora, da mecanização desalmada, do isolamento que mata, da incomunicação em que podemos afundar quando esquecemos que ao nosso lado há alguém como nós, alguém que como eu necessita ser amado e amar, crer em si mesmo e saber do seu valor. Saber que não há pessoa alguma que careça de sentido nesta existência e que os sentidos que nos fazem viver são feitos na luta diária contra outros que seguem ideais diferentes dos nossos. O quanto
a literatura e especificamente a poesia podem oferecer à pessoa
um espaço, um lugar de reconhecimento e reconstrução
de si mesma. “Da tua dor, faz uma flor,” diz um antigo ditado. E posso
dar testemunho, sem necessidade de contar historias tristes, do quanto
me foi possível sair das funduras da depressão — um mal tão
comum nos dias de hoje — graças às letras. Como se abrem
pontes quando somos capazes de enfrentar uma folha em branco ou pautada
e nela deixar-nos vir. Mosaico é um exemplo vivo disso. São
pedaços de mim que foram vindo em distintos momentos da minha vida.
Alguns paridos na beira mesmo, com a garra que da essa vontade do
ser humano que não quer sucumbir, que se agarra no que pode, seja
a margem de um caderno, sejam os interstícios de uma folha, para
pôr-se ali. Mas para se trazer de volta, se recuperar, se refazer.
Ver-se a si mesmo, re-conhecer-se. Descobrir que vale. Que faz sentido.
Que se pode. Que pode construir uma ponte de palavras para se comunicar
com o outro, tão perto e tão inapreensível como o
touro na areia, pra pegar emprestada de Cortázar a metáfora
do Manual de instruções nas Histórias de
Cronópios e de Famas. Não importa o resultado, mas o
movimento. O processo. Um pequeno giro que quebre a monotonia do repetido.
Respirar ao ler um poema de Borges, ao ler Angústia, de Graciliano
Ramos. Ao ver as palavras com que Fernando Pessoa vem dizer a que veio.
Meter-se nesses mundos e ali viver. Saber que há infinitos mundos
a serem habitados, e eles podem ser criados por você mesmo. Somos
criadores do paraíso ou do inferno em que decidimos viver. E a hora
é o instante. Este instante de agora. Posso fazê-lo meu ou
deixá-lo ir embora. E não poderei culpar ninguém pela
vida que perdi. De algum lugar, Karl Marx, Carlitos, John Lennon, acenam.
Boa noite. Bem vindos, bem vindas. The show must go on. El show debe continuar.
Rolando Lazarte |