Separando o joio do trigo

Por Ricardo Faria, jornalista, março de 2005

"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver crescer as injustiças, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto". Assim falou Ruy Barbosa.

Mas, como cobrar veracidade de alguém criado submisso à mídia? Principalmente à televisiva que "praticamente" induz os meninos a sonhar com os campos de futebol e as meninas com as passarelas. Que enaltece a "lei do gerson", o consumo de drogas e a corrupção. Um mundo novelesco embalado pelos cantos religiosos acrescidos agora pelos rocks, heavy-metals e sertanejos com o tilintar das moedas ao fundo. Produzido e incentivado pela mídia amestrada infiltrada nas tvs, rádios e jornalões sob o título de entretenimento.

Ao afogado, palito de fósforo é tábua de salvação, à plebe só resta: "nóis tem qui aprendê ingreis i saí do país si nóis quizé subi na vida." Tudo isso sob as vistas dos severinos, renans, lulas, fhcs, sarneys-ribamares e outros "pais da pátria". O que esperar desses governantes-samambaias que se apoderam do poder público apoiados pelas sereias internacionais?

Será que no mundo deles não existem duzentos ou trezentos maltrapilhos disputando com os cães os sacos de lixo colocados, diariamente a partir das 16 horas, ao redor da Praça da República, em São Paulo? Ou desconhecem que mais de cem pessoas são assassinadas diariamente na mesma cidade?

Para eles, certamente, os waldomiros, celsos daniels, georginas, ricardos teixeiras e os donos do Corinthians, são apenas figuras mitológicas e a "mão grande nacional" que está tomando até as míseras aposentadorias dos indígenas só pode ser coisa de paraguaios.

Como nos livrar desse imbróglio centenário cujo cheiro já impregnou as novas gerações?

Somente a paixão pela liberdade ecoada pelos verdadeiros jornalistas pode arrombar os grilhões que nos forjaram e nos livrar dos quengos de sempre. Chega de posar de vítimas. É chegada a hora do grito. Não "Do Fico". Mas do "Libertas quae sera tamen".

Os denominados "jornalistas sem diploma" estão se organizando finalmente. Já criaram o Movimento Nacional em Defesa dos Jornalistas Sem Diploma, no dia 5 de março último, em Belo Horizonte,  MG. Em razão da insatisfação dos profissionais pela discriminação que sofrem a partir de 1969 quando se recusaram a aceitar a condição de "jornalista profissional" imposta pelo governo militar. Está em funcionamento o site do movimento na internet: www.jornalistassemdiploma.jex.com.br

Em São Paulo, aceitei o convite dos jornalistas Gerson Siqueira (gs_jornalista@yahoo.com.br) e Haroldo Mendes (haroldomendes@ig.com.br) para participar do Movimento. Estão preocupados com o futuro já que: “O STF em breve dará sentença final sobre o assunto e poderá causar danos irreparáveis, se formos impedidos de exercer nossas atividades. Os jornalistas não-diplomados em Jornalismo não querem desrespeitar as leis, mas estão prontos a contestá-las sempre que ferirem as liberdades individuais”.

São contra o diploma, mas de maneira nenhuma contra o profissionalismo, a ética e a plena democracia. Sofreram as agruras causadas pela repressão, os maus tratos dos patrões e a sanha de cruéis ditadores. Passaram pelo "batismo de fogo", por isso têm crédito de sobra para lançarem esta empreitada. Não são um "exército de párias", como querem fazer parecer os ardorosos defensores do diploma. Muito pelo contrário. Defendem a separação do joio e do trigo, por entenderem que “nada é mais nobre do que se exercer com dignidade a profissão”.
 

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Ricardo Faria, jornalista em São José dos Campos, SP. Artigo enviado em 28/3/2005.
 

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