Sobre a Shell e a Texaco na África

Por Eduardo Galeano, março de 2005
 

As empresas petroleiras Shell e Chevron arrasaram o delta do Rio Niger. O escritor Ken Saro-Wiwa, do povo ogoni, da Nigéria, fez a denúncia em um livro publicado em 1992. O que a Shell e a Chevron têm feito a este povo, a suas terras, córregos e atmosfera chega ao nível do genocídio. A alma do povo ogoni está morrendo e eu sou sua testemunha.

Três anos depois, no início de 1995, o gerente-geral da Shell na Nigéria, Naemeka Achebe, explicou assim o apoio de sua empresa à ditadura militar que existe no país: "para uma empresa comercial que se propõe a realizar investimentos, é necessário um ambiente de estabilidade. As ditaduras oferecem isso". Meses mais tarde, ao final da 1995, a ditadura enforcou Ken Saro-Wiwa. O escritor foi executado junto com outros ogonis, também acusados de lutar contra as empresas que aniquilaram suas aldeias e reduziu suas terras a um lugar inabitável. Muitos outros haviam sido assassinados pelos mesmos motivos.

O prestígio de Saro-Wiwa deu a este crime certa repercussão internacional. O presidente dos Estados Unidos declarou que seu país suspenderia o fornecimento de armas à Nigéria. O mundo aplaudiu. A declaração não foi vista como uma confissão involutária, mas era: o presidente estadunidense reconhecia que seu país vendia armas ao regime carniceiro do general Sani Abacha, que vinha executando gente a um ritmo de cem pessoas por ano, em fuzilamentos ou enforcamentos convertidos em espetáculos públicos.

Um embargo internacional impediu depois que qualquer país firmasse novos contratos de vendas de armas com a Nigéria, mas a ditadura de Achaba continuou multiplicando seu arsenal graças aos contratos anteriores e a adendos que, por milagre, foram anexados como elixires da juventude, para que os velhos contratos tivessem vida eterna.

Os Estados Unidos vendem cerca da metade das armas de todo o mundo e compram cerca da metade do petróleo que consomem. Das armas e do petróleo, dependem, em grande medida, sua economia e seu estilo de vida. Nigéria, a ditadura africana que mais dinheiro se destina aos gastos militares, é um país petroleiro. A empresa anglo-holandesa Shell leva a metade, mas a estadunidense Chevron arranca da Nigéria mais de um quarto de todo o petróleo e gás que explora nos 22 países em que opera.

O preço do veneno

Nnimmo Bassey, compatriota de Ken Saro-Wiwa, visitou as terras latino-americanas no ano seguinte ao assassinato de seu amigo e companheiro de luta. Em seu diário de viagem, conta instrutivas histórias sobre as gigantes petroleiras e suas devastações impunes.

Em Curaçao, em frente à costa venezuelana, a empresa Shell ergueu em 1918 uma grande refinaria que, desde então, vem tomando rumos venenosos para a pequena ilha. Em 1983, as autoridades locais mandaram parar as atividades. Sem incluir os prejuízos à saúde dos habitantes, o que é inestimável, os especialistas do governo estimaram em 400 milhões de dólares a indenização mínima que a empresa devia pagar para que a refinaria continuasse operando.

A Shell não pagou nada e, em troca, comprou a impunidade a um preço de fábula infantil: vendeu sua refinaria ao governo de Curaçao por um preço irrisório, mediante um acordo que liberou a empresa de qualquer responsabilidade pelos danos que havia infringido ao meio ambiente e em toda sua sórdida história. (La Jornada, www.lajornada.unam.mx)
 

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Eduardo Galeano é jornalista e escritor uruguaio, autor de 'As Veias Abertas da América Latina' e 'O Mundo do Avesso'. Publicado originalmente no jornal brasileiro BRASIL DE FATO, Edição Nº 108, de 24 a 30 de março de 2005.

África

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