Um
projeto político contra 'os debaixo'
Diário impresso e de tevê das Organizações Globo atacam trabalhadores bolivianos, camponeses brasileiros e servidores públicos. Enquanto isso, fazem campanha para FHC e ignoram fatos relevantes. Por Gustavo Barreto, 10 de março, 2005O Jornal Nacional desta quinta (10/3) deixou a manchete no ar, para depois de um intervalo: "O ministro José Dirceu reconhece (sic) aumento dos gastos públicos". O fato de um governo aumentar seus gastos é, na maioria dos casos e neste em particular, bom. Significa que estamos realizando mais investimentos, tanto em serviços quanto em seus servidores (como foi destacado). Que o Estado está atuando de forma mais ativa, como deve ser, e voltado para a população. Não está aumentando nada, na verdade, e sim recuperando o estrago que foi feito na "Era FHC". Estado? Pra quê Estado? Perceba que, no palavreado do JN, Dirceu "reconheceu" o aumento — que, em boa parte, é uma exigência da sociedade. Tem que gastar melhor, claro, mas é evidente para qualquer brasileiro que falta pessoal, que falta computador e que falta, de forma mais geral, serviço público. Nada disso foi dito. O jornal O GLOBO, também dos Marinho, vai no mesmo sentido: "(...) acabou admitindo que houve, sim, aumento dos gastos" [edição de 11/3/2005]. Dirceu explicou: "Os servidores públicos tinham uma defasagem gravíssima e sabemos o que significa um funcionário mal remunerado e insatisfeito em termos de produtividade, de eficiência, de eficácia e de efetividade no serviço público". Lula completa o raciocínio: "Nós estamos com um hábito, um desvio, que é o seguinte: toda vez que a gente fala na área social, fala-se em gasto, e quando a gente fala em outros setores, fala-se em investimento. É preciso ter claro que quando a gente dá Bolsa Família ou Bolsa Escola, na verdade estamos fazendo um dos mais preciosos investimentos deste país, que é dar às pessoas a oportunidade de comer. (...) Isso não é gasto, isso é investimento, porque essa pessoa bem nutrida vai trazer um saldo produtivo para todos nós, vai se transformar em consumidor, em trabalhador. É um erro sociológico." Mas O GLOBO insiste na tese, colocando um parágrafo COMPLETAMENTE desproporcional na matéria: O ministro [José Dirceu] usou o termo gastança, já adotado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que também já disse que o governo atual é incompetente.
* * * O Sul, por sinal, é dominado pela filiada da Globo: a Rede Brasil Sul de Comunicação (RBS). Um dos três pilares comerciais deste grupo é a “Gestão Rural”. Para ficar claro: o maior grupo de comunicação da região sul do país tem como um dos três pilares comerciais a gestão rural. Não é crime, estou apenas registrando. Para tanto, criou em 1998 a “Planejar Brasil” — ou “Planejar Informática e Certificação Ltda” — organização com sede em Porto Alegre (RS), com negócios voltados ao setor de agronegócios (ver em www.planejar.com). Não se discute, aqui, porque um grupo tão grande de Comunicação teria como “um dos três pilares comerciais” a gestão rural. E até que ponto isto influencia na linha editorial dos seus meios de comunicação. Daí você entende porque as reportagens produzidas pelo grupo RBS e reproduzidas pela Globo (ou vice-versa, que seja) são quase sempre contrárias ao MST e comprometidas com o agronegócio — e, conseqüentemente, com latifundiários da região. * * * Manipulação grosseira com a imagem e mentiras com as palavras, eis o que se deu. Contra o poder das imagens e do monopólio, no entanto, o bravo povo boliviano nada pode fazer. O que não o impede de parar a venda de recursos naturais da Bolívia a preço de banana. Inclusive para a gigante transnacional PETROBRÁS — alguém aí conhece? —, o que fez o JN se preocupar profundamente com "o bloqueio das estradas que ameaça o abastecimento do país". Faltou dizer que país é esse. O jornal O GLOBO vai na mesma linha e diz qual é a justificativa do presidente: "O governo alegou que