A maior
prisão do mundo.
Por Darlon Carlos, março de 2005.
No final da rua, um ponto começa a se mexer. Submergindo do concreto e aço. Uma longa barba, um boné amarelo desgastado, um cachecol marrom que balançava ao vento, um capote pesado verde, mãos dentro dos bolsos, uma fumaça saindo da boca semi aberta. Olhar compenetrado. Passos bem cadenciados. Vai em direção ao parque. Nota um chafariz seco e congelado. As árvores desprovidas de verde. Poucas crianças brincando, fazendo homens de neve, batalhas com bolas do mesmo material, algumas mulheres com crianças bem agasalhadas, transeuntes seguindo direções imaginárias. Senta em um banco. Um homem ao lado dele o encara, encontra-se vestido com um casaco amarelo ouro e em cima da cabeça uma toca marrom. Não liga para os olhares. Tira de dentro do capote alguns papeis e um lápis com a ponta bem afinado. De outro bolso tira óculos esféricos e pequenos, os coloca em cima do nariz diante dos olhos. Começa a fazer a revisão, rabiscando e anotando em uma folha de cujo o título é "Le Révolté". Em alguns momentos olha para o parque e as pessoas que lá estão. Para logo depois abaixar os olhos para os papéis. Em determinado momento, fecha os olhos e começa uma lenta viagem. Abre-os e encontra-se diante de uma pesada porta de madeira. O corredor e os muros são de pedras maciças. A porta se abre para fazê-lo entrar em um cubículo. Dentro as únicos objetos são uma pesada cadeira de carvalho e uma cama simples. Uma luz débil entra por uma janela com barras grosas que fazem um estranho desenho no chão. A porta se fecha fazendo um estrondo. Encontra-se sozinho no meio de tudo. Faz uma firma resolução de não sucumbir. Para manter a energia física andava cinco milhas por dia e, duas vezes por dia, fazia exercícios com a cadeira. Logo que o deixaram usar a pena e o papel, lançou-se em revisar alguns trabalhos que tinha deixado inacabado como, também, via novos horizontes políticos em uma nova maneira de ver o mundo. Contudo, com o passar dos tempos, em ambos os casos sentia um grande desânimo. Como se atravessa-se um longo inverno, sente que a mente não se aprofunda, espera ansiosamente o surgimento do sol no horizonte. O tempo passa lentamente. Sente falta dos estímulos do mundo lá fora, as milhares de cores que chegam, os sons e sentimentos que fazem parte do seu eu, ali tudo é igual. Nada muda, tenta encontrar algo que quebre a rotina, mesmo que seja a passagem do sol sobre o ponteiro de uma torre. O banimento dos estímulos são o que o deixa sem ter ânimo para continuar. Será isto um plano? Ele pensa. Com uma mente casando sem nada que a estimule, com o coração defraudado e com o sangue fraco a imaginação fica estagnada. Na prisão desprovido de todos os sentimentos e dos elementos que dão estímulos, como fazer com que a força de vontade prevaleça? Quando forem colocados na rua, como eles terão uma convicção para não voltar para a senda que os trouxe para este fim? Pois, se foi a ausência da força de vontade que fez com que os indivíduos que ali se encontram tivessem que pagar com o preço do banimento da liberdade. O que os prisioneiros precisam fazer é seguir a corrente para não receberem um castigo mais cruel. Quando saírem o que farão? Sem terem a vontade de resistir não tomarão o mesmo curso que os fez serem o que são? Não os farão voltar para este mesmo fim? O que eles esperam? Que com a retirada de toda a força de vontade se tornem instrumentos perfeitos para os que seguram as cordas das marionetes? Será tudo isto um plano? Ver um guarda andando preguiçosamente, a sua frente um preso com o mesmo andar. Para que ter alegria neste trabalho escravo, se foi tirado do homem o que há de melhor na atividade: o prazer de criar e produzir algo novo. Para que tudo isto? Mas, não é está a prisão que recebe os maiores elogios? Por um único motivo: muitos prisioneiros que são controlados por poucos guardas! São estas as penitenciárias que mais recebem louvores. Querem robôs, autômatos, que comem, trabalhem e durmam com uma corrente elétrica acionado por um único homem. Quando forem colocados nas ruas, quem os ajudará? Quem estenderá a mão para eles? Quem dirá para que sentem e descansem? Para que tomem um pouco de comida e arranjem um lugar para trabalhar. Se ele agora tem todos os vícios de uma prisão. Será tudo isto um plano? A sociedade não é assim, uma grande prisão? Não temos nós os mesmo vícios e cacoetes que os presos. Não estamos em celas? Não estão tirando nossos estímulos? Não nos transformaram em escravos de uma máquina? Não somos nós os autômatos que trabalham com o impulso elétrico acionado por um único homem? Abre novamente os olhos. Encontra-se no mesmo parque de tempos atrás, antes de empreender uma viagem. O mesmo firmamento, o mesmo banco, as mesmas árvores, a mesma neve, com uma única exceção: encontra-se sozinho! Não há mais ninguém no parque, nem uma viva alma, nada que lhe faça companhia. Guarda
os papéis, tira os óculos e os coloca em um bolso menor dentro
do capote, ajeita o boné e fica fitando o horizonte, esperando que
o sol nasça trazendo com ele novas esperanças.
Por Darlon Carlos, 26/3/2005. |