Sobre a Construção e Encontros Solidários

Por José Augusto Pádua, no Informativo do PACS, janeiro de 2005
 

Cada cidadão de Bangladesh consome em média cerca de 1 kg de papel por ano. O consumo médio de um cidadão do Brasil é de 27 kg. No Japão e nos Estados Unidos a média de consumo per capita é, respectivamente, de 222 e 308 kg de papel por ano!

Sabemos que dados pela média são bastante enganosos como retratos profundos da realidade. Os dados apresentados acima, no entanto, servem como indicadores da enorme desigualdade existente em escala planetária no que se refere ao consumo dos recursos naturais.

Essa desigualdade, apesar de manifestar-se também, em diferentes graus de intensidade, no interior de cada país, possui uma clara clivagem Norte-Sul. Um grupo pequeno de países do Norte, cuja  população total não ultrapassa 20 % da humanidade, consome cerca de 80% da energia e dos recursos naturais utilizados no planeta a cada ano. E é responsável por cerca de 80% da poluição e da degradação ambiental produzidas no mesmo período. A crise ecológica que hoje observamos, portanto, não é causada pelos acidentes ocasionais que tanta atenção despertam na mídia. É causada pela pressão cotidiana gerada por padrões de produção e consumo insustentáveis e irrealistas do ponto de vista de um planeta finito e limitado em seus recursos. A Terra está sendo destruída por uma fração minoritária da espécie humana, que necessita fazer com urgência um ajuste estrutural ecológico.

Um dos grandes desafios que nos espera no século XXI será o de superar o mito do crescimento ilimitado e discutir globalmente qual é o padrão de consumo socialmente digno e ecologicamente realista para todos seres humanos, considerando o imperativo de que este padrão seja democrático, ou seja, uma linha de dignidade e sustentabilidade acessível para o conjunto da humanidade.

Os estados e instituições financeiras de países da Europa Ocidental, Canadá, Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia e Japão tornaram-se credores, especialmente nas últimas décadas, de uma enorme dívida financeira devida por instituições financeiras e estados da América Latina, África e Ásia, uma dívida que desestabiliza as economias destes países e inviabiliza os investimentos sociais e ambientais de que eles tanto precisam. A idéia da Dívida Ecológica, que nasceu na América Latina nos anos oitenta e hoje está se tornando um importante instrumento de debate político em todo o planeta.

Em primeiro lugar, existe uma dívida ecológica histórica. O grande enriquecimento material e a elevação descontrolada dos padrões de consumo dos países do Norte não podem ser entendidos fora do legado do colonialismo e do imperialismo. Um cidadão da Europa de hoje, por exemplo, não pode dizer que nada tem a ver com a exploração predatória de recursos naturais e mão de obra escravizada cometida por seus antepassados, pois sem essa exploração a Europa e as neo-Europas não poderiam ser o que hoje são.

Existe, por outro lado, uma dívida ecológica atual, que aumenta a cada dia. Em primeiro lugar através da continuidade de projetos agressivos de exploração dos recursos naturais do Sul que destroem ecossistemas e modos de vida de populações locais. Os lucros são privatizados e globalizados, enquanto que a destruição é socializada e localizada. Em segundo lugar, para adotar padrões perdulários de consumo, as populações do Norte invadiram o espaço ecológico comum do planeta, que é uma herança coletiva da humanidade. O aquecimento global da atmosfera e a poluição generalizada é um claro exemplo desse fato, assim como a superapropriação de madeira, água, minérios e outros recursos naturais. Quem está pagando por essa superocupação do espaço ambiental da Terra por um grupo pequeno de países? Qual seria o valor monetário dessa ocupação?

Em 2.000, durante a reunião do Banco Mundial em Praga, foi criada uma iniciativa chamada Aliança dos Povos do Sul Credores da Dívida Ecológica, que busca fermentar o debate sobre o tema da Dívida Ecológica e subverter o caráter exclusivamente monetário que hoje domina a negociação sobre as dívidas. O que precisa ser negociado politicamente, de fato, é a sobrevivência da humanidade. E essa negociação precisa levar em conta todos os aspectos da história contemporânea.

A dívida ecológica é um dado real dessa história, que em grande parte pode ser quantificado (apesar de que não querermos cair na armadilha de buscar a sua monetarização). Sem o seu enfrentamento político será impossível buscar um futuro sustentável para a humanidade.
 

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José Augusto Pádua é professor da UFRJ e membro do conselho de promotores da Aliança dos Povos do Sul Credores da Dívida Ecológica. Conheça o PACS: www.pacs.org.br; Conheça o Jubileu Sul Brasil: www.jubileubrasil.org.br
 
 

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