resenha
Diários Selvagens
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Por Bruno Ribeiro, março de 2005
Da Agência Anhangüera
bruno@cpopular.com.br
O jornalista Carlinhos Oliveira vivia citando uma frase que atribuía a Graham Greene: “Escrever é como decolar um avião. Depois de esquentar os motores e recolher as rodas, ele sobe”. Irônico consigo mesmo, completava depois: “Também tenho que fazer isso”.

O apego pela preguiça e o gosto pelos pequenos prazeres o impediram de ser o grande escritor que ele dizia ser. Foi, contudo, o mais polêmico e provocador dos cronistas que a imprensa carioca conheceu depois de Nelson Rodrigues.

Desde sua morte, em 1986, Carlinhos permaneceu praticamente esquecido. O Homem na Varanda do Antonio’s (Record, 308 pág, R$ 35) e Diário Selvagem (Record, 518 pág, R$ 53) acabam de chegar às livrarias e vêem preencher uma incômoda lacuna.

Já não era sem tempo. Os dois volumes, organizados pelo escritor Jason Tércio, dão o pontapé inicial no processo de redescoberta daquele que foi um dos mais ácidos e autodestrutivos colunistas da imprensa nacional.

Sobre Carlinhos Oliveira escreveu Carlos Heitor Cony, de quem foi colega de profissão: “Ninguém como ele, em seu tempo e espaço, percebeu o vazio da condição humana. Sua obra, apesar de fragmentada, pode ser encarada como o maior romance contemporâneo”.

Amizades à parte, Cony não comete equívocos na afirmação. Durante 23 anos ininterruptos, de 1961 a 1984, Carlinhos escreveu quatro textos semanais para o Jornal do Brasil. Lê-los, hoje, ajuda a traçar um panorama político, social e cultural de um Brasil oprimido pela Ditadura Militar.

Suas crônicas e artigos passam por temas como a modernização da imprensa, o movimento estudantil, a guerrilha urbana, a liberação sexual, as drogas, a bossa nova, o Tropicalismo, o Cinema Novo. Foi cronista dos bons. Ainda que tenha repudiado o gênero que o tornou popular no Rio de Janeiro daquela época.

Não gostava de ser chamado de cronista porque associava a crônica com uma “repugnante gentileza ao leitor, que está pouco se lixando para a minha inadaptação”. Em 1978, escreveu que a imagem do cronista “estava condenada a uma certa amenidade (...) até que eu arrebentei com ela”. Descontando a mitomania própria dos alcoólatras, Carlinhos não estava de todo errado.

“Ele foi o melhor de todos porque não queria distrair o leitor, mas provocar, inquietar e incitar polêmicas ao redor de temas como jornalismo, política, filosofia, sexo, drogas e música”, diz Jason Tércio, também autor de Órfão da Tempestade, a única biografia conhecida de Carlinhos Oliveira.

Boemia e vazio existencial

José Carlos Oliveira, o jornalista, foi homem de vida instável, sempre às voltas com falta de dinheiro, amores frustrados, bebedeiras intermináveis e problemas de saúde gerados pela vida desregrada.

Levava sua intimidade para o jornal com tamanha intensidade que, invariavelmente, acabava falando sempre de si próprio – mesmo quando escrevia sobre temas aparentemente universais. Interessava-lhe, no fundo, fugir da realidade a que estava submetido.

Por inúmeras vezes, em sua coluna semanal, queixou-se da solidão e do vazio existencial que o torturavam. Odiava eventos sociais, mas não conseguia livrar-se deles. Sentimentos contraditórios para quem vivia cercado de gente interessante e que, apesar da feiúra, conseguia se relacionar com belas mulheres.

Até o fim da vida manteve-se fiel à contradição: ateu convicto, converteu-se ao catolicismo pouco antes de morrer e teve tempo de declarar que sua verdadeira vocação era servir a Deus e a Santa Igreja.

Em O Homem na Varanda do Antonio’s, o leitor tem acesso à algumas das mais emblemáticas crônicas de Carlinhos, publicadas originalmente no Jornal do Brasil. A maior parte delas discorre sobre os bares e a boemia da zona sul carioca, que sempre foi o seu reduto. Freqüentador assíduo da noite, muitos de seus textos foram escritos diretamente das mesas do famoso bar Antonio’s.

Já em Diário Selvagem estão seus escritos mais ácidos, retirados de um diário pessoal, que o jornalista manteve entre 1971 e 1986. Sem compromisso com a publicação em jornal, Carlinhos fala abertamente sobre suas relações sexuais, os vários dias sem tomar banho, o coquetel de remédios anti-depressivos e as fortes dores provocadas pela pancreatite.

