| Segunda
opinião
Por Luis
Fernando Verissimo
Todas as opiniões sobre o gênero humano são suspeitas porque são de gente. E impossível ser completamente objetivo sobre a própria espécie. Mesmo as opiniões mais negativas sobre o ser humano têm esta falha de origem: são de seres humanos. O misantropo odeia os outros porque não correspondem ao seu ideal do que pode ser a Humanidade, o cara que se odeia também se julga por um parâmetro exaltado do que significaria ser um bom membro da sua raça. Portanto nem a autocrítica humana é confiável. Quando nos elogiamos, então, falta-nos a mínima credibilidade. Não temos o distanciamento indispensável, não temos a isenção necessária, não temos a segunda opinião. Que só viria quando os bichos ou, mesmo, as paredes e os postes começassem a falar a nosso respeito, baseados em anos de observação. Não sei se teríamos estrutura para ouvir o que nossos utensílios domésticos pensam de nós. Para não falar nos nossos cachorros e nos nossos espelhos. Mas toda esta pseudofilosofia é para comentar a política econômica do governo. Depois de passar oito anos criticando a política econômica do governo anterior o governo Lula não só abraçou a mesma política como apalpou-lhe a bunda, com uma familiaridade que ninguém imaginava. Uma das primeiras coisas que o Palocci disse depois de ser empossado como o novo Malan foi que dobraria o superávit primário, justamente aquele ralo pelo qual, segundo o discurso antigo, sumia o dinheiro do social. O resto da política econômica também foi mantido, em alguns casos com maior rigor. Ouviu-se então que o PT trocara o ideal pelo possível e a poesia pela responsabilidade e aderira ao inevitável, que é a forma mais prática de ser inteligente, ou mais inteligente de ser prático. Estava confessando que não existe alternativa, a não ser poética, para a ortodoxia antes execrada. Que não existe segunda opinião possível. E não existe mesmo, a não ser que se procure longe da raça que domina o pensamento econômico nacional e ocupa a Fazenda e o Banco Central e que, como a raça humana, só pode ter uma opinião a seu próprio respeito e a respeito do que é e não é inevitável. Uma opinião suspeita não porque seus membros não sejam respeitáveis, mas porque não é da sua natureza pensar diferente. Há nações inteiras em que uma segunda opinião sobre a ortodoxia monetarista prevaleceu e estão fazendo diferente. Aqui há economistas e analistas que pensam diferente e têm outra opinião sobre como fazer. Mas são tratados como se pertencessem a outra espécie. fonte: O GLOBO, 6/3/2005 ------------------------------------------
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