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TV e a burrice Por Gustavo Barreto, 27 de fevereiro, 2005 "A televisão não provoca burrice, apenas reflete a burrice da sociedade". Esta frase me chamou a atenção. Foi neste sábado (26/2), no SBT, no desenho Família Dinossauro. Dino da Silva Sauro, o chefe da família, trabalhava numa TV de grande alcance "no mundo dos dinossauros". É o autor da frase, respondendo sua mulher sobre o questionamento de que a TV estava deixando os filhos do casal burros. "Estou me sentindo mal, esqueci de respirar", diz o filho. Como diretor da TV, Dino decide mudar a programação. Decide fazer uma TV inteligente. "Mas como eu posso fazer uma TV inteligente se eu não sou inteligente?", indaga. Um dos seus assistentes sugere que se coloquem intelectuais no ar, fazendo automaticamente com que as pessoas fiquem inteligentes. "Do modo que eu vejo, um intelectual é alguém que diz coisas que você não entende". A primeira tentativa é frustrada. Um programa de debates com falsos debates: — Vamos começar nosso
debate. Vocês acham que os ricos deveriam comer os pobres.
A mulher de Dino não se convence e diz que seus filhos continuam burros. Dino faz novas mudanças. Desta vez trata-se de um programa policial. — Parado!— dizem dois policiais
para um fugitivo.
Em pouco tempo, o IBOPE constata que os programas são um sucesso. Dino ganha vários prêmios. Seu colega de trabalho diz: "Parabéns, Dino. Você provou que TV com QI dá audiência!" Dino tem uma crise de consciência: — É injusto. Eu não
acredito nisso. Estamos veiculando coisas que nem eu entendo.
O mar de rosas dura pouco. Dino recebe a notícia de que a TV inteligente é um desastre, depois de um tempo. Ele liga para casa: — Querida, você está
vendo TV?
E as crianças? A mocinha ia realizar estudos geológicos dentro de uma pesquisa que tinha assistido na TV, e o garoto havia desenvolvido um foguete para jogar o neném da família no espaço — um sistema que havia revolucionado o "mundo dos dinossauros", diz a mulher de Dino. — Mas vocês precisam assistir
TV!
Os diretores do canal estão irritados, exigem mais audiência. Dino tem nova crise de consciência. Mas desta vez acusa os diretores de não entenderem o sentido educacional deste meio. — Vocês têm a possibilidade
de alcançar milhões de dinossauros, mas não se importam
com o que eles assistem. Buscam apenas audiência!
— Como faremos isso?! As pessoas
estão muito inteligentes, só querem livros!
Chega à casa de Dino, então, um guia de TV muito bonito, de graça, que logo encanta toda a família. — Agora podemos programar nosso dia inteiro! Críticas perfeitas e objetivas, com forte conteúdo de classe, feita para as crianças bem na hora do almoço de uma TV comercial e aberta. Uma gota de lucidez em meio a um mar de programas burros, feitos na medida para que as pessoas esqueçam as coisas interessantes que há na vida. E continuem burras, sob o pretexto de que já são burras.
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