A farsa do agronegócio
Raymundo Araújo Filho, veterinário 
 

Neste fim do ano de 2004 completa-se dez anos de um forte apoio ao que se passou a chamar Agronegócio, ou "agrobusiness" como preferem alguns, de forma pernóstica, como se não tivéssemos uma língua pátria.

Mas o que vem a ser, então, esta atividade que tomou conta da mídia, da economia e da consciência dos políticos que não têm ou perderam o mínimo senso da realidade e de outros valores, antes reverenciados como coisa de gente decente como, por exemplo, dignidade que nos leva ao discernimento entre o bom e o ruim.

O agronegócio nada mais é do que o desenvolvimento exponencial das atividades agropecuárias por setores associados, como são o latifúndio, a indústria de agroquímicos e venenos agrícolas, maquinários agrícolas pesados e outros, os quais nunca tiveram nenhum interesse no desenvolvimento do Brasil como um País soberano. Sempre visaram, como visam agora, apenas o lucro.

O chamado agronegócio, hoje, devasta a nossa natureza, destruindo implacavelmente nossas matas, florestas e cerrado, derrubando nossas riquezas à base do correntão (equipamento de arrasto de espécies vegetais), queimando milhares de hectares de espécies autóctones que guardam não somente a maior biodiversidade vegetal do mundo, mas também aquilo que poderia ser transformado em riqueza muito maior do que a soja.

Em nome de um propalado equilíbrio da Balança Comercial, estamos queimando todo o nosso bioma (carga genética) vegetal, animal e dos microorganismos, matérias-primas da medicina mais requintada que hoje existe, através de substâncias essenciais de alto valor no mercado de fármacos e cosméticos.

Matamos, de roldão, a fauna silvestre mais rica do planeta, em grave momento de extinção. Poluímos e extinguimos os nossos mananciais hídricos, irreversivelmente, com venenos e técnicas agressivas que assoreiam e secam as fontes de nossos rios (cerca de 60% nascem no cerrado brasileiro).

Socialmente, o agronegócio(novo nome para o latifúndio) causou, em uma década, o maior êxodo rural que se tem notícia no planeta, entulhando nas periferias das grandes, médias e pequenas cidades brasileiras um número enorme de famílias (seres humanos) que, impedidos de exercerem o seu trabalho na agricultura familiar, produzindo os históricos 70% dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros, passam a ser os clientes do Fome Zero, Bolsa Família, Bolsa Esmola e outros remendos, chamados agora de programas sociais, que tanto orgulham o presidente Lula, na sua imodesta incompreensão das coisas.

E essa brava gente brasileira deixou o campo pelos mesmos motivos que persistem hoje no governo do presidente Lula: ausência de apoio político e projetos competentes para a agricultura familiar, ausência de vontade política para fazer a reforma agrária, em que pese toda a propaganda falaciosa que somos alvos diariamente pela comunicação do governo e pela mídia aderida e sem opinião própria (apenas interesses), como é a maior parte da mídia brasileira, totalmente subserviente aos interesses dos "de cima".

E todo este desastre para produzir o quê? Soja, algodão, fumo, boi gordo (ou inchado?) e outras matérias-primas agrícolas e animais que transitam como vedetes nas bolsas de mercado futuro no exterior, atendendo pelo nome de "commodities", que servem apenas para movimentar o complexo agroindustrial internacional promovendo, em um primeiro momento, uma forte transferência de renda do campo para a cidade e, em um segundo momento, dos países dominados para os seus algozes do Primeiro Mundo. Mas, 2005 vem aí. E será a prova dos nove.

Já se anuncia que os preços internacionais das "commodities" irão cair em cerca de 10%, os custos de produção aumentam mês a mês, aliás como era de se esperar em um regime de produção atrelado ao capitalismo mais perverso que se tem notícia, pois tem o molho de resquícios dos regimes escravocratas, colocando nua e transparente esta farsa, na qual o presidente Lula colocou o Brasil, e em papel subalterno.

Assim, infelizmente por cairmos em nova desgraça, poderemos ter novos argumentos para que o povo brasileiro seja alertado que, ou muda o governo ou muda-se de governo. 
 

Fonte: AEPET - Petróleo & Política - Número 537 - Rio de Janeiro, 23/12/2004

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