| Manifesto
da Terra e da Água cobra outro rumo do Governo Federal
Por Sizan Luis, 26 de novembro, 2004 BRASÍLIA. A política econômica do Governo Federal foi o tema que mais recebeu críticas no Manifesto da Conferência Terra e Água. O documento foi entregue no Banco Central pelo presidente da Comissão Pastoral da Terra, Dom Tomás Balduíno, durante manifestação de cerca de 12 mil pessoas na capital federal. Organizada por 45 entidades, entre movimentos sociais e organizações não governamentais, a Conferência debateu, entre os dias 22 e 25, em Brasília, a política do governo e propôs ações, principalmente nas áreas agrária, distribuição de renda, geração de energia e preservação ambiental. No manifesto, os participantes afirmam que a política econômica tiram recursos das políticas sociais, concentrando recursos e riqueza, em benefício dos bancos e empresas transacionais. “É a principal causa do agravamento da situação social e da degradação ambiental com a manutenção da pobreza e da desigualdade e de patamares insustentáveis nas taxas de desemprego”, escrevem.
A realização de “uma reforma agrária ampla e massiva” e o assentamento “imediato e prioritariamente de todas as famílias acampadas” são os dois primeiros itens das ações propostas, junto com a aplicação do princípio social da terra, defendidos enfaticamente durante o manifesto que pede ainda a valorização da agricultura familiar e camponesa “retirando recursos do agronegócio”. A recente onda de violência contra os trabalhadores rurais sem terra e todo o tipo de violência contra eles motivaram itens do manifesto como o confisco das terras onde se realiza trabalho escravo e “a prevenção e combate à violência contra os pobres do campo”, por meio da criminalização das milícias privadas e condenação de mandantes e autores de assassinatos. Manifestantes
vaiam a política
Durante
os três dias da Conferência, representantes do Governo também
participaram de painéis de debate que trataram das políticas
para o campo, água e energia, soberania alimentar, biodiversidade
e diversidade cultural e dos próprios movimentos sociais. O acompanhamento
da Conferência Terra e Água pode ser feito pela Internet nas
páginas do MST (www.mst.org.br)
ou da Comissão Pastoral da Terra (www.cptnac.com.br).
Leia
abaixo o manifesto.
Créditos
das fotos: Agência Brasil e Sizan Luis, da assessoria de imprensa
da Deputada Federal Luci Choinacki (PT/SC)
Brasília,
26 de novembro de 2004.
"A Conferência Nacional da Terra e da Água, realizada em Brasília entre os dias 22 e 25 de novembro de 2004, constituiu-se em um momento de debate, celebração e fortalecimento das organizações e entidades que lutam pela terra, pela justiça e pela preservação ambiental. Os milhares de trabalhadores e trabalhadoras rurais, sem terras, agricultores familiares e camponeses, quilombolas, povos indígenas, geraizeiros, ribeirinhos, pescadores artesanais, quebradeiras de coco-babaçu, além de debater e avaliar as ações governamentais, re-afirmaram a necessidade urgente de uma reforma agrária ampla, massiva e participativa. É fundamental e urgente democratizar o acesso à terra, garantir a autonomia dos territórios das populações tradicionais, fortalecer a agricultura familiar e camponesa e garantir o direito à água, ao acesso aos recursos naturais, a produção de alimentos saudáveis, a soberania alimentar e a preservação da biodiversidade. A atual política macroeconômica prioriza altas taxas de juros, o acordo com o FMI para alcançar superávit primário, o pagamento de serviços da dívida pública e as exportações, incentivando a expansão do agronegócio. Essas políticas acabam tirando recursos das políticas sociais, aumentando a exclusão, concentrando recursos e riqueza, beneficiando bancos e empresas transnacionais. Essa política, formulada no governo FHC e mantida no governo Lula, é a principal causa do agravamento da situação social e da degradação ambiental com a manutenção da pobreza e da desigualdade e de patamares insustentáveis nas taxas de desemprego, que atinge um quarto da população ativa nas principais regiões metropolitanas. Essa política traz como conseqüências a escalada da marginalização, da criminalidade, da impunidade e da insegurança das grandes e médias cidades brasileiras, afetando igualmente a população rural. Exemplos disso são os recentes crimes cometidos contra os sem terra em Minas Gerais e contra os povos indígenas da reserva Raposa-Serra do Sol. É fundamental, portanto, realizar uma mudança profunda na atual política macro-econômica, reduzindo as taxas de juros e o superávit primário. Utilizar esses recursos em programas de geração de renda e empregos, na expansão de serviços públicos como reforma agrária, educação, saúde, previdência, habitação popular e em investimentos de infra-estrutura com a construção de estradas, saneamento básico, energia, entre outras políticas sociais e ambientais. Conseqüentemente, os participantes da Conferência da Terra e da Água exigem a promoção de uma verdadeira democratização social, econômica e política através da valorização do mercado interno e de uma política de distribuição de renda e da riqueza. Para implementar um novo projeto econômico e agrário, o atual governo deve:
Os/as participantes reafirmam e conclamam toda população brasileira a se manifestar em favor da auditoria da dívida pública cumprindo o texto da Constituição Federal, da reforma agrária, da agricultura familiar e camponesa e do respeito à autonomia das populações tradicionais, inclusive suas lutas pelo domínio de seus territórios. Comprometem-se a buscar uma relação diferente, respeitosa e integral, com a terra, a água e todos os seres vivos, através de uma luta por profundas mudanças na estrutura fundiária e nas relações sociais, criando a visão da terra, água e natureza como bens universais e não produtos de mercado ou simples meios de produção ou negócio. A luta e o compromisso dos/as participantes da Conferência Nacional Terra e Água são pela construção de um projeto de sociedade justa, igualitária, solidária, democrática e sustentável. Brasília/DF,
25 de novembro de 2004"
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