Falidos e mal pagos: o movimento

Por Carlos Castelo Branco, da Caros Amigos, 22/2/2003

O Brasil quebrou. É hora de botarmos a mão no peito e compungidamente, pelo menos uma vez nesses 502 anos, abusarmos da sinceridade admitindo: estamos todos - sem exceção - lascados.

Nosso presidente disse recentemente no Congresso que dias piores ainda vêm por aí. Guerrra, inflação, juros escorchantes, desemprego, dengue, o diabo. O que mais nos estaria reservado? Um ataque de etês ao Banco Central?

E nem precisa ir muito longe pra sentir a fedorenta realidade. Basta conversar com o primeiro cara que passar na sua rua. O sujeito vai estar "pronto", cheio de achaques, dizendo que está endividado até 2025.

O incrível é que o mesmo acontece com o bacana da Ilha de Caras. Aquele bronze é só figuração, pode crer. O Range Rover biturbo, com tração ativa nas nove rodas, está com 17 prestações atrasadas; o bangalô de praia está no nome de um "laranja" (porque o CPF do bonitón está no SPC) etc, etc.

No âmbito empresarial a coisa não está diferente. A mídia quebrada, Globo, jornais, revistas, agências de propaganda devendo os tubos. Companhias aéreas falidas, concessionárias de veículos abrindo o bico. O comércio, nem se fala. Tem dono de motel aí fazendo promoção pra cliente vir a pé às suas suítes. Estamos no mato sem cachorro. E, em breve, sem mato, pois os gringos vão arrancar a Amazônia pra fazer remédio.

Diante desse triste quadro e, na qualidade de homem de marketing (não o que o Duda e outros fazem, mas não deixa de ser a mesma atividade), lanço nesse espaço a campanha "Tô falido e mal pago".

Antes de mais nada, não se trata de um movimento contra o governo, contra o PT, contra nada. Também não é mais uma campanha alimentar, trata-se de conscientização falimentar. Nós, do Movimento "Falidos e Mal Pagos" (*), queremos provar que estamos bem pior que a Argentina. Com todo aquele merdê portenho - troca de presidentes, cantores de tango jogando coquetéis molotov na polícia - o peso está beirando os 3 X 1. Enquanto que aqui, o real está quase 4 X 1 em relação às doletas. E ficamos fazendo de conta que não é com a gente, que é com a Venezuela ou a Bolívia.

O "x" da questão é: onde estão os panelaços, os buzinaços brasucas? Vamos continuar batendo lata só no Carná? A passividade, o tal do "ser ou não ser", fez com que o jovem Hamlet assistisse à matança de toda a sua família - e mais uns dez caras que não tinham nicas a ver com as calças do reino escandinavo.

Mais cedo ou mais tarde acabaremos todos assim. Com cocô acima das narinas e a juventude preocupada com o tipo de tatuagem mais adequado a seu bumbum. Companheiros, todos à luta pela conscientização de nossas desgraças seculares. Não sem antes decorarmos nosso grito de guerra: "falido unido, jamais será vencido"!!
 

(*) FAMAPA - "Movimento dos Falidos e Mal Pagos².

fonte: Correio "Caros Amigos" - 22/02/2003

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