Agro-banditismo
faz mais uma vítima
"(...) Protegidos sob o
discurso de “setor produtivo” e “responsável” pelo equilíbrio
da balança comercial, estas forças não somente bloqueiam
estradas para chantagear o Governo Federal, mas são verdadeiros
agrobandidos que corporificam as injustiças e violência do
modelo de “desenvolvimento” que se alimenta da prática do trabalho
escravo, da exploração ilegal e predatória dos recursos
ambientais, e da grilagem de terras públicas, se articulando nacionalmente
através da União Democrática Ruralista, da Confederação
Nacional da Agricultura (CNA) e da bancada ruralista no Congresso". Leia
a nota das entidades do Fórum Nacional pela Reforma Agrária
e Justiça no Campo, de 14 de fevereiro, sobre o assassinato
de Irmã Dorothy.
Claramente expresso em documentos
como a Carta da Terra, as organizações que compõem
o Fórum Nacional pela Reforma Agrária e pela Justiça
no Campo “defendem a realização de uma ampla e massiva reforma
agrária e a ampliação e o fortalecimento da agricultura
familiar”. Assumem essa luta e compromisso porque entendem que “estas políticas
garantem o direito ao trabalho para a população rural, historicamente
excluída, através de uma mudança no atual modelo de
desenvolvimento agropecuário, excludente, predatório e concentrador
de terra, renda e poder”.
As entidades do Fórum
reafirmaram, também na Carta da Terra elaborada em 2003, a necessidade
de ações governamentais para garantir “o respeito aos direitos
humanos no campo, combatendo todas as formas de violência e o fim
da impunidade”. Infelizmente, antes de qualquer medida governamental efetiva,
aconteceu mais uma tragédia com o assassinato de Irmã Dorothy
em 12 de fevereiro de 2005, no município de Anapú, Pará.
Esse assassinato explicita
a violência com que representantes e beneficiários da exploração
predatória da Amazônia reagem ante a existência de projetos
como o Projeto de Desenvolvimento Sustentável, que propõe
a inclusão social cidadã com sustentabilidade ambiental.
O assassinato de Irmã Dorothy encontra-se no mesmo raio de ação
das forças responsáveis pela grilagem das terras públicas,
pela destruição ambiental, especialmente através da
retirada ilegal de madeira, e pela reiterada violência contra camponeses,
indígenas, defensores de direitos humanos e todos os que se opõe
à ocupação predatória da Amazônia.
Protegidos sob o discurso de
“setor produtivo” e “responsável” pelo equilíbrio da balança
comercial, estas forças não somente bloqueiam estradas para
chantagear o Governo Federal, mas são verdadeiros agrobandidos que
corporificam as injustiças e violência do modelo de “desenvolvimento”
que se alimenta da prática do trabalho escravo, da exploração
ilegal e predatória dos recursos ambientais, e da grilagem de terras
públicas, se articulando nacionalmente através da União
Democrática Ruralista, da Confederação Nacional da
Agricultura (CNA) e da bancada ruralista no Congresso.
A ausência de
ações de Estado é patente no Pará. Em que
pesem os anúncios de medidas do Governo Federal, suas ações
locais no Pará têm sempre sido tópicas, retóricas
e sem a firmeza próprias de uma ação de Estado, cedendo
a reações de grupos de interesses, que agem de forma articulada,
com omissão ou apoio do Governo Estadual do Pará. Do
massacre de Eldorado dos Carajás ao assassinato de Irmã Dorothy,
a política do Governo do Estado do Pará tem sido a defesa
dos interesses de grileiros, madeireiros e latifundiários.
Neste cenário, não
há espaços para vacilações e omissões
do Governo Federal, que resultarão em mais tragédias. A punição
dos responsáveis por esse assassinato é uma obrigação
imperativa do Estado, mas as causas da violência e da desigualdade
social só serão enfrentadas efetivamente através de
uma ação articulada, interministerial e permanente que demonstre
a opção do Governo Federal pela democratização
da terra, respeito ao meio ambiente, diálogo com as populações
locais marginalizadas e efetiva proteção aos defensores de
direitos humanos.
