| Ásia
Central
Quirguistão: outra revolução pós-soviética . Foto:
Palácio do Governo, Bishkek..
A sublevação quirguistanesa se deu a poucos dias do discurso de Bush, no qual reivindicava a si, a onda de transformações democráticas no próximo oeste.
A sublevação quirguistanesa se deu a poucos dias do discurso de Bush, no qual reivindicava a si, a onda de transformações democráticas no próximo oeste. Segundo os neo-conservadores, a sua vitória no Iraque tinha permitido conseguir eleições naquele país bem como previamente alentou revoluções em Geórgia e Ucrânia, possibilitou eleições renovadoras na Palestina, além de estar conseguindo aberturas no Egito e na Arábia Saudita. Estas revoluções diferenciavam-se daquelas tradicionais, inspiradas no socialismo. Nestas, supostamente não apareciam ideais igualitários “anti-imperialistas” ou a favor de nacionalizar grandes empresas; os sindicatos não tinham maior peso e também não eram violentos. Em vez de sangrentas, as insurgências vermelhas traziam um novo tipo de revoluções “coloridas” (tais como, "telefonema rosa" na Geórgia ou a "laranja" na Ucrânia) nas quais as manifestações de rua eram relativamente pacíficas e não propunham destruir o Estado ou o capitalismo, mas sim, abrir as portas a uma maior liberalização política e econômica. Estas revoluções, longe das demais que pediam “ianques, vão embora” demandarão uma maior proteção e inversão em prol dos EUA, e soam algo como “ianques, venham aqui”. Tanto
na Ucrânia como na Geórgia (e anteriormente na Sérvia)
os EUA e a União Européia (UE) apontaram abertamente às
“mudanças de regime”. Os governantes depostos mantinham uma série
de restrições ao mercado e ao investimento estrangeiro ou
praticavam uma política exterior crítica ou não completamente
subordinada a Washington. Nos dois primeiros casos, a Casa Branca conseguiu
mudar presidentes que mantinham bons vínculos com Moscou, trocando-os
por mandatários que buscassem afastar as suas repúblicas
da antiga órbita russa, para assim, converterem-se nos principais
defensores da diplomacia estadunidense em suas regiões.
'Todas
as potências estão interessadas em estabilizar a zona.
A sublevação quirguistanesa de março de 2005 manteve muitos elementos em comum em relação àquelas que previamente sacudiram a Ucrânia e Geórgia. O catalisador foi a rejeição a alguns processos eleitorais em que o povo percebia como enganadores. Depois disso, se expressava um repúdio à pobreza e ao nepotismo. Estas 3 revoluções pós-soviéticas não se davam em ditaduras autocríticas senão em regimes que mantivessem uma transição (inconsistente) para a democracia e a economia liberais. Alguns meios batizavam à insurgência quirguistanesa como a “revolução amarela” ou “dos tulipanos”, bem como previamente tinham saudado a revolta anti-síria libanesa como a “revolução dos cedros”. No entanto, esta sublevação foi desembocando num ponto que foi gerando temores em muitos desses mesmos meios. A BBC, por exemplo, noticiava que a revolução dos tulipanos se tornava horrível. O problema é que um levante no Quirguistão não estava na agenda de Washington, nem de Moscou e ambos não o viram com júbilo. Para os EUA, Akayev era o mandatário mais pró-ocidental e demo-liberal da Ásia Central. Em Agosto de 1991 Akayev compartilhou do bloco de Yeltsin contra o golpe “asa dura” do Partido Comunista e depois renunciou ao dito partido e veio declarar a independência do Quirguistão. Seu país foi o primeiro dos 15 que provinha da antiga URSS a filiar-se à Organização Mundial do Comércio (OMC). Akayev exaltava-se por ter feito muitas privatizações e instaurado uma democracia multipartidária. Nas proximidades de sua capital, permitiu a instalação de bases norte-americanas. No ano 2000 a capital Bishkek se converteu na sede do “Foro de Shangai”, uma coordenadoria internacional para lutar contra o “terrorismo islâmico”. O embaixador
do Quirguistão em Washington, Baktybek Abdrissaev, defendeu o presidente
Akayev, afirmando que ele tinha sido eleito de forma legítima pelo
povo do Quirguistão, que a Constituição o respaldava
e que tinham lhe dado um golpe orquestrado por uma oposição
formada por grupos que os qualificou de "criminosos" e ainda, por outros
países. (BBC Mundo) Putin defendeu a legalidade de Akayev e lhe
ofereceu asilo e proteção.
'O
temor é que o “contágio democrático” possa
A revolta Quirguistanesa que não foi hemogenizada por um caudilho pró-ocidental, tornou-se violenta e foi extravasada por uma série de saques e queima de dependências públicas. Por enquanto, Kurmanbek Bakiyev é o presidente transitório e as figuras fortes nesse novo cenário tendem a ser Felix Kulov, o ex vice-presidente de Akayev, e ex-ministros. Todas as potências estão interessadas em estabilizar a zona. O problema é que Akayev não renunciou à presidência e anuncia que voltará (talvez pelas mãos da Rússia) e que há um jogo de interesses nos diferentes estados da zona. A própria insurreição foi mais espontânea e imprevisível. O Quirguistão foi a república centro-asiática onde o Partido Comunista se manteve mais forte (foi a primeira força no parlamento do 2000 com o 27% dos votos). O temor é que o “contágio democrático” possa acabar desestabilizando os vizinhos Cazaquistão, Uzbequistão e Tadjiquistão. Em todas estas repúblicas há regimes repressivos, uma forte presença integralista islâmica e no último, houve uma sangrenta guerra civil. A estratégia
bushista era de que houvesse uma nova revolução “colorida”
fora da Bielorrúsia (liderada pelo anti-ocidental Lukashenko), porém,
o temor agora é de que a queda desses domínios possa ser
incontrolável e afete a Ásia Central, uma região que
já é explosiva pela presença das empresas de gás,
drogas e pelo fundamentalismo.
Tradução: Pepe Chaves |