| O
jornalista Carlinhos Oliveira vivia citando uma frase que atribuía
a Graham Greene: “Escrever é como decolar um avião. Depois
de esquentar os motores e recolher as rodas, ele sobe”. Irônico consigo
mesmo, completava depois: “Também tenho que fazer isso”.
O apego
pela preguiça e o gosto pelos pequenos prazeres o impediram de ser
o grande escritor que ele dizia ser. Foi, contudo, o mais polêmico
e provocador dos cronistas que a imprensa carioca conheceu depois de Nelson
Rodrigues.
Desde
sua morte, em 1986, Carlinhos permaneceu praticamente esquecido. O Homem
na Varanda do Antonio’s (Record, 308 pág, R$ 35) e Diário
Selvagem (Record, 518 pág, R$ 53) acabam de chegar às
livrarias e vêem preencher uma incômoda lacuna.
Já
não era sem tempo. Os dois volumes, organizados pelo escritor Jason
Tércio, dão o pontapé inicial no processo de redescoberta
daquele que foi um dos mais ácidos e autodestrutivos colunistas
da imprensa nacional.
Sobre
Carlinhos Oliveira escreveu Carlos Heitor Cony, de quem foi colega de profissão:
“Ninguém como ele, em seu tempo e espaço, percebeu o vazio
da condição humana. Sua obra, apesar de fragmentada, pode
ser encarada como o maior romance contemporâneo”.
Amizades
à parte, Cony não comete equívocos na afirmação.
Durante 23 anos ininterruptos, de 1961 a 1984, Carlinhos escreveu quatro
textos semanais para o Jornal do Brasil. Lê-los, hoje, ajuda a traçar
um panorama político, social e cultural de um Brasil oprimido pela
Ditadura Militar.
Suas crônicas
e artigos passam por temas como a modernização da imprensa,
o movimento estudantil, a guerrilha urbana, a liberação sexual,
as drogas, a bossa nova, o Tropicalismo, o Cinema Novo. Foi cronista dos
bons. Ainda que tenha repudiado o gênero que o tornou popular no
Rio de Janeiro daquela época.
Não
gostava de ser chamado de cronista porque associava a crônica com
uma “repugnante gentileza ao leitor, que está pouco se lixando para
a minha inadaptação”. Em 1978, escreveu que a imagem do cronista
“estava condenada a uma certa amenidade (...) até que eu arrebentei
com ela”. Descontando a mitomania própria dos alcoólatras,
Carlinhos não estava de todo errado.
“Ele foi
o melhor de todos porque não queria distrair o leitor, mas provocar,
inquietar e incitar polêmicas ao redor de temas como jornalismo,
política, filosofia, sexo, drogas e música”, diz Jason Tércio,
também autor de Órfão da Tempestade, a única
biografia conhecida de Carlinhos Oliveira.
Boemia e vazio existencial
José
Carlos Oliveira, o jornalista, foi homem de vida instável, sempre
às voltas com falta de dinheiro, amores frustrados, bebedeiras intermináveis
e problemas de saúde gerados pela vida desregrada.
Levava
sua intimidade para o jornal com tamanha intensidade que, invariavelmente,
acabava falando sempre de si próprio – mesmo quando escrevia sobre
temas aparentemente universais. Interessava-lhe, no fundo, fugir da realidade
a que estava submetido.
Por inúmeras
vezes, em sua coluna semanal, queixou-se da solidão e do vazio existencial
que o torturavam. Odiava eventos sociais, mas não conseguia livrar-se
deles. Sentimentos contraditórios para quem vivia cercado de gente
interessante e que, apesar da feiúra, conseguia se relacionar com
belas mulheres.
Até
o fim da vida manteve-se fiel à contradição: ateu
convicto, converteu-se ao catolicismo pouco antes de morrer e teve tempo
de declarar que sua verdadeira vocação era servir a Deus
e a Santa Igreja.
Em O
Homem na Varanda do Antonio’s, o leitor tem acesso à algumas
das mais emblemáticas crônicas de Carlinhos, publicadas originalmente
no Jornal do Brasil. A maior parte delas discorre sobre os bares e a boemia
da zona sul carioca, que sempre foi o seu reduto. Freqüentador assíduo
da noite, muitos de seus textos foram escritos diretamente das mesas do
famoso bar Antonio’s.
