Zé Renato e Trinadus estreitam os laços entre Brasil e Portugal

Por Bruno Ribeiro, para a Revista Consciência.Net, dezembro de 2004
 

O quê Brasil e Portugal têm em comum além do idioma? Um oceano separa os dois países, mas as músicas brasileira e portuguesa se encontraram em algum ponto do mar imenso. Prova disso é o CD de fados Navegante, que o cantor brasileiro Zé Renato gravou ao lado do grupo lusitano Trinadus. O álbum foi lançado primeiro em Portugal, no ano passado. E agora, com um ano de atraso, chega ao Brasil pela sempre correta gravadora Biscoito Fino.

A idéia de gravar um CD de fados "com sotaque brasileiro" nasceu há dois anos, quando Zé Renato assistiu ao show do grupo Trinadus no Mistura Fina, no Rio de Janeiro. Um amigo em comum praticamente obrigou-o a dar uma canja com o grupo e Zé Renato atacou de Nem às Paredes Confesso, clássico do repertório de Amália Rodrigues. "Era o único fado que eu conhecia", lembra o cantor. Naquele momento houve uma identificação imediata de ambas as partes. E o trio de cordas lusitano decidiu convidá-lo para ir à Lisboa.

Formado por João Mário Veiga (viola), Paulo Parreira (guitarra portuguesa) e Maria Balbi (violino), o Trinadus é, atualmente, um dos grupos mais importantes do novo fado português. Faz parte do time dos grupos que têm perdido o medo de ousar e renovar o gênero – o fado é uma instituição quase intocável, em Portugal. O encontro resultou em belíssimo trabalho, onde o fado recebe um tratamento inédito. O modo de tocar é o clássico, mas a interpretação retira o apelo passional e atribui uma inusitada delicadeza aos poemas – mesmo entre os standards do amor terminado. Visto por um ângulo híbrido, deixa de ser português sem se tornar brasileiro.

Os puristas, como o próprio cantor revelou, torceram o nariz nas apresentações em Lisboa. Mas a ponte musical já estava feita para que Brasil e Portugal pudessem caminhar e estreitar laços culturais. O disco teve a preocupação de democratizar o repertório: além dos fados compostos por portugueses, figuram no repertório canções brasileiras interpretadas com clima de fados. A faixa mais bonita de todas é, sem dúvida, a que dá nome ao disco. Navegante, música pouco conhecida de Sidney Miller, foi gravada uma única vez. No álbum, Zé Renato divide a faixa com Rui Veloso, ícone da canção portuguesa.

No repertório, Carolina (Chico Buarque), Malandrinha (Freire Jr.) e Saudades do Brasil em Portugal (Vinícius de Moraes), além das portuguesas Canção do Mar (Zeca Afonso), Gaivota (David Mourão) e, claro, Nem às Paredes Confesso (Maximiano de Souza). Quem ainda não comprou os presentes de Natal, fica a sugestão. O álbum é uma jóia, pá.

Zé Renato concedeu a entrevista abaixo, por telefone, de sua casa, no Rio de Janeiro. 
 

Quais são as semelhanças que você identificou entre a música portuguesa e a brasileira? De que modo elas se casam no disco?

Zé Renato. Há um romantismo que é fundamental para entender as duas culturas. O sentimentalismo, a dor da saudade, as imagens poéticas e a própria proximidade melódica. Tudo isso está presente na música feita em Portugal e na música feita no Brasil. Foram particularidades que eles deixaram aqui, com a colonização. Durante a gravação do disco, em Lisboa, eu me surpreendi várias vezes com a semelhança entre o fado e a canção brasileira.

Você já tinha mantido contato antes com a música portuguesa?

Zé Renato. Não, não. Eu conhecia muito pouco, quase nada. De fado eu só sabia de Amália Rodrigues e alguma outra coisa. Tanto é que quando fui convidado para subir no palco e cantar com o Trinadus pela primeira vez, no Mistura Fina, eu não sabia o que fazer. Resolvi cantar Nem às Paredes Confesso, o único fado que me veio à mente, naquela hora. Eles gostaram tanto que a música acabou entrando no disco. 

Como o público português, geralmente conservador, recebeu o disco? O que eles acharam do fado cantado por um brasileiro?

Zé Renato. Os mais jovens gostaram. Tem surgido uma geração nova de grupos de fado, mais ou menos como tem acontecido com o samba, aqui no Brasil. Esta gente nova tem uma cabeça mais aberta, eles querem trocar, querem inovar. Mas em algumas casas de fado onde me apresentei senti uma certa resistência. Não foi geral, mas eu senti que algumas pessoas torciam o nariz por causa do meu sotaque e do meu modo de cantar fado. Mas é até compreensível; se um português viesse ao Rio e começasse a cantar samba, muita gente também acharia engraçado, não é?

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Bruno Ribeiro é jornalista e escritor. Torcedor do glorioso São Cristóvão Futebol Clube, não deu certo como ponta-esquerda, não deu certo como poeta maldito, não deu certo como compositor de samba. Foi ser jornalista e escrever sobre os bares de Campinas. Segue o lema de Maiakóvsky: também acha preferível morrer de vodca a morrer de tédio. Há algum tempo é editor da seção de Artes da Revista Consciência.Net. Contato: bruno@cumbuca.com.br

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