| O fim de um certo sorriso
Por Luis Fernando Verissimo, em O Globo, 4 de outubro, 2004 Não faz muito, dizer
que você simpatizava com o PT provocava um certo sorriso. Dependendo
de quem, ou do quê, você era, o sorriso poderia significar
surpresa (“E o PT existe?!”), irritação polida (“Ih, outro
burguês com culpa...”), condescendência (“Eu também
me preocupo com os humildes”) ou pena (“Quanta ingenuidade”). “Ser PT”
sem ter qualquer razão lógica, de classe, para isso era visto
como um capricho intelectual, um jeito de ser corretamente “de esquerda”
sem o risco de ter que provar isso, já que o PT era uma miragem
política. Algumas eleições depois muitas coisas mudaram
no Brasil, mas a maior mudança de todas foi o fim daquele certo
sorriso. A miragem não era miragem, o PT cresceu, chegou ao poder
federal, teve mais votos do que qualquer outro partido nas últimas
eleições municipais, e aos poucos o sorriso de incredulidade
e tolerância foi desaparecendo. Em muitos casos, substituído
por um esgar de raiva.
Mas há quem diga que o sorriso só ficou mais irônico. Perdendo em São Paulo e em Porto Alegre, mesmo com todas as outras prefeituras conquistadas, o PT teria encontrado o seu limite, ou o tamanho máximo que a reação lhe concedeu sorrindo. No Rio Grande do Sul a derrota do PT deve ser vista, em parte, como seqüência da sacudida que a eleição surpreendente de Olívio Dutra para o governo do estado e o crescimento do partido no interior deram no conservadorismo gaúcho, que se uniu num antipetismo ecumênico que agora cassou até a licença tácita dada a Porto Alegre para ser um mostruário fixo da esquerda aplicada, um pouco como era a Bologna administrada pelos comunistas durante sucessivos governos democrata-cristãos, na Itália. Como aconteceu na Itália, esta Bologna também foi reconquistada pela direita. O prefeito eleito José Fogaça, a julgar pelas suas declarações e pelo que se sabe dele, pretenderia fazer em Porto Alegre uma espécie de governo petista sem o PT, mas teria que fazê-lo com uma coligação cujo principal traço-de-união é o horror a tudo o que o PT representa. Análises apressadas são
sempre imprecisas e a sociologia de boca-de-urna não costuma resistir
ao tempo, este carrasco de teorias, mas as recentes eleições
municipais também sugerem outro caminho para o PT, ou outro meio
para enfrentar a reação. O PT era um fenômeno paulista,
passou a ser um fenômeno diferente no Rio Grande do Sul urbano e
agora estaria se transformando num fenômeno nordestino, que seria
a sua vocação natural. E quanto mais cresce e muda o PT mais
amplo e variado fica — sem falar no PT transvestido de PSDB que mora em
Brasília. Hoje, quando você diz que simpatiza com o PT, ouve
a pergunta: “Qual deles?” Mas pelo menos ninguém mais está
sorrindo.
Em O Globo, 4.1.2004
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