Voto Farpado

Por Roberto Malvezzi (Gogó), outubro de 2004
 

Ir votar nesse domingo é como engolir uma bola de arame farpado. Não temos mais a motivação de quebrar o regime militar, ou de construir um projeto de nação, ou de construir uma administração municipal criativa como era o PT da década de 80. Aqui tudo é mesmice, tanto política, como técnica, como eticamente, salvo exceções contadas nos dedos.

Entendo aqueles que defendem a dignidade do voto e da eleição, ou que talvez tenham mesmo alguma diferença para votar em seu município. Mas se não formos mais fundo na crise das instituições, da democracia, das teleologias, ficaremos sempre a reboque da superficialidade desses momentos. Por isso, entendo a juventude – a começar dos dois primeiros votos aqui dentro de casa – que não vêem razão alguma para votar. Entendo também os desencantados, que puseram suas vidas na construção de uma nova política e que hoje foram passados para trás.

Aqui, um candidato - na década de 80 - foi acusado de comandar o esquadrão da morte local; outro teve seu nome ligado ao roubo de cargas; outro roubou o dinheiro de 120 quilômetros de saneamento de bairros pobres que hoje vivem de esgoto e muriçoca. Há um quarto que pelo menos não é acusado dessas coisas escabrosas. Todos são candidatos idôneos a pedir o voto do povo. O Brasil não conhece o Brasil e sequer imagina o que é o poder local no semi-árido.

Aqui os comícios são uma festa, porque na Bahia tudo termina em festa. Um comício termina com o forró de Targino Gondin (Esperando na Janela): e quem não vai? Outro termina com o carnaval de Margarethe Menezes: e quem não vai? Outro termina com a novidade dançante do “arrocha”: e quem não vai? A sede, a fome, a miséria, a educação, tudo está ausente do debate político, ou apenas citadas ao largo, por dever de oficio.

Votaria em Olívio Dutra pelo marco regulatório do saneamento que o Ministério das Cidades está construindo, caso seja aprovado. Votaria em Marina pela brava resistência, mesmo apoiando a transposição do rio São Francisco. Votaria na CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) pela Campanha da Fraternidade e Semana Social que promove. Votaria nas pastorais sociais que estão na linha do povo.Votaria na ASA por nosso projeto “Um Milhão de Cisternas” e agora o projeto “Uma Terra e Duas Águas”. Votaria na ADITAL pelo excelente serviço de informação aos grupos subalternos. Votaria na Via Campesina pela rebeldia com causa que se faz necessária. É provável que existam outros dignos de voto, mas eles também não podem ser votados.

Não se preocupem, vou lá votar. Vou tentar achar o menos pior. O menos pior é tudo.
 

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Roberto Malvezzi (Gogó) é coordenador da CPT Nacional (www.cptnac.com.br).

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