Já
em Diário Selvagem estão seus escritos mais ácidos,
retirados de um diário pessoal, que o jornalista manteve entre 1971
e 1986. Sem compromisso com a publicação em jornal, Carlinhos
fala abertamente sobre suas relações sexuais, os vários
dias sem tomar banho, o coquetel de remédios anti-depressivos e
as fortes dores provocadas pela pancreatite.
A última
anotação é de 26 de fevereiro de 1986, nove dias antes
de ser internado às pressas em Vitória, Espírito Santo,
onde estava participando de um seminário. Em 13 de abril sofreu
uma crise diabética e morreu.
Não
deixou uma obra literária genial, mas sua história de vida
foi intrigante – bem como original sua produção jornalística.
É de se perguntar, porém, o motivo pelo qual um cronista
tão polêmico, que conquistou leitores e desafetos com a mesma
facilidade, ficou tanto tempo esquecido.
Para Carlinhos
Oliveira bastava o cotidiano das ruas e dos bares. E foi justamente o cotidiano
que privou-lhe de ser um homem rico, disciplinado... E chato. |
Trechos
de 'Diário Selvagem'
“Preciso comprar
uma japona, uma botina e um suéter” (23
de julho de 1975)
“Deus é
caçador, pratica a caça-ao-pombo. Os pombos somos nós,
artistas, quando atingimos a maturidade e, antes de iniciar nossa revoada,
somos abatidos em pleno vôo” (18 de
março de 1976)
“Devo ainda
tomar banho, coisa que não faço desde que vim do Norte” (18
de março de 1976)
“Incomoda-me
o estômago, alguma coisa intermédia entre dor e fome” (22
de novembro de 1976)
“Inclino-me
a escrever logo a história do seqüestro do embaixador. Merda!
Neste diário só digo o que vou fazer, enquanto isso não
faço nada. Fernando Sabino dá entrevista despedindo-se da
literatura. Ainda bem. Sem angústia, isso é mau. A hipocrisia
mineira me fascina” (29 de novembro de 1976)
“Difícil
nesta altura recuperar minha personalidade silenciosa: já me cristalizaram
brincalhão, palhaço, e por causa disso ando a perder mulheres.
Merda. Sou dois ou três? Ou ninguém? Ah!” (30
de novembro de 1976)
“Fui e voltei
de ônibus de Copacabana. Vi Taxi Driver. Deslumbrante” (1o
de dezembro de 1976)
“Chove aos
potes desde ontem. São 20h30. Esforço para diminuir o cigarro:
controlando pelo relógio. Vai ser difícil. Azia. Dores. Gastrite”
(09
de novembro de 1976)
“Teoricamente
bem. Melhor seria controlar o consumo de cigarros, mas me privo de tanta
coisa no momento que seria uma injustiça. Ontem estive com Bruno,
filho de Marcos de Vasconcellos, que com sua gatinha Kátia veio
me procurar. Bom menino, escreve poemas ainda neuróticos, sem pé
nem cabeça, mas se tiver um grão do talento do pai será
algum dia um verdadeiro escritor. Está com 19 anos, Kátia
é jovem, bela, e também escreve. Fiquei com inveja. Eu tão
só e aquele boboca, feioso, meio debilóide, que conheço
desde criancinha, namorando firme uma bela garota calma e carinhosa...
Merda!” (29 de março de 1977)
“Durmo quase
duas horas. Quelacid como antiácido, no tratamento de hiperacidez
gástrica, gastrites e úlceras gastroduodenais. Gostoso xarope.
Espasmoplus – antiespasmódico, analgésico e antipirético.
Supositório em forma de projétil balístico rosa-shocking”
(08
de outubro de 1977)
“Sonhei ontem
que estava trepando com uma portuguesa na Assembléia Legislativa
de Lisboa”. (09 de outubro de 1977)
“Um punhal
pode passar gerações inteiras servindo para cortar páginas
dos livros, numa atividade inofensiva e solitária. Só quando
a mão de um assassino o empunha é que o punhal se torna sanguinário”
(06
de janeiro de 1978)
“Entrevista
longa e sofrida para Atenção, mensário de Curitiba
dirigido pelo Reynaldo Jardim. Cartas na Veja: gratificantes, mais que
na semana anterior. E entrei na lista dos 10 mais da semana, já
no sétimo lugar, acima de Contatos Imediatos. O fato de esmagar,
no Rio e agora no Brasil, um bestseller americano me enche de orgulho”
(28
de agosto de 1978)
“Saúde
péssima. A doença bloqueia a imaginação” (26
de fevereiro de 1986) |