Um papa para mudar

Por Elaine Tavares, jornalista no Observatório Latino-Americano (OLA) / UFSC. 1o de abril, 2005

Eu não esqueço. Era o dia 26 de agosto de 1978. Minha mãe, muito católica, aguardava ao pé do rádio o nome daquele que seria o novo papa. Esperava ela, já impregnada da Teologia da Libertação, que fosse alguém que recuperasse, de verdade, as idéias e a prática de Jesus. E nós, com ela, também esperávamos. Queríamos ver uma igreja que dissesse "vade retro" ao poder, ao status quo e se voltasse ao pobre, ao excluído, ao caído, à vítima. A fumacinha branca, depois de quatro escrutínios, trouxe ao mundo cristão uma figura única, praticamente esquecida durante o reinado deste papa que se despede: Albino Luciani - o papa sorriso, que escolheu como nome João Paulo I.

Eleito papa, Albino começou a revolucionar o Vaticano. Era diferente de tudo o que já havíamos visto. Sereno, carinhoso, sorridente, amoroso. Questionou a riqueza da igreja, não quis sua pompa, abriu mão de uma série de prerrogativas imperiais, insistia que a cristandade precisava se abrir para a vida real, prenunciava mudanças radicais na linha do que sempre sonháramos. Lembro que eu vivia o fervor dos meus 17 anos nas Comunidades Eclesiais de Base, construindo um outro projeto de ser no mundo, e aquele papa era nosso espelho. Revolucionário radical e radicalmente amoroso.

Aquele homem doce e grandiosamente especial era filho de um operário socialista. Fez-se padre vivenciando a experiência do encontro amoroso e profundo com os seus paroquianos. Foi vigário na sua terra natal, Canale d'Agordo, em Belluno. Dizem alguns de seus biógrafos que quando foi designado Patriarca de Roma, em 1969, começou a apresentar um ponto de vista mais à direita e, talvez por isso, foi eleito papa em 78. Era o azarão. Ninguém esperava. Seu nome não estava entre os favoritos. Sabe-se lá o que aconteceu naquela sala. O fato é que ele veio, e seu pontificado se anunciava absolutamente radical.

Mas, o seu tempo foi curto. Apenas 33 dias. Lembro que estava no colégio quando meu irmão veio me contar que o papa havia morrido. Dei risada: "O papa morreu há mais de um mês, seu bobo". "Não, Elaine, o papa sorriso se foi". Saí feito louca em direção a minha casa e lá já estava o clima de profunda tristeza. Havíamos perdido um dos nossos. Foi uma dor intensa. Ninguém acreditava. Na televisão as notícias falavam de ataque cardíaco. Absurdo. O homem de 66 anos incompletos gozava de boa saúde, nunca se soube de qualquer problema cardíaco. Mas ali estava. Morto. Morrera dormindo, lendo um livro, com os óculos ainda sobre o nariz. Era 28 de setembro, principiava a primavera. Mas, para nós, era um inverno que começava. Um longo e tenebroso inverno.

Pouco tempo depois era eleito o novo papa, João Paulo II, um conservador que, rapidamente, apagou as marcas das "loucuras" do papa-sorriso. Um homem que manteve a igreja no seu curso, sem maiores transformações. Um homem que escreveu bons textos sobre a igreja dos pobres mas que, na prática, não parece ter seguido por essas veredas. Tentou destroçar a teologia da libertação, puniu padres "vermelhos", excomungou outros. Não consigo vê-lo como jesuânico. Não me passa a idéia de ter disseminado a palavra viva, aquela, da partilha amorosa.

Naqueles dias de 78, quando a ditadura militar ainda estendia seus tentáculos sobre nós, na minha casa todos tínhamos a firme certeza de que Albino Luciani havia sido assassinado. Não era possível que morresse assim, do nada. Tempos depois vários livros davam conta dessa versão. Segundo os autores, o papa teria sido envenenado. Falavam em conspirações de grandes nomes do Banco do Vaticano, da Maçonaria e até dos liberais. Enfim, nunca nada foi provado, mas muitas circunstâncias ficaram sem explicação.

O tempo passou e eu segui meu caminho. Me digo jesuânica, fervorosa seguidora dos exemplos desse homem lindo que foi Jesus. Não creio na igreja católica nem nos seus dirigentes. Creio na vida, no amor, no exemplo. É por isso que hoje, quando um papa desta igreja está a beira da morte, me vem tão forte a imagem daquele que, pensei, iria mudar a igreja, aproximando-a de Jesus. Albino, o João Paulo I, com seu sorriso cheio de doçura, naqueles dias de juventude me era tão caro e é até hoje. Quando penso no que a igreja poderia ser, ele me vem...forte, vivo. Eu, pelo menos, não o esqueci.

Agora, quando se começa a pensar em um novo papa, fico a pensar... talvez por causa da minha criação, dentro da cultura católica, talvez porque saiba do poder imenso que a igreja ainda tem, talvez por honra das tantas horas nas CEBs, me sobe a esperança de que possa vir alguém que mude tudo, que vire a mesa, que re-estabeleça a ordem jesuânica de amar e partilhar. Minha mãe, encantada, me vem em sonhos e sopra esperanças em mim...

 
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Elaine Tavares, jornalista no Observatório Latino-Americano (OLA) / UFSC
 

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