O Banco Mundial na África

Por Demétrio Magnoli, 21/2/2005, no Clubemundo.com

Jeffrey Sachs, professor na Universidade Harvard, foi o arquiteto da “terapia de choque” aplicada na década de 80 pelo ministro da Economia boliviano Gonzalo Sánchez de Lozada, o Goni, que derrubou a hiperinflação e, de quebra, destruiu a economia formal do país baseada na mineração. Goni presidiria a Bolívia entre 1993 e 1997 e, novamente, de 2002 até revolta popular de outubro de 2003, quando renunciou e fugiu para os EUA. Sachs qualificou Goni como “um gênio” e “uma figura política brilhante”. A Bolívia reinventada pelos experimentos ultraliberais da dupla dinâmica é um caldeirão de turbulência política e exclusão social, no qual 70% da população vive abaixo da linha de pobreza.

A ONU encarregou Sachs de liderar “mais de 250 especialistas” para oferecer um projeto destinado a salvar do fracasso as “metas de desenvolvimento do milênio”, uma coleção de objetivos de redução da pobreza solenemente adotada pela Assembléia Geral das Nações Unidas em 2000. O relatório final do exército de Sachs, com mais de 3 mil páginas, representa um épico esforço de reabilitação do conceito de “ajuda ao desenvolvimento”. Sachs contesta a conclusão de centenas de estudos que revelaram a inexistência de correlação entre ajuda financeira externa e desenvolvimento econômico nos países mais pobres. Sobre essa base, oferece um plano de investimento de centenas de bilhões de dólares, principalmente na África Subsaariana, no horizonte de 2015.

A novidade pode ser resumida na expressão “boa governança”. O plano propõe que a ajuda externa, em larga escala, seja direcionada seletivamente para países comprometidos com padrões de gestão e programas de reformas econômicas desenhados pelas instituições financeiras internacionais. O castelo monumental de Sachs equivale à implantação de uma planificação central internacional sobre as economias africanas. Os países que quiserem se qualificar para receber a ajuda externa devem renunciar, na prática, à soberania política e transferir prerrogativas governamentais decisivas para os burocratas do Banco Mundial e as centenas de ONGs que gravitam em torno de suas operações de “combate à pobreza”.

A “grande visão” apresentada à ONU é o foco de um feixe de interesses convergentes. Sob o ponto de vista de Washington, a iniciativa global de “combate à pobreza” é um contraponto indispensável à agressividade neo-imperial da Doutrina Bush. A França a encara como instrumento de reconstrução da sua combalida esfera de influência africana. Na África, a imagem de um caudal de aportes financeiros internacionais provoca excitação incontrolável em elites políticas que se dedicam à pilhagem sistemática dos escassos recursos públicos.

O projeto de Sachs não prevê a cobrança de taxas internacionais sobre fluxos financeiros ou comércio de armas, como sugeriu Lula num encontro internacional há poucos meses. Mas o seu resultado prático é similar e deve soar como música para os formuladores da política externa brasileira, que usam a idéia de um “Fome Zero mundial” como plataforma da candidatura nacional ao Conselho de Segurança da ONU. Lula identificou a oportunidade: nos fóruns de Porto Alegre e Davos, reiterou o discurso da “guerra à fome” e exercitou a sua influência indireta para moldar a decisão do Fórum Social Mundial de transferir-se para a África em 2007.

fonte: Clubemundo.com
 

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