| O conto do risco
Por Clóvis Rossi, na Folha de S. Paulo, 21/12/2004 SÃO PAULO. Informa Kennedy Alencar (Folha, domingo) que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva está feliz da vida com o fato de o risco-país ter caído abaixo de 400 pontos. Bobagem (do presidente). Supor que o risco-país meça efetivamente a capacidade de o país honrar suas dívidas eqüivale a acreditar em duende. A história recentíssima é definitiva a respeito: o risco-país pulou para 2.400 pontos, ao longo de 2002, não porque a capacidade de pagamento estivesse minimamente afetada, mas porque o mercado financeiro queria aterrorizar o eleitorado brasileiro com os supostos efeitos daninhos de uma vitória de Lula. Só por isso. Nenhum fundamento econômico mudou substancialmente ao longo de 2002. O único "risco", na verdade, era um baita mérito, qual seja, o de a democracia funcionar plenamente e dar-se a alternância no poder, como de fato aconteceu. Ponto. Medições de risco não passam de uma aposta feita por gente que ganha dinheiro com o aumento ou a diminuição do risco de determinados países. Não se trata, portanto, de avaliação neutra. Leia-se, a respeito, série de reportagens de Alec Klein ("The Washington Post") há umas três semanas. Falando, no caso, das agências de avaliação de risco como a Moody's (o risco-país é invenção do JP Morgan), dizia: "Ninguém fica tranqüilo sabendo, por exemplo, que a maior parte dos diretores da Moody's são também membros da diretoria de empresas avaliadas pela agência; tampouco que a WorldCom, empresa prodígio das telecomunicações, tinha um diretor que era também diretor da Moody's, e recebeu avaliações favoráveis da agência mesmo depois que sua boa sorte começou a fazer água e seus papéis eram negociados a preços de títulos de alto risco". Dar alto valor à medições
desse tipo parece coisa de escravo que fica esperando a palavra do dono
para saber se vai ou não para o tronco. É patético.
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