Memória Murada

A Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria acabaram, mas muitas outras ainda estão no dia-a-dia dos habitantes de Berlim: a xenofobia, o neonazismo, as lutas sociais, a negação do passado e o próprio desentendimento entre a política e a história contradizem a paz proclamada em 1989. Pedaços do muro ainda se encontram pelos arredores da capital alemã. Sejam em cartões postais, sejam erguidos próximo ao Checkpoint Charlie, ainda lembram o que existiu há pouco mais de uma década.

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Por Ana Rachel Dantas, correspondente em Berlim, para a Revista Consciência.Net, abril de 2005
 

          Espantosa, fria e dúbia. Assim é Berlim. Entre construções modernas e constantes e as antigas edificações, vê-se rostos ensimesmados, (des)acostumados com as várias realidades ainda presentes em toda a cidade.

          A Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria acabaram, mas muitas outras ainda estão no dia-a-dia dos habitantes da capital alemã: a xenofobia, o neonazismo, as lutas sociais, a negação do passado e o próprio desentendimento entre a política e a história contradizem a paz proclamada em 1989.

..Mauer Museum Haus am Check Point Charlie, Berlim
Pedaços do muro ainda se encontram pelos arredores de Berlim. Sejam em cartões postais, sejam erguidos próximo ao Checkpoint Charlie, ainda lembram a quem quer esquecer ou a quem não quer saber o que existiu há pouco mais de uma década.

O muro que separou família, amigos e culturas foi construído em 1961. Era chamado de Die Mauer (o muro) pela população e atravessava toda a cidade, com uma extensão de 165 quilômetros. Mesmo possuindo 260 torres de observação com soldados armados, 127 redes metálicas eletrificadas com alarme, 265 pistas de corrida para ferozes cães de guarda e tábuas no chão com pregos de 12 centímetros de comprimento, milhares de pessoas tentaram escapar do comunismo com a promessa de liberdade ou com a esperança de reencontrar entes queridos, passando a viver quase que aprisionados.
 

Luta pela memória histórica..
          Mais de mil pessoas morreram, centenas ficaram feridas e 75 mil foram presas. Hoje há um memorial instalado próximo aos restos do muro. O Checkpoint Charlie deixou de ser apenas um ponto turístico, onde as pessoas se deixam fotografar com bonitos modelos alemães hasteando a bandeira americana, ou ainda sorriem embaixo de uma pilastra com a foto de um soldado russo, enquanto um tráfego intenso de carros perturba a paisagem. O local em que antes se fazia o rígido controle entre as fronteiras hoje se tornou local de protesto.

          O regime comunista vigente era severamente controlado na DDR (Deutsch Demokratische Republik – República Democrática Alemã). Apesar da DDR ter possuído seus próprios governantes e ter se declarado autônoma, era, na realidade, moldada pela Rússia. Assim, a checagem nesse posto, em especial, era rigidamente supervisionada. Outros postos de controle como Checkpoint Charlie existiram. Entre a Alemanha e a Tchecoslováquia, entre a Áustria e a Hungria, etc. Mas o que torna o Checkpoint Charlie unique é ter sido a porta de entrada na Europa Comunista.

          O Memorial criado no Checkpoint Charlie foi inaugurado em 31 de dezembro de 2004 por Alexandra Hildebrand. Foi construído um muro com pedaços do muro antigo que cerca 1.065 crucifixos com fotos, nomes e datas relembrando pessoas que foram assassinadas ou se afogaram na tentativa de fugir do regime. Lembram ainda aos visitantes de Berlim como a DDR, STASI (Staatssicherheit – Segurança do Estado – inserido na DDR) e SED (Sozialistische Einheitspartei Deutschlands -  Partido Socialista Unitário, o único partido político) faziam a cruel prevenção de fugas.

          A grande questão que atinge diretamente o Memorial: os antigos membros do SED são atualmente membros da SPD (Sozialdemokratische Partei Deutschlands). Esses políticos não foram punidos após 1989. Apenas mudaram de partido como se nada tivesse acontecido. E hoje, obviamente, são contra o Memorial. O Memorial é mais do que bem-vindo nessas condições e quando muitos alemães, principalmente jovens e crianças, não têm a exata noção do passado de seu próprio país.

          Segundo Rudolf Schröder, vítima da DDR, o passado está sendo esquecido tão rápido quanto o muro foi derrubado.

..Cartazes em frente ao memorial
Próximo ao Memorial, há ainda um museu, Mauer Museum Haus am Checkpoint Charlie (www.mauer-museum.com). Agora, depois de todo o memorial pronto, alguns governantes têm o memorial como um “excesso”. Em frente ao local, há placas de protesto contra essa atitude do governo e muitas outras, que vão contra tudo o que cerca essa construção.

          Há ainda uma polêmica sobre o prédio do ministério que fica próximo ao Checkpoint Charlie: o ministro das Finanças, H. Eichel, quer a retirada dos cartazes que lembram a Segunda Guerra Mundial da fachada do prédio. Ele justificou o pedido afirmando que o prédio é um monumento tombado, assim cartazes não são permitidos. Quem é contra lembra que esses cartazes mostram quando os tanques soviéticos mataram dezenas de alemães para o fim da revolução na rua Wilhelm, que é uma testemunha da história alemã. Para Schröeder, isso não pode ser empurrado para o lado.

