| Como
construir um herói
por Renato
Kress, Porto Alegre, 27 de janeiro, 2005.
O título vem com herói em minúsculo por um motivo: não estamos falando de um super-herói nem mesmo de um ícone pop como a figura do Che, que foi e vem sendo desvirtuada. Estamos falando do herói do dia-a-dia, do herói cotidiano, do “guerreiro menino” do Gonzaguinha. O tipo de indivíduo que deveria se formar para que as políticas e alternativas expostas durante o V Fórum Social Mundial possam ser levadas a cabo. Fosse eu o Paulo Freire escreveria “como educar um herói”, mas um título que conte com a palavra ‘educação’ leva o leitor a pensar a longo prazo e isso, a curto prazo, cansa. Por isso prefiro ‘construir’, não numa linha de montagem, cada um que monte o seu e eu não tenho uma fórmula pra isso. “Então porque diabos você está escrevendo esse texto?”, dirá o leitor desavisado. Oras, para incitar o leitor a construir-se como veículo da transformação que ele julgue necessária. Se eu admitisse a pergunta e colocasse o título “Como construir um herói?” poucas pessoas estariam dispostas a ler, afinal nesse Fórum estamos abarrotados de questões e com uma poça de soluções viáveis. Mirabolantes temos várias, aliás o leilão delas rola todas as tardes atrás dos chuveiros no centro do acampamento. O que quero trazer aqui é um convite à reflexão. Senti(n)do do sofrer humano A emoção que detém a mente diante de tudo o que é grave e constante no sofrimento humano é inalterável e a une com o sofredor humano. O sofredor humano é a expressão importante aqui, não o sofredor americano, não o sofredor negro, judeu, mas o sofredor humano. A piedade é, então, a emoção que detém a mente ante tudo o que é grave e contínuo no sofrimento humano e que a une ao sofredor. Quando Joyce inspira em Stephen Dedalus – o protagonista de “Um Retrato do Artista Quando Jovem” – as palavras: “Aristóteles não definiu piedade e terror, eu defini”, as definições de Dedalus sobre a compaixão e o terror são importantíssimas para qualquer artista que esteja pintando o próprio quadro biográfico, como na composição do próprio réquiem. Aqui, em cada festividade, em cada palestra, em cada trocar de passos pelo acampamento, vemos olhos verdes, acastanhados, de mel, azuis, negros, puxados, arregalados, tristes, olhos suplicantes, cansados e ainda assim de uma vida tão intensa, de uma vida em busca. São dores, terrores como os olhos fraquejantes de tão sólidos de uma senhora turca que serviu de escudo humano no Iraque, olhos que se esvaíam por seus braços finos, por sua fala breve finalizada em sorriso resoluto. Terror O terror é uma experiência extática daquilo que transcende a dor. É a emoção que aprisiona a mente diante das constantes gravidades no sofrimento humano. “É indescritível o som de uma bomba quando ela atinge nosso lar”, “...é irracional a vontade de viver dos iraquianos”, “...quando uma bala atravessa o ombro de uma criança que te pediu comida e não olhou antes de se separar do escudo-humano, você entende o que é terror”. Heroísmo Imagine que um homem negro recebe um tiro e é morto por um homem branco. Qual a causa da morte? A bala, o racismo? A primeira é a causa instrumental. Se você vai escrever sobre balas e como estas não deveriam andar soltas por aí, ou que não é uma boa ter armas disponíveis para qualquer um nas grandes cidades, você pode estar escrevendo um importantíssimo tratado sobre o controle de armamentos, não estará sensibilizando, não descreverá, ainda, a tragédia. O homem branco atira no homem negro. Será este ato uma expressão de conflitos racistas? Se é este agora a causa do tratado temos mais uma vez uma causa instrumental e ainda não sensibilizaremos o suficiente. Ainda não. Talvez um tratado social de grande importância no mundo acadêmico, no máximo uma calamidade, não uma tragédia. Refiro-me a um homem branco e a um homem negro porque penso em Martin Luther King Jr., e nas suas corajosas palavras antes do seu assassinato: “Sei que por clamar por esta justiça e esta causa, estou desafiando a morte”. Destinos e morte A causa secreta de sua morte é seu destino. Talvez toda a vida tenha um limite e, ao desafiar o limite, você o esteja trazendo para mais próximo de você, e os heróis são os que desencadeiam suas ações, não importa que destino disso resulte. A idéia
da morte como um cumprimento ou realização é o fundamento
do sacrifício nas grandes sociedades baseadas na agricultura. Também
se acha na base da idéia da crucificação de Jesus
e em várias religiões, seitas e culturas ao redor do globo.
O que pode ser mais importante: a proximidade da morte – a inevitável
– ou da realização – nosso ‘nivana’ pessoal?
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