aumentar os royalties acima de 18% levaria a processos contra a Bolívia em tribunais internacionais". [edição de 11/3/2005]. Quando é governo, é um "argumento". Uma coisa fina, de gente boa. Agora vejam como o líder da oposição, Evo Morales, é tratado: "O líder cocalero, chefe do Movimento ao Socialismo (MAS), manteve-se firme em sua rejeição à nova Lei de Hidrocarbonetos proposta pelo governo, que estabelece a cobrança de 18% de royalties das empresas petrolíferas que atuam no país: Morales bateu pé na exigência de 50% de royalties". Para O GLOBO, não se trata de um argumento. Ele "bateu o pé". Coisa de criança, que quer porque quer e ponto! Além disso, trata a crise como se fosse um "fosso de discórdia entre os dois [Mesa e Morales], que mergulha a Bolívia numa crise institucional desde a semana passada". A Bolívia passa por uma crise social há séculos e a discórdia é entre todos os movimentos sociais e a minoria privilegiada. O que a GLOBO enxerga? A crise institucional. Dane-se o povo, viva as instituições. O enviado especial Flavio Henrique Lino continua sua exaltação a Mesa: "Dezenas de milhares de bolivianos atenderam à convocação de Mesa e acorreram ontem às praças centrais das principais cidades para pedir o fim dos bloqueios nas estradas do país. Em La Paz, Cochabamba, Tarija, Santa Cruz de la Sierra, Potosí e outras cidades, a cena foi a mesma: multidões de manifestantes agitando bandeiras bolivianas, lenços brancos, gritando slogans de apoio a Mesa e exigindo o retorno à normalidade. “Queremos paz” e “Não aos bloqueios” foram os gritos de guerra dos manifestantes". (matéria "Negociação entre Mesa e opositor fracassa", O GLOBO, 11/3/2005) Chegou ao cúmulo de dizer que a "massa" de apoiadores de Mesa pediu "mano dura (sic) do governo contra os bloqueadores das estradas". Repressão: pelo jeito, a GLOBO não consegue se livrar da sua origem, em 1965, durante a ditadura militar. Será que isso tem a ver com o tipo de "integração" que a própria empresa deseja? Porque no mesmo dia, na parte de Economia, João Roberto Marinho, vice da empresa, declarou que "para O GLOBO é de suma importância contar com o intercâmbio de informações editoriais com os jornais mais importantes da região (sic), no momento em que o Brasil está promovendo sua integração com a América Latina". Ele disse isso após tomar posse na presidência do Grupo de Diarios América (GDA), consórcio formado em 1991 por 11 jornais latino-americanos líderes em seus países "para reforçar a posição de seus associados na região e em seus próprios mercados". (matéria "O GLOBO assume presidência do GDA", O GLOBO, 11/3/2005) Recado claro: se não fizermos a integração dos povos antes, a elite a fará. * * * Eis que a resposta vem na reportagem seguinte, de forma escancarada, dando a continuidade ideológica. O Clube de Madrid, "que reúne ex-governantes do mundo inteiro que lutam pela democracia", é presidido por Fernando Henrique Cardoso, informa o JN, e teve um encontro hoje. O tema da reunião? Combate ao terrorismo. Eis que aparece o líder que eles tanto amam, FHC, na sua encruzilhada contra os malucos deste mundo. Aqueles da reportagem anterior, de forma bem didática, que é pros netinhos entenderem. * * * O que o JN chamou de "notícia", eu chamo de fofoca desnecessária. Não há relevância, apenas pelo fato de que ele é uma "celebridade" — o que não torna a informação de interesse público, a não ser que os editores queiram. É o que a mídia chama de um fato político e eu chamo de fabricação de um fato. Você já tentou imaginar o JN se importando em ir pelo menos uma vez ao mês — só uma vezinha — a algum hospital público brasileiro para entrevistar, talvez, o Jucenir? Não, com "os debaixo" não devemos nos importar tanto quanto o papa, nesse vai-e-vem no Vaticano que não acaba nunca. Muito católico isso. * * * Fim de acordoNada a se preocupar. Afinal, são apenas seres humanos sem direito a defesa. Bobagem. _____________________________ |