| EUA-Rússia
As críticas americanas e a resposta da Rússia Por Vladimir Simonov, observador político da RIA "Novosti", fevereiro de 2005 No encontro entre Vladimir Putin e George Bush, a ser realizado a 24 de fevereiro em Bratislava, na Rússia, um dos temas em foco será a cooperação económica entre os dois países. A atuação do empresariado russo no mercado americano desperta particular interesse, tendo os maiores consórcios da Rússia feito nos últimos tempos importantes aquisições de ativos na América. Por exemplo, a empresa russa Severstal adquiriu a companhia Rouge Industries, o quinto maior produtor de aço dos EUA, tendo a companhia LUKoil conseguido convencer a Conoco Philips a vender uma rede inteira de postos de abastecimento nos Estados de Nova Jersey e Pensilvânia. Os dois presidentes constatarão com satisfação o reforço da cooperação económica entre os dois países principalmente graças ao alargamento do comércio bilateral. Os investimentos russos na economia norte-americana equivalem já a um bilhões de dólares, o que é perfeitamente comparável com os investimentos americanos na economia russa. Em 2003, as trocas comerciais entre os dois países movimentaram 7,1 bilhões de dólares, tendo aumentado para o dobro no ano passado, cifrando-se actualmente em quase 14 bilhões de dólares. Por outras palavras, as partes começam a explorar as potencialidades ainda não aproveitadas. Verdade seja dita que, por enquanto, a Rússia encontra-se apenas na terceira dezena dos principais parceiros comerciais americanos, atrás da Nigéria, Venezuela, da Suécia e de uma série de outros países. No que se refere as Estados Unidos, estes ocupam a 7.ª posição entre os principais parceiros comerciais da Rússia. Moscou está pouco satisfeita com o comércio bilateral com os EUA tanto em termos quantitativos como qualitativos. Quer dizer, as importações têm sido assinaladas pelo predomínio das mercadorias com alta taxa de valor agregado, enquanto as exportações (principalmente de matérias-primas) por uma baixa taxa de transformação. À luz disso, Moscou gostaria de "enobrecer" o conteúdo das trocas comerciais entre os dois países. Pouco impressionam também por enquanto os investimentos dos EUA na economia russa. A maior potência mundial poderia investir muito mais. De acordo com os dados de 2004, os EUA desceram do segundo para o terceiro lugar, tendo investido apenas 4,2 mil milhões de dólares no que se refere aos investimentos directos, ficando atrás dos Países Baixos (7,8 mil milhões de dólares) e de Chipre (5,5 mil milhões de dólares). Quanto ao volume geral de investimentos, os EUA ocupam uma modesta 6.ª posição (6,7 mil milhões de dólares). O que impede então um progresso decisivo na cooperação entre os dois países? Ao que parece, os pontos de vista de Moscou e Washington divergem neste aspecto. A parte americana costuma lamentar a ausência de um "normal clima económico" na Rússia, a fraca base legislativa e a deficiente protecção da actividade empresarial face às arbitrariedades por parte das autoridades russas. Para provar esta última é citado o exemplo do "caso YUKOS". Moscou aceita uma parte das críticas, referentes antes de tudo à imperfeição da legislação e à precária aplicação da mesma, o que é reconhecido praticamente em todas as declarações de altos funcionários. No entanto, seria muito mais lógico tratar com maior paciência um país que acabou de finalizar a passagem do sistema de economia planificada para a economia de mercado. No que se refere ao "caso YUKOS", que tanto perturbou o Ocidente, para o espanto de muitos, este não impede de modo algum as maiores agências internacionais de elevar o "ranking" de investimentos da Rússia. Ao que parece, o "caso YUKOS" tem vindo a ser aproveitado pelos neo-conservadores americanos não para defender a livre iniciativa russa, mas para dificultar a vida da Administração Bush, obrigando-a endurecer a sua política russa e, em última instância, destruir as relações entre os dois países, apresentando a Rússia como inimigo dos EUA. Talvez prevendo isso, o chefe da diplomacia russa, Serguei Lavrov, disse, intervindo no recente Conselho Empresarial de Cooperação russo-americano, que a "Rússia e os EUA têm aprendido a separar o essencial do acessório". Actualmente a tarefa-chave da Rússia na área económica é a adesão à Organização Mundial do Comércio (OMC). Ao conseguir em 2004 o apoio à adesão por parte da União Europeia e China, Moscou centrou hoje os esforços em conseguir o mesmo dos EUA. Por exemplo, já foi alcançado um determinado progresso no acordo de condições para a comercialização de equipamentos aeronáuticos civis russos. No entanto, muita coisa continua ainda pendente. Trata-se em particular da liberalização do mercado russo de serviços, incluindo bancários e de seguros, o apoio ao sector agrícola por parte do Estado, a protecção da propriedade intelectual. Se resumirmos todas estas dificuldades tudo se torna muito claro. A Rússia simplesmente pretende aderir à OMC nas condições que são aplicadas aos outros países. Infelizmente, os veteranos desta Organização, incluindo os EUA, ainda não estão prontos para tal. Não são poucas as provas da intenção de atribuir à Rússia um papel de parceiro de segunda. Pondo de lado a entrada na OMC, basta lembrar a história interminável da emenda Jackson-Vanik, destinada inicialmente a favorecer a saída dos judeus da União Soviética. Porém, a URSS deixou de existir há mais de dez anos, tendo o problema da emigração de judeus já sido resolvido. No entanto, sob a Rússia continua a pender a famigerada emenda. Há quem acalme a Rússia dizendo que a emenda já não impede em nada o desenvolvimento do comércio entre a Rússia e os EUA. Sim, é verdade, mas a emenda continua a irritar o Kremlin, pois a sua existência não testemunha de maneira nenhuma a prontidão da administração americana de utilizar o seu capital político para neutralizar os ânimos russófobos no Congresso e, afinal de contas, para o desenvolvimento da cooperação económica com a Rússia. Os exemplos do género não faltam. É difícil de acreditar, mas continua a ser proibido às empresas americanas vender supercomputadores à Rússia. Esta interdição deve-se ao famigerado COCOM, Comité que regulava as exportações de tecnologias "sensíveis" para a URSS e os países do Pacto de Varsóvia. A URSS e o Pacto já não existem, mas a interdição continua em vigor. Na realidade, porém, os EUA, se calhar, estão muito mais interessados na cooperação com a Rússia do que a própria Rússia. A área-chave é o sector energético. Ainda em 2002, os presidentes Putin e Bush abençoaram o desenvolvimento das relações russo-americanas na área energética, tendo em conta os enormes recursos da Sibéria Oriental e do Extremo Oriente russo. Moscou não tem nada contra, se o acesso do petróleo e gás russos ao mercado americano aumentar dos 2 por cento actuais para 10 por cento. Já foi elaborada a respectiva lista de projectos prometedores, entre os quais figuram a construção do oleoduto Sibéria Ocidental-mar de Barents, fornecimentos directos de petróleo e gás da lha Sacalina aos EUA, marcados para 2005-2006, a eventual exploração conjunta de um dos maiores jazigos de gás no mundo, o Kovytkinskoe, bem como estudos de novas fontes de energia e, antes de tudo, o hidrogénio. Ao contrário do que se
passa na Europa, a Rússia nunca foi considerada o maior fornecedor
directo de recursos energéticos aos EUA. Agora Putin e Bush podem
alterar a situação radicalmente. //
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