          A diretora do museu recebeu acusações do jornal Tageszeitung, o que vêm prejudicando o impasse. O jornal acusa o museu da venda de pedaços do muro e fala ainda sobre notas fiscais encontradas nos anos 90 que comprovam o pagamento de pintores do muro. Onde está o crime? Hildebrant não quis dar declarações a respeito.
 

Rudolph Schröder, ex-preso político..
          A. Hildebrant tenta ainda comprar o terreno de 8.600 metros em que está situado o memorial. O valor de 14.500 euros já foi pago ao proprietário, o banco Bankgesellschaft (BAG), sem nenhum documento assinado. Agora, o banco exige 36 milhões de euros, uma quantia que, como disse a responsável pelo Memorial, ninguém pode pagar. Ela está tentando conseguir ajuda, mas até agora vem apenas dos turistas. Rudolph Schröder, um dos 33 mil presos políticos vitimados pela DDR, dá seu depoimento sobre o regime em frente ao memorial. Colocou um stand com a permissão da diretora do museu e pede por assinaturas, contribuições, o que for possível para manter o memorial erguido. Distribui ainda materiais e reportagens que detalham todo esse processo para os visitantes, na tentativa de que isso chegue ao fim.

        * * *
          Quando achava que a matéria já estava terminada, no trem de volta a Hamburgo encontrei uma fonte preciosa. Talvez mais do que vários prédios e museus que visitei.

          Um rapaz vinha ao meu lado e começamos a conversar animadamente. Tínhamos ainda uma hora e meia pela frente. Comentei que havia ficado impressionada com a história de Berlim e, principalmente com o regime comunista. Falei ainda que gostaria de ter informações de pessoas que viveram lá. E, coincidentemente, ele era um deles. Ofereceu contar tudo o que sabia sobre o regime, apesar de ter apenas 15 anos quando o muro caiu. Disse que ainda se lembrava do suficiente para saciar minha curiosidade.

          A partir do momento em que as perguntas surgiram, suas mãos começaram a suar, os olhos não me encaravam maistornaram-se lacrimosos. A barba, imediatamente, começou a incomodar e provocar comichões. Vi que as lembranças ainda o atormentam, apesar de fingir que não.


Em várias línguas, diz o aviso: "Você está deixando o setor americano"

          “Não havia indústrias. O American Way of Life era vetado. Nos cinemas, na alimentação, na tv, em qualquer lugar”. Apesar de várias proibições, disse que quando se estava em um bar, conversando com os amigos, não paravam pra pensar que estavam sendo vigiados e controlados por um regime. “Mas não pensem que tudo era ruim. Havia vida boa também”.
 

          A situação social era muito interessante: não havia desemprego, não havia fome. Mas o trabalho era obrigatório. O controle buscava os preguiçosos e os largava na porta do trabalho. A alimentação não era das melhores: pão duro, salsichas (Wurst), enlatados e raramente uma boa carne. A alimentação especial era reservada para o alto comando russo que aproveitava a alimentação vinda do outro lado de Berlim. “Enfim, as relações do outro lado para a população deveriam ser cortadas ou não era possível trabalhar”. (...) Com a queda do muro, achavam que a liberdade e os sonhos enfim virariam realidade, mas não. Não havia emprego suficiente para tanta gente

          Com a queda do muro, achavam que a liberdade e os sonhos enfim virariam realidade, mas não. Não havia emprego suficiente para tanta gente. Os reflexos ainda podem ser vistos. Há 16% de desemprego na área que abrangia o regime oriental. Enquanto que na área ocidental 4%, apenas. “Primeiro foi a euforia e depois a decepção”.

          O que é a infância em um regime soviético? Todas as crianças assistiam a tv do oeste, mas não poderiam contar pra ninguém. “Se você achava que seu vizinho de cima fazia parte do controle, você não poderia comentar com o vizinho debaixo, porque ele também poderia fazer parte do controle...”

          Os professores perguntavam como era o relógio dos canais que estavam assistindo em casa. Como um círculo ou um quadrado. A partir daí sabiam se eram canais do regime soviético ou americano. O controle ia investigar os lares das crianças. Um caderno do Mickey Mouse era uma relíquia escondida a sete chaves.

          O esporte era tudo na DDR e a aptidão era levada a sério. Deveriam treinar incessantemente durante horas e sem oposição. Se na juventude tentassem resistir aos treinos, eram severamente punidos. A DDR chegou a ganhar o maior número de medalhas em um jogo olímpico de inverno, o que era admirável comparando o tamanho do país. Era a chance que a DDR tinha de se mostrar ao mundo. O regime militar, obrigatório.

          Mais uma pergunta e ele parou de responder. Não estava se sentindo à vontade com minhas anotações. Quando soube que estava querendo publicar na internet sua entrevista, não falou mais comigo. Liberou apenas suas respostas e proibiu seus dados. Passou dez minutos calado e disse: tenho medo. E eu que achava que tudo havia terminado com a queda do muro...

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Esta reportagem foi elaborada por uma colaboradora internacional da Revista Consciência.Net (www.consciencia.net) no começo do ano de 2005. Os interessados em entrar em contato com Rudolph Schröder devem enviar um email à redação da revista fazendo a solicitação. Contato: consciencia@consciencia.net

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