A última anotação é de 26 de fevereiro de 1986, nove dias antes de ser internado às pressas em Vitória, Espírito Santo, onde estava participando de um seminário. Em 13 de abril sofreu uma crise diabética e morreu.

Não deixou uma obra literária genial, mas sua história de vida foi intrigante – bem como original sua produção jornalística. É de se perguntar, porém, o motivo pelo qual um cronista tão polêmico, que conquistou leitores e desafetos com a mesma facilidade, ficou tanto tempo esquecido.

Para Carlinhos Oliveira bastava o cotidiano das ruas e dos bares. E foi justamente o cotidiano que privou-lhe de ser um homem rico, disciplinado... E chato.

Trechos de 'Diário Selvagem'

“Preciso comprar uma japona, uma botina e um suéter” (23 de julho de 1975)

“Deus é caçador, pratica a caça-ao-pombo. Os pombos somos nós, artistas, quando atingimos a maturidade e, antes de iniciar nossa revoada, somos abatidos em pleno vôo” (18 de março de 1976)

“Devo ainda tomar banho, coisa que não faço desde que vim do Norte” (18 de março de 1976)

“Incomoda-me o estômago, alguma coisa intermédia entre dor e fome” (22 de novembro de 1976)

“Inclino-me a escrever logo a história do seqüestro do embaixador. Merda! Neste diário só digo o que vou fazer, enquanto isso não faço nada. Fernando Sabino dá entrevista despedindo-se da literatura. Ainda bem. Sem angústia, isso é mau. A hipocrisia mineira me fascina” (29 de novembro de 1976)

“Difícil nesta altura recuperar minha personalidade silenciosa: já me cristalizaram brincalhão, palhaço, e por causa disso ando a perder mulheres. Merda. Sou dois ou três? Ou ninguém? Ah!” (30 de novembro de 1976)

“Fui e voltei de ônibus de Copacabana. Vi Taxi Driver. Deslumbrante” (1o de dezembro de 1976)

“Chove aos potes desde ontem. São 20h30. Esforço para diminuir o cigarro: controlando pelo relógio. Vai ser difícil. Azia. Dores. Gastrite” (09 de novembro de 1976)

“Teoricamente bem. Melhor seria controlar o consumo de cigarros, mas me privo de tanta coisa no momento que seria uma injustiça. Ontem estive com Bruno, filho de Marcos de Vasconcellos, que com sua gatinha Kátia veio me procurar. Bom menino, escreve poemas ainda neuróticos, sem pé nem cabeça, mas se tiver um grão do talento do pai será algum dia um verdadeiro escritor. Está com 19 anos, Kátia é jovem, bela, e também escreve. Fiquei com inveja. Eu tão só e aquele boboca, feioso, meio debilóide, que conheço desde criancinha, namorando firme uma bela garota calma e carinhosa... Merda!” (29 de março de 1977)

“Durmo quase duas horas. Quelacid como antiácido, no tratamento de hiperacidez gástrica, gastrites e úlceras gastroduodenais. Gostoso xarope. Espasmoplus – antiespasmódico, analgésico e antipirético. Supositório em forma de projétil balístico rosa-shocking” (08 de outubro de 1977)

“Sonhei ontem que estava trepando com uma portuguesa na Assembléia Legislativa de Lisboa”. (09 de outubro de 1977)

“Um punhal pode passar gerações inteiras servindo para cortar páginas dos livros, numa atividade inofensiva e solitária. Só quando a mão de um assassino o empunha é que o punhal se torna sanguinário” (06 de janeiro de 1978)

“Entrevista longa e sofrida para Atenção, mensário de Curitiba dirigido pelo Reynaldo Jardim. Cartas na Veja: gratificantes, mais que na semana anterior. E entrei na lista dos 10 mais da semana, já no sétimo lugar, acima de Contatos Imediatos. O fato de esmagar, no Rio e agora no Brasil, um bestseller americano me enche de orgulho” (28 de agosto de 1978)

“Saúde péssima. A doença bloqueia a imaginação” (26 de fevereiro de 1986)

SERVIÇO

O Homem na Varanda do Antonio’s
Crônicas de Carlinhos Oliveira, organizado por Jason Tércio. Editora Record. 308 pág. R$ 35.
Diário Selvagem
Anotações pessoais de Carlinhos Oliveira, organizado por Jason Tércio. Editora Record. 518 pág. R$ 53.
 Artes | Literatura

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