| A ilusão americana
Por Paulo Nogueira Batista
Jr., 7 de janeiro, 2005
Tomo o título emprestado a Eduardo Prado, escritor paulista e monarquista, que publicou em 1893 um livro de crítica aos Estados Unidos e à americanofilia da maioria dos republicanos brasileiros. Passados mais de 110 anos, "A Ilusão Americana" permanece atual em diversos aspectos. Veja-se, por exemplo, a seguinte passagem: "Tratados de comércio! Essa é a grande ambição norte-americana, ambição que não é propriamente do povo, mas, sim, da classe plutocrática, do mundo dos monopolizadores [...], não contentes com o mercado interno de que eles têm o monopólio contra o estrangeiro, em virtude das tarifas proibitivas nas aduanas" (Eduardo Prado, "A Ilusão Americana", citado em Luiz Alberto Moniz Bandeira, "As Relações Perigosas: Brasil-Estados Unidos de Collor a Lula, 1990-2004", Civilização Brasileira, 2004). Mas não era da Alca que queria falar hoje, e sim da situação financeira dos Estados Unidos, uma das maiores ameaças para a economia mundial. Washington parece viver a perigosa ilusão de que é possível sustentar indefinidamente déficits elevados nas contas públicas e externas. Essa ilusão é uma velha conhecida nossa. A Argentina e o Brasil, durante os governos Menem e Fernando Henrique Cardoso, foram vítimas dela. O companheiro Bush vai pelo mesmo caminho. Um cidadão americano, porventura extraviado aqui nesta coluna, pode ficar ofendido com a comparação. De fato, os Estados Unidos são um caso a parte. Trata-se da maior potência econômica, política e militar do planeta. Emite a moeda hegemônica e pode financiar-se no exterior a custo zero, com a simples emissão de papel moeda, exercendo o que o general De Gaulle chamava de "privilégio exorbitante". Além disso, a maior parte dos seus passivos externos não-monetários está denominada em dólares. Mas até para os Estados Unidos existem limites. A deterioração das finanças do governo americano é preocupante - alarmante talvez seja a palavra mais certa. Os superávits fiscais dos anos finais do período Clinton converteram-se rapidamente em déficits volumosos e sempre crescentes. O governo central passou de um superávit de 2% do PIB em 2000 para um déficit superior a 4% do PIB em 2004. Uma parte substancial dessa deterioração se explica por sucessivos cortes de impostos e por aumentos dos gastos militares e não-militares. O desempenho das contas externas também é deplorável. O déficit no balanço de pagamentos em conta corrente, que já era alto no final do governo Clinton, vem aumentando de forma praticamente contínua, subindo de 4,2% do PIB em 2000 para 5,5% do PIB em 2004. Entre os países desenvolvidos, só a Austrália registrou déficit maior do que o dos Estados Unidos no ano passado. A maioria dos desenvolvidos apresenta superávits em conta corrente. Em conseqüência desses persistentes déficits correntes, os Estados Unidos tornaram-se o maior devedor do planeta. O seu passivo externo líquido chegou a cerca de 30% do PIB em 2004 e poderá alcançar mais de 40% do PIB em 2008 e 2009, segundo projeções do FMI. Esses resultados, como se sabe, estão por trás do enfraquecimento do dólar desde 2002. Por enquanto, o declínio da moeda americana tem sido razoavelmente ordeiro. Mas, em 2004, aumentou o nervosismo. Cresceu o temor de que, em algum momento, possa acontecer um colapso da demanda por ativos americanos, provocando violenta turbulência nos EUA e no resto do mundo. Na sua mais recente avaliação anual da economia dos EUA, a diretoria do FMI reiterou a preocupação com o desequilíbrio externo americano e indicou a sua expectativa de que esse desequilíbrio continuará elevado, "deixando os Estados Unidos altamente dependentes de fluxos privados e oficiais do exterior." ("IMF Concludes 2004 Article IV Consultation with the United States", July 30, 2004, www.imf.org). Situação paradoxal. No Brasil, o companheiro Lula, reformista e socialista, rendeu-se à ortodoxia econômica e coleciona elogios do FMI. Nos EUA, o companheiro Bush, republicano e conservador, entregou-se às piores práticas do populismo latino-americano. Salve-se quem puder! Fonte: AEPET - Artigos - Número 730 ------------------------------------------
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