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Uma leitura do conto Cega-Rega, de Miguel Torga Por
Carol
Neste ensaio,
pretende-se apontar alguns traços existencialistas latentes na concepção
de Miguel Torga a partir da leitura de Cega-Rega, conto de Bichos, tendo
em vista a função alegórica cumprida pela protagonista
ao simbolizar o homem.
Assim como a função da personagem é cumprida, a metamorfose intermitente sofrida pela cigarra de Torga, que tem sua semente depositada meio ao material em decomposição da mata e procura, ao longo da vida, chegar ao topo da árvore, representa o caminho do reconhecimento e conhecimento humano de si. A cigarra, bem como o homem e sua consciência, caminham da escuridão à luz. Entretanto, o “montouro”, onde a escuridão reina e há matéria em contínua putrefação não é adjetivado como lugar sombrio ou fase sem mérito. Pelo contrário: lá é dada a primeira etapa do percurso no desenvolvimento da cigarra-homem, seu nascimento. A decomposição não é degradante. Ela aponta a fertilidade daquele ambiente onde é iniciado o processo de vida e maturação. Torga procura descrevê-lo com naturalidade. E com naturalidade procura expôr questionamentos existencialistas a partir da observação da natureza em seus “Bichos”. Cada fenômeno é descrito como lhe parece, à luz da natureza. “A lei natural é inexorável”. Cabe, a partir daí, à cigarra e ao homem sua experiência particular de ascensão. A caminhada em direção à luz é uma jornada longa e árdua, como é deixado claro à primeira oração do conto: “É difícil”. Outras constatações no decorrer do texto são muito parecidas e procuram, a todo instante, lembrar que o percurso é trabalhoso e, muitas vezes, o mundo desencoraja: primeiro há de se enfrentar as fases naturais de “embrião, larva, crisálida (...) o íngreme calvário”, sem o qual não haveria meios de encontrar a forma definitiva. Essas observações da dureza e da falta de ajuda durante seu percurso, como são claramente observadas em “Vencera todos os obstáculos dum árido caminho, sem a ajuda de ninguém”, trazem à tona a concepção existencialista da experiência subjetiva, interior, sem a qual não se desenvolve a consciência. A maior parte dos comentários de camponeses, como “- Até azamboa a gente!”, têm a função de mostrar o processo individual da consciência. Não há palavras de apreço ou reconhecimento externo, no entanto, a cigarra prossegue sua senda, como fica expressado pouco adiante: “nada devia aos outros e nada lhes daria, a não ser a beleza daquele hino gratuito”. A cigarra prossegue e parece ter consciência de sua liberdade. Neste ponto, parece importante voltar ao primeiro parágrafo, no qual é possível encontrar a exposição da afirmação que norteia o conto: “Exige consciência de cosmos antes de consciência de ser”. O trecho citado remete instantaneamente ao pensamento de Sartre, síntese do pensamento existencialista, sobre a existência, no homem, preceder a essência. O existir definido por Sartre, no sentido de “sair de”, tomar consciência e estar diante e adiante de si é alegoricamente representado pela saída de Cega-Rega do ovo: “A casca quebra”. Então, só aí é dada a descida ao húmus e o início do longo caminho. A dialética entre as personagens de Torga parece também ter o intuito de apontar a questão da consciência e da liberdade distintiva, da qual não se foge. A cigarra existencialista de Torga faz valer, a todo o momento, a idéia de que o homem não tem uma finalidade definitiva, não foi projetado: “Como se trabalhar fosse um destino”! O homem é feito em sua existência. Tem liberdade de decisão: “Ela continuaria ali, preguiçosa, imprevidente, num desafio sonoro à sensatez”, ainda que outras personagens procurem fugir da liberdade, das agonias de suas próprias decisões, como o senhor camponês que reclama, trabalha e sua: “Por quê? Porque a fome era triste, os dias passavam velozes, e urgia ajudar a natureza a ser pródiga? Imaginem!”. A ironia no comentário a respeito do camponês indica o lamento sobre sua tentativa de fuga. O senhor camponês é a formiga da fábula de Esopo. Ambos negam sua liberdade, ignoram seu próprio “eu”, tornam-se trabalhadores autômatos. Além de negarem sua própria liberdade, procuram negar a do outro também. No caso, a da cigarra. Com naturalidade também é encarada a morte. O inverno chegaria logo e a cigarra sabia. “Mas que lhe importava?” Sua consciência da natureza permite enxergar a morte com naturalidade, como o final de uma longa jornada. E neste ponto a alegoria do conto é concretizada brilhantemente, pela figura de seu irmão de canto, o Poeta. O Poeta que enfrentou, como Cega-Rega seu processo individual de maturação, que caminhou sozinho da escuridão fértil à luz para cantar, e não colheu os grãos nem encheu celeiros de trigo para o inverno. “Um irmão que sabia também que cantar era acreditar na vida e vencer a morte”. É interessante observar que, ao passo em que o senhor camponês ganha ares de formiga, a cigarra transfigura-se no Poeta. A consciência da liberdade, a partir de sua existência, leva Cega-Rega à ascensão. Este é seu mérito. Desta
maneira, Miguel Torga compõe o mais existencialista de seus Bichos:
Cega-Rega. Exalta o Poeta, redime a Cigarra e coloca em cheque o heroísmo
de mais uma formiga.
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• SARTRE, Jean-Paul, A Náusea, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000. • TORGA, Miguel, Cega-Rega, in Bichos, 7ª ed. rev., Coimbra: Editora do Autor, 1970, pp. 85-89. _____________________________
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