Ásia Central
Quirguistão: outra revolução pós-soviética
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Foto: Palácio do Governo, Bishkek..

A sublevação quirguistanesa se deu a poucos dias do discurso de Bush, no qual reivindicava a si, a onda de transformações democráticas no próximo oeste.
 
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Por Isaac Bigio, março de 2005
DE LONDRES


Na quinta-feira, 24/04, o presidente Akayev do Quirguistão abandonou seu cargo no meio de uma revolta popular que acabou apoderando-se da capital Bishkek e do palácio de governo. Esta é a terceira ex-república soviética onde recentemente uma rebelião em massa protestando contra eleições ditas fraudulentas ocasiona a queda de um presidente.

A sublevação quirguistanesa se deu a poucos dias do discurso de Bush, no qual reivindicava a si, a onda de transformações democráticas no próximo oeste. Segundo os neo-conservadores, a sua vitória no Iraque tinha permitido conseguir eleições naquele país bem como previamente alentou revoluções em Geórgia e Ucrânia, possibilitou eleições renovadoras na Palestina, além de estar conseguindo aberturas no Egito e na Arábia Saudita.

Estas revoluções diferenciavam-se daquelas tradicionais, inspiradas no socialismo. Nestas, supostamente não apareciam ideais igualitários “anti-imperialistas” ou a favor de nacionalizar grandes empresas; os sindicatos não tinham maior peso e também não eram violentos. Em vez de sangrentas, as insurgências vermelhas traziam um novo tipo de revoluções “coloridas” (tais como, "telefonema rosa" na Geórgia ou a "laranja" na Ucrânia) nas quais as manifestações de rua eram relativamente pacíficas e não propunham destruir o Estado ou o capitalismo, mas sim, abrir as portas a uma maior liberalização política e econômica. Estas revoluções, longe das demais que pediam “ianques, vão embora” demandarão uma maior proteção e inversão em prol dos EUA, e soam algo como “ianques, venham aqui”.

Tanto na Ucrânia como na Geórgia (e anteriormente na Sérvia) os EUA e a União Européia (UE) apontaram abertamente às “mudanças de regime”. Os governantes depostos mantinham uma série de restrições ao mercado e ao investimento estrangeiro ou praticavam uma política exterior crítica ou não completamente subordinada a Washington. Nos dois primeiros casos, a Casa Branca conseguiu mudar presidentes que mantinham bons vínculos com Moscou, trocando-os por mandatários que buscassem afastar as suas repúblicas da antiga órbita russa, para assim, converterem-se nos principais defensores da diplomacia estadunidense em suas regiões.
 
 

'Todas as potências estão interessadas em estabilizar a zona.
O problema é que Akayev não renunciou à presidência e anuncia
que voltará (talvez pelas mãos da Rússia)'




A sublevação quirguistanesa de março de 2005 manteve muitos elementos em comum em relação àquelas que previamente sacudiram a Ucrânia e Geórgia. O catalisador foi a rejeição a alguns processos eleitorais em que o povo percebia como enganadores. Depois disso, se expressava um repúdio à pobreza e ao nepotismo. Estas 3 revoluções pós-soviéticas não se davam em ditaduras autocríticas senão em regimes que mantivessem uma transição (inconsistente) para a democracia e a economia liberais.

Alguns meios batizavam à insurgência quirguistanesa como a “revolução amarela” ou “dos tulipanos”, bem como previamente tinham saudado a revolta anti-síria libanesa como a “revolução dos cedros”. No entanto, esta sublevação foi desembocando num ponto que foi gerando temores em muitos desses mesmos meios. A BBC, por exemplo, noticiava que a revolução dos tulipanos se tornava horrível.

O problema é que um levante no Quirguistão não estava na agenda de Washington, nem de Moscou e ambos não o viram com júbilo. Para os EUA, Akayev era o mandatário mais pró-ocidental e demo-liberal da Ásia Central. Em Agosto de 1991 Akayev compartilhou do bloco de Yeltsin contra o golpe “asa dura” do Partido Comunista e depois renunciou ao dito partido e veio declarar a independência do Quirguistão. Seu país foi o primeiro dos 15 que provinha da antiga URSS a filiar-se à Organização Mundial do Comércio (OMC).

Akayev exaltava-se por ter feito muitas privatizações e instaurado uma democracia multipartidária. Nas proximidades de sua capital, permitiu a instalação de bases norte-americanas. No ano 2000 a capital Bishkek se converteu na sede do “Foro de Shangai”, uma coordenadoria internacional para lutar contra o “terrorismo islâmico”.

O embaixador do Quirguistão em Washington, Baktybek Abdrissaev, defendeu o presidente Akayev, afirmando que ele tinha sido eleito de forma legítima pelo povo do Quirguistão, que a Constituição o respaldava e que tinham lhe dado um golpe orquestrado  por uma oposição formada por grupos que os qualificou de "criminosos" e ainda, por outros países. (BBC Mundo) Putin defendeu a legalidade de Akayev e lhe ofereceu asilo e proteção. 
 
 

'O temor é que o “contágio democrático” possa
acabar desestabilizando os vizinhos
Cazaquistão, Uzbequistão e Tadjiquistão'




A revolta Quirguistanesa que não foi hemogenizada por um caudilho pró-ocidental, tornou-se violenta e foi extravasada por uma série de saques e queima de dependências públicas. Por enquanto, Kurmanbek Bakiyev é o presidente transitório e as figuras fortes nesse novo cenário tendem a ser Felix Kulov, o ex vice-presidente de Akayev, e ex-ministros.

Todas as potências estão interessadas em estabilizar a zona. O problema é que Akayev não renunciou à presidência e anuncia que voltará (talvez pelas mãos da Rússia) e que há um jogo de interesses nos diferentes estados da zona. A própria insurreição foi mais espontânea e imprevisível. O Quirguistão foi a república centro-asiática onde o Partido Comunista se manteve mais forte (foi a primeira força no parlamento do 2000 com o 27% dos votos).

O temor é que o “contágio democrático” possa acabar desestabilizando os vizinhos Cazaquistão, Uzbequistão e Tadjiquistão. Em todas estas repúblicas há regimes repressivos, uma forte presença integralista islâmica e no último, houve uma sangrenta guerra civil.

A estratégia bushista era de que houvesse uma nova revolução “colorida” fora da Bielorrúsia (liderada pelo anti-ocidental Lukashenko), porém, o temor agora é de que a queda desses domínios possa ser incontrolável e afete a Ásia Central, uma região que já é explosiva pela presença das empresas de gás, drogas e pelo fundamentalismo.
 
 

Tradução: Pepe Chaves
Foto: www.asiatravelling.net

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Isaac Bigio é analista internacional. Foi professor de política brasileira e latino-americana na London School of Economics. Tem uma coluna diária no jornal Correo, o diário em espanhol de maior circulação no Pacífico, e escreve para dezenas de meios de comunicação dos cinco continentes. Colabora com a BBC, CNN, France Press e diversas emisoras de rádio e TV.

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