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Direita gaúcha teme sucesso de assentamento Por Daniel Cassol, 24/2/2005,
para o Brasil
de Fato
PORTO ALEGRE. O dia em que 44 das 51 famílias do assentamento do Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD), em Eldorado do Sul (RS), estavam em Porto Alegre, trabalhando no Fórum Social Mundial, foi escolhido pelo jornal Zero Hora para uma visita que embasou a reportagem “Fracassa primeiro assentamento de desempregados”, publicada no dia 21 de fevereiro. Com o teor de editorial, a reportagem tentou provar que os desempregados urbanos viraram favelados rurais, conforme o título interno da matéria. A equipe do principal jornal do Grupo RBS, porta-voz da direita gaúcha que controla os maiores meios de comunicação do Estado, encontrou no assentamento quase vazio a família de Alvantino Brandão e Leonilda Aguilar, e do casal ouviu o que buscava: “Os mendigos estão melhor do que nós”. Ao Brasil de Fato, Leonilda conta que o casal morava na beira de um valão, na periferia de Sapucaia do Sul, na região metropolitana de Porto Alegre, quando foi para o acampamento que deu origem ao MTD, em 2000. Do seu jeito simples, ela diz que a falta de recursos é a principal razão do seu descontentamento. Porém, mostra com orgulho a horta que ela e o marido cuidam, apesar da seca que atinge o Estado; fala dos filhos que estão na escola; e presenteia o jornalista que a visita com uma abóbora produzida no seu lote, gesto que costuma fazer com a vizinhança. “Nosso pátio é todo plantado. Quando tem alface plantamos até do lado da casa”, conta. Mas isso o Zero Hora não publicou. Estado omisso Os problemas que o assentamento de fato enfrenta são tratados pelo jornal como fruto da falta de aptidão dos desempregados urbanos no manejo da terra, já que não teriam “preparo agrícola e empreendedor”. A responsabilidade do governo gaúcho é tratada como um problema menor. “Todo mundo é culpado e todo mundo é inocente. O projeto era bom, mas não deu certo”, diz, na reportagem do Zero Hora, o secretário estadual do Gabinete da Reforma Agrária e Cooperativismo (GRAC), Vulmar Leite. No mesmo dia, a direção estadual do MTD reagiu ao ataque, questionando se o que ocorre com o assentamento Belo Monte é um fracasso ou um descaso por parte das autoridades. “Se, em mais de dois anos, o governo não libera um único centavo, não encaminha um projeto sequer, não há culpados?”, pergunta o MTD, que vai solicitar à Comissão de Agricultura da Assembléia Legislativa uma audiência pública com o GRAC e com as prefeituras onde o movimento tem assentamentos no Rio Grande do Sul. O atual governo do Estado interrompeu a liberação de recursos de programas como o de Agricultura Familiar (Pronaf) para reavaliar projetos em andamento com problemas. Os assentados foram orientados a comprar matrizes de suinocultura sem que, por exemplo, tivessem recursos para o plantio de milho para ração. Outras falhas permitiram que os assentados recebessem telhas, mas não o material para o alicerce das casas. Sem problemas Após uma mobilização, em agosto de 2003, o MTD ouviu do governo que o assentamento rural-urbano era considerado inviável. Pressionado pelo MTD, o governo acabou reconhecendo que os problemas eram resultado da formulação equivocada dos projetos, e que o assentamento era viável. E prometeu liberar recursos, o que até hoje não aconteceu. “A energia elétrica, a assistência técnica, os recursos de investimentos, são questões que estão sob o controle do Estado e não dos assentados, portanto é responsabilidade do governo”, diz nota do MTD. Enquanto a reportagem de Zero Hora era feita, a Prefeitura de Eldorado do Sul, em um mutirão que contou com o trabalho dos assentados, resolveu em menos de uma semana o problema da água, que se arrastava há mais de três anos. Assim como a solução do problema da água não foi mencionada pelo jornal da RBS, a reportagem também ocultou as vitórias conquistadas pelo assentamento. Conforme a direção do MTD, em toda a história do assentamento, não há um caso de desnutrição infantil. Além disso, todas as crianças estão na escola e cerca de 80% das mulheres recebem atendimento de saúde e um plano familiar. Os oito grupos de famílias lavraram cerca de 15 hectares do assentamento, porém a seca prejudicou a produção. À espera de recursos, há projetos de piscicultura, apicultura, frutas e hortifrutigranjeiros, um viveiro de árvores frutíferas e uma ciranda para as crianças, que terão recreação, oficinas e acompanhamento pedagógico. Segundo o deputado estadual Frei Sérgio Görgen (PT-RS), os primeiros assentamentos da reforma agrária no Estado também enfrentaram dificuldades e foram criticados pela grande imprensa. A seu ver, os assentados do MTD em Eldorado do Sul estão pagando o preço do pioneirismo. “Os poderosos temem o sucesso do MTD. A reportagem é o sintoma deste medo”, afirma. Na frente de casa, diante do açude onde brinca um grupo de crianças, a assentada Ivanir Ribeiro conta que em uma semana acabam as férias e os cinco filhos voltam à escola. Ela e o marido Alberi estavam desempregados na periferia do município de Viamão (região metropolitana de Porto Alegre) quando decidiram integrar o acampamento, em 2000. Ela acha que a vida precisa melhorar, mas gosta de saber que seus filhos podem brincar tranqüilos no assentamento. “Antes, era melhor porque eu morava mais perto de Porto Alegre, mas aqui meus filhos estudam, brincam no açude, jogam bola. É como se fosse o paraíso”, diz. “Muitos guris que conheci na vila, que tinham a idade dos meus filhos, já não existem mais”. fonte: Brasil
de Fato, 24/2/2005
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