| A cada tiro o corpo dava
um pulinho
Por.Sebastião
Nery, 20/2/2005, na Tribuna
da Imprensa
João Garcia Gomes, fazendeiro de São João do Biscoito Duro, extremo sul de Goiás, lá para as fronteiras de Minas e Mato Grosso e quase de São Paulo, tio do "sociólogo" paulista José Paulo Freire, o "Zé do Pé", criava um bocadinho de boi. Uns 500 bois. Mas era quase vizinho de terras dos Ludovico de Goiás, dos Coelho de Mato Grosso e dos Andrade de São Paulo. Foi com o sobrinho ao banco para o gerente fazer a ficha dele: "Quantos bois o senhor tem?" "Perto dos 40 mil". Saíram da agencia, "Zé do Pé" não entendia nada : "Tio, como perto dos 40 mil, se o senhor não tem nem mil?" "Perto dos 40 mil bois deles, Zé, nas fazendas deles, nos manguerais deles, que ficam por aí, nesse mundão de Deus, não muito longe daqui". "Assim, tio, o senhor está misturando seus bois com os bois deles". "Zé, se eles misturam os empregados deles, o povo deles, com os bois deles, por que eu não posso misturar meus bois com os bois deles?" O massacre de Goiânia O azar das 4 mil famílias e 12 mil moradores da "Sonho Real" de Goiânia, massacrados, presos e expulsos pela polícia estadual, é não serem bois. Teriam sido levados mansamente para um curral, um pasto, para não endurecer a carne. Como são gente, o governo tucano fez uma iraqueada: "Atendido ferido no Hospital de Urgências de Goiânia, o vendedor autônomo Edgard Luiz Pereira, de 58 anos, disse que foi atingido por um tiro na mão depois de já estar deitado no chão e cercado por policiais militares. Ao perceber a chegada da PM, tentou fugir, mas sem sucesso: 'Entrou PM por todo lado. Não tinha para onde correr. Deitei no chão. Aí me disseram: Não levanta a cabeça. Ouvi o barulho e senti o ardido na mão. Fui olhar e pisaram na minha cabeça. Aí, fui algemado'." Mas o espetáculo de horror não parava aí: "Contou ter visto outro homem já dominado ser morto a tiros próximo de onde ele estava: 'Vi um morrer. Ele estava deitado. A cada tiro que levava o corpo dava um pulinho'." (Demétrio Weber, em excelente matéria no Globo). E as fotos nazistas? Quilômetros de pessoas sem camisas, os braços na cabeça, cercadas e levadas para as delegacias. Se era para retomar o terreno, por que prender e não deixar saírem em paz? A violência foi proposital. O "sucesso" do crime O secretario de Segurança Pública e Justiça (sic) de Goiás, Jonathas Silva, disse que "a operação foi um sucesso" (sic). Matou dois, atirou em dezenas, agrediu centenas, prendeu como bandidos mais de mil, e foi "um sucesso": "Luiz Antonio de Lima: - Chegaram batendo, xingando, humilhando. Chamavam pais de família de vagabundos e mães de vadias. Estava em minha casa com meu avô, minha mulher e meus filhos, quando eles entraram. Estava com as mãos na cabeça, quando eles atiraram" (Sebastião Montalvão, Folha). Foi um crime múltiplo, coletivo. Havia uma ordem da Justiça para saírem. Mas Goiânia não fica nas florestas do Pará. Está a 180 quilômetros de Brasília. O terreno ocupado, que virou bairro, fica quase no centro da cidade, ao lado de shopings, na grande avenida Pedro Ludovico. Justiça, Promotoria, governador, prefeito, arcebispo, polícia, imprensa, todo mundo conhecia tudo. Não era preciso cometer um crime para haver "sucesso". Incompetência coletiva Um imenso terreno de 968 mil metros quadrados, bem de uma herança, no valor estimado de R$ 38 milhões, há anos abandonado no coração da cidade, sem pagar IPTU (deve R$ 2,5 milhões, portanto anos e anos sem pagar) nem imposto algum. Prefeitura e Estado nunca fizeram nada. Há um ano, 200 famílias foram para lá e construíram suas casas. Os herdeiros reclamaram na Justiça. Ninguém disse nada nem fez nada. Como não é um terreno, mas um latifúndio urbano, 4 mil famílias fizeram suas casas. Na campanha eleitoral do ano passado, o prefeito Pedro Wilson, do PT, foi lá e garantiu que podiam continuar, pois ele ia resolver o problema. Perdeu, sumiu. O ex-governador, ex-senador e ex-ministro (da Agricultura, de Sarney, e da Justiça, de Fernando Henrique) Íris Rezende, do PMDB, também foi lá e disse que, eleito, iria apresentar uma solução. Ganhou, não apareceu. Em setembro do ano passado,
sete meses depois que as 4 mil famílias já haviam construído
suas casas, a Justiça (sic) afinal determinou o despejo. E o governador
Perillo (PSDB) embalou sua polícia, conhecida como a mais violenta
e brutamontes do País, e deu ordem para despejar a qualquer preço.
Entraram prendendo, arrebentando, matando. Um "sucesso"!
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