Mal-entendidos

Por Luis Fernando Verissimo, fevereiro de 2005
 

Dividimos a História em eras, com começo e fim bem definidos, e mesmo que a ordem seja imposta depois dos fatos — a gente vive para a frente mas compreende para trás, ninguém na época disse “Oba, começou a Renascença!” — é bom acreditar que os fatos têm coerência e sentido, e nos dêem lições. Só que podemos apreender a lição errada.

Falamos nos loucos anos vinte, quando várias liberdades novas começavam a ser experimentadas, e esquecemos que foi a era que gerou o fascismo. O espírito da “Era do Jazz” de Scott Fitzgerald foi o espírito totalitário, e prevaleceram não os passos do “Charleston” mas os passos de ganso. A leitura convencional dos anos 40 é que foram os anos em que os Estados Unidos salvaram a Europa dela mesma. Na verdade, a Segunda Guerra salvou os Estados Unidos. Completou o trabalho do New Deal de Roosevelt e acabou com a crise econômica que sobrara dos anos 30, fortalecendo a sua indústria ao mesmo tempo que os poupava da destruição que liquidou com a Europa, e inaugurou o keynesianismo militar que sustenta a sua economia até hoje. O fim da Segunda Guerra foi o começo da Era Americana. Os americanos salvaram o mundo — e ficaram com ele. Os plácidos e sem graça anos 50 não foram tão aborrecidos assim. Foram os anos do “existencialismo”, de revoluções na arte e na literatura, do nascimento do rockenrol... Já nos fabulosos anos 60, enquanto as drogas, o sexo e a comunhão dos jovens pela paz e contra tudo o que era velho tomava conta das praças e das ruas, o conservadorismo careta se entrincheirava no poder — Nixon nos Estados Unidos, os generais aqui — e Margaret Thatcher começava a sua própria revolução. O que foi que aconteceu mesmo nos anos 60?

Nos anos 70 e 80 também houve um desencontro entre e percepção e a realidade, ou continuou o mal-entendido das décadas passadas. E quando fizerem a leitura do fim dos anos 90 e deste começo de milênio, qual será a conclusão errada? A que o mundo está se tornando mesmo uma aldeia global ou está se dividindo cada vez mais entre ricos e pobres, entre inteligência excludente, burrice generalizada e estupidez institucionalizada? Com as maravilhas conseguidas pela ciência e a técnica estamos vivendo o auge do ideal iluminista ou estamos em plena regressão obscurantista, com o fundamentalismo religioso e o espírito tribal em guerra aberta contra a razão? E no Brasil? O que é que está nos acontecendo, exatamente? Daqui a 30 anos saberemos. Ou talvez não.
 

Publicado em O GLOBO em 13/2/2005

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