| O que nunca aconteceu antes
Por Luis Fernando Verissimo. Do jornal O Globo, 2 de janeiro, 2004 Deve haver poucas coisas mais aterrorizantes do que uma tsunami, a onda gigante causada por um maremoto. A visão de uma parede de água vindo na direção da praia é um pesadelo comum da Humanidade, mesmo de quem nunca esteve perto do mar. Li que ter que fugir de ondas gigantescas e estar nu no meio de uma multidão são as angústias mais recorrentes nos maus sonhos de todo mundo, interpretações à vontade. O terror da grande onda talvez tenha a ver com a nossa origem oceânica: ficou nas nossas células o medo secreto de que, cedo ou tarde, o mar arrependido virá nos pegar de volta. *** Um dado que eu não sabia, e que aumenta o terror: a velocidade da tsunami é quase igual a de um jato. Foi, em parte, por isso que as ondas atingiram as costas de surpresa, sem aviso, e que houve tantas mortes. Mas foi também porque a área mais atingida não tinha nenhum sistema de alarme. A Austrália recebeu um aviso do maremoto, a Índia e os outros países do Oceano Índico não. Porque não pertenciam ao sistema. Em tudo, o serviço nos países ricos é sempre melhor que nos países pobres. Resultado estimado, quando escrevo: 20 mil mortos. Outra razão para a tragédia foi o simples fato de que nada parecido tinha acontecido antes na região. Para quem acha que fenômenos naturais são sinais no código em que é anunciado nosso destino, ainda mais tão perto da passagem de ano, então a mensagem destas ondas é clara. Em 2005 vão acontecer coisas que nunca aconteceram antes. Estávamos preparados para um ano novo. Estaremos preparados para um ano inédito? *** Nada a ver, mas o ano brasileiro também terminou com algo que nunca tinha acontecido antes, se não era um delírio. Durante alguns dias parecia estar-se discutindo se o problema do povo brasileiro era comer de menos ou comer demais. O IBGE dizendo que tinha medido o povo e que ele estava obeso, o que equivalia a uma tsunami estatística varrendo todos os nossos pressupostos sociológicos, e o Lula dizendo que a obesidade era disfarce, ou coisa parecida. Já se estaria até falando em suspender todos os programas de combate à miséria — “Não precisa mais, gente!” — e substituí-los pela distribuição de cartilhas da dieta Atkins. Se o episódio aconteceu mesmo ou se foi um delírio induzido, mostra que entramos num ano de graves riscos. Para o bom senso, antes de mais nada. *** Fique atento ao inédito
em 2005, portanto. Bichos nascendo com cara de gente, gente nascendo com
rabo, juros caindo, tudo que for estranho e não for marquetchim.
E preste sempre atenção, muita atenção, no
nível do mar.
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