Demandas das entidades do Fórum
Nacional pela Reforma Agrária:
-
A punição dos responsáveis
diretos e indiretos pelo assassinato de Irmã Dorothy Stang, inclusive
das autoridades que se omitiram de tomar providências contra as ameaças
que ela vinha sofrendo;
-
Classificar, segundo EMC 45, de
2004 (parágrafo 5 do art. 109 da CF), esse assassinato como uma
grave violação dos direitos humanos, transferindo todo os
procedimentos investigatórios e processuais para a competência
da Justiça Federal;
-
Ação interministerial
(Ministério do Desenvolvimento Agrário, Meio Ambiente, Justiça,
Integração Nacional, Secretaria Especial de Direitos Humanos
e Defesa) para atuar nas diversas faces do problema agrário e ambiental
no Estado do Pará, ampliando recursos e efetivo policial para aumentar
a fiscalização ambiental e de violação de direitos
humanos;
-
Proceder a classificação
dos imóveis (geo-referenciamento) da região, garantindo a
discriminação e arrecadação de terras griladas
e de todas as terras públicas, destinando-as ao programa federal
de reforma agrária;
-
Retomada das terras públicas
tomadas ilegalmente por grileiros, para sua transformação
em Projetos de Assentamento que beneficiem os agricultores de Anapú;
-
Ampliar os recursos – e repassar
imediatamente para os órgãos responsáveis – para o
combate ao trabalho escravo no Pará e em todo o País;
-
Intervenção federal
no Estado do Pará, justificada pelas graves omissões do Governo
Estado do Pará frente às reiteradas violações
de direitos humanos, ferindo o pacto federativo;
-
Adoção de medidas
urgentes para proteger todos os defensores e defensoras de direitos humanos
com risco de morte no Estado do Pará e a imediata efetivação
da Coordenação para Defensores de Direitos Humanos no Pará
e a proteção a Luis Morais de Brito, do PDS Esperança
e outros ameaçados;
-
Rompimento imediato do acordo do
Governo Federal com os madeireiros da região, suspendendo todos
os Planos de Manejo Irregulares;
-
Colocar em pauta e aprovar imediatamente
a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) nº 438, de 2001, que altera
o artigo 243 da CF e pune a prática do trabalho escravo.
Além da apuração
rápida e punição dos mandantes e executores desse
crime bárbaro, as entidades do Fórum Nacional pela Reforma
Agrária e Justiça no Campo reafirmam que a solução
definitiva dos conflitos no Estado do Pará e em todo o território
nacional é a realização de uma reforma agrária
ampla e massiva capaz de democratizar a propriedade fundiária e
criar os fundamentos para a construção de um desenvolvimento
sustentável e solidário para o nosso País.
Brasília/DF, 14 de
fevereiro de 2004.
RELAÇÃO DAS ENTIDADES DO
FÓRUM NACIONAL PELA REFORMA AGRÁRIA E JUSTIÇA NO CAMPO
1. ABRA –
Associação Brasileira de Reforma Agrária
2. ABONG
– Associação Brasileira das ONGs
3. APR –
Animação Pastoral Rural
4. ASPTA
– Assessoria e Serviços em Projetos de Tecnologia Alternativa
5. ANDES
– Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Superior
6. COIABE
– Coordenação das Organizações Indígenas
da Amazônia Brasileira
7. Cáritas
Brasileira
8. Centro
de justiça Global
9. CESE –
Coordenadoria Ecumênica de Serviço
10. CIMI – Conselho Indigenista
Missionário
11. CMP – Central dos
Movimentos Populares
12. CNASI – Confederação
Nacional das Associações dos Servidores do Incra
13. CONDSEF – Confederação
Nacional dos Servidores Públicos Federais
14. CONIC – Conselho
Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil
15. CONTAG – Confederação
dos Trabalhadores na Agricultura
16. CPT - Comissão
Pastoral da Terra
17. CUT – Central Única
dos Trabalhadores
18. DESER – Departamento
de Estudos Sindicais Rurais
19. ESPLAR – Escritório
de Planejamento Rural
20. FASE – Federação
de Órgãos de Assistência Social e Educacional
21. FASER – Federação
das Associações e Sindicatos dos Trabalhadores da Extensão
Rural e do Setor Público Agrícola do Brasil
22. FEAB – Federação
dos Estudantes de Engenharia Agronômica
23. FETRAF Brasil – Federação
dos Trabalhadores na Agricultura Familiar
24. FIAN-Brasil – Rede
de Informação e Ação pelo Direito a se Alimentar
25. FISENGE – Federação
Interestadual de Sindicatos de Engenheiros
26. IBASE – Instituto
de Estudos Sociais e Econômicos
27. IBRADES – Instituto
Brasileiro de Desenvolvimento Social
28. IDACO – Instituto
de Desenvolvimento e Ação comunitária
29. IECLB – Igreja Evangélica
de Confissão Luterana no Brasil
30. IFAS – Instituto
de Formação e Assessoria Sindical
31. INESC – Instituto
de Estudos Sócio-Econômicos
32. MAB – Movimento dos
Atingidos pelas Barragens
33. MLST – Movimento
de Libertação dos Sem-Terra
34. MMC – Movimento de
Mulheres Camponesas
35. MNDH – Movimento
Nacional de Direitos Humanos
36. MPA – Movimento de
Pequenos Agricultores
37. MST – Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra
38. MTL – Movimento Terra,
Trabalho e Liberdade
39. Pastorais Sociais
da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil)
40. PJR – Pastoral da
Juventude Rural
41. Rede Brasil sobre
Instituições Financeiras Multilaterais
42. Rede Social de Justiça
e Direitos Humanos
43. RENAP – Rede Nacional
dos Advogados Populares
44. SINPAF – Sindicato
Nacional dos Trabalhadores de Instituição de Pesquisa e Desenvolvimento
Agropecuário
45. TERRA DE DIREITOS
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