James Enéas, agente secreto

por Castelo, março de 2005, na Caros Amigos
 

Meu nome é Enéas. 

James Enéas. 

Na verdade este é meu codinome. 

Ridículo, já me disseram. 

Mas apelido é sempre meio esdrúxulo. 

Sou um agente secreto. Pra ser mais preciso, agente para operações especiais da ABIN, matrícula AI-OO5 - atualmente lotado no Ministério do Turismo. 

Parece brincadeira, mas a situação dos arapongas brasileiros é muito, muito estranha. 

Outro dia fui convidado para a 27ª Feira de Utilidades para Agentes Secretos, no Anhembi. 

Disseram que ali havia desde disfarces incríveis, como o de um Topo Gigio inflável, até grampeadores de telefone com sachê floral. 

Uma oportunidade única de atualizar meu lado profissional. Mas fui obrigado a negar o convite. 

Adianta ir a um evento desses sem verba de representação nem pra comprar um isqueiro lança-chamas coreano? 

Além do mais, uma pessoa de meu gabarito não poderia aceitar vir de Brasília a São Paulo por via fluvial. 

A imprensa diz que o dinheiro que vai para o FMI está deixando de pagar a educação, a saúde, a cultura. 

É uma meia verdade. 

Esse dinheiro também está deixando de pagar o serviço secreto. 

Duvida? 

Então saiba como foi minha última missão. 

Recebi uma carta do QG na minha residência – não tenho acesso à Internet - em Ceilândia. 

O general L.M. me dava ordens de seguir J.S., um ativista muçulmano xiita, em sua passagem por Brasília. 

Na carta dizia apenas onde o “Carcamano” estaria hospedado e que eu deveria fazer um relatório sobre sua movimentação, enviando tudo depois em três vias para o tenente-coronel S.G. 

Mandei um beijo na minha mulata Gérsan, outro no meu vira-lata Agepê e sai do barraco rumo à Asa Sul. 

Antes dei uma parada no Bar do Nicolau e, imitando o Nero Wolfe, meu detetive do coração, tomei um rabo-de-galo e comi um ovo cozido. 

O ônibus, como sempre, seguiu lotado e quentíssimo. 

Acabei cochilando. 

Bem mais tarde despertei, todo suado, dentro de um barracão. 

Tentei me mexer, mas reparei que estava amarrado e amordaçado. 

Tinham me seqüestrado. 

Pensei na hora que eram terroristas da Al Qaeda, mas eram dois pivetes. Quando tiraram o pano de minha da boca, lhes disse em tom ameaçador: 

– Sou agente secreto. Olharam-me com desprezo. Um deles ordenou ao outro: 

– Libera. Mas dá dois passes de ônibus que o cara é lesado. 

Humilhado, fui ao endereço citado pelo general. Era uma pensão domiciliar. A dona me informou: 

– O Turco acabou de sair para o aeroporto. E tava com pressa… 

Vi uma bicicleta em frente à pensão. Era do filhinho da matrona. 

Odeio fazer isso. Mas não tive outra alternativa senão subir na bike e sair gritando avenida afora: 

– Por falta de transporte mais adequado, exproprio essa Caloi em nome do Governo Federal brasileiro! 

Cheguei ao aeroporto 90 minutos depois. No balcão da companhia aérea uma atendente loura me informou que J.S. acabara de decolar rumo ao Dubai. 

Fim da missão. Só me restava uma coisa: ir ao Habib’s e comer uns quibes. 

Nero Wolfe entenderia o meu lado. 
 
 

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