Novo clima
Por Luis Fernando Verissimo, 13 de janeiro, 2004. Do jornal O Globo

Na sua recente entrevista para a “Folha de S. Paulo” o Chico Buarque falou da mudança de clima que ele sente no debate público brasileiro. A imprecisa palavra “clima” é minha, não do Chico, mas ele observa que você não pode mais contar com um consenso tácito em torno das nossas vergonhas sociais como no tempo em que todo o mundo era, pelo menos da boca para fora, meio “de esquerda”. E mais justiça social, melhor distribuição de renda e de terra, etc. eram frases comuns a todos os discursos, de salão ou de tribuna, salvo os da direita paleolítica.

Hoje é mais provável você ouvir palavras como “direitos humanos” ditas com desdém, em alguma crítica ao combate insuficiente à insegurança nas cidades e no campo. E as causas sociais da criminalidade e da revolta são uma tese a caminho da irrelevância em meio a conflagração em que se vive. O que no fim equivale a uma resignação ao apartheid, a uma aceitação declarada da nossa desigualdade como uma danação à prova de bons sentimentos e da nossa estranha condição de nação sitiada por si mesma.

O que a eleição de um governo de esquerda, aspas à vontade, tem a ver com esta mudança? O Lula na Presidência assustou muita gente, a cooptação do Lula pela moral peculiar dos credores e dos monetaristas transformou muitos em cínicos, a frustração da esquerda com a política econômica do PT desmoralizou, por muito tempo, entre nós, as boas intenções — ou as intenções da boca para fora. Poucos discursos sobreviveram à sacudida.

Alguém pode alegar que o novo clima tem o efeito salutar de acabar com hipocrisias. Era confortável ser a favor de todas as causas justas em tese desde que não houvesse muito perigo de perturbarem o seu status convenientemente quo, ou exigirem um engajamento maior. A depuração do debate público entre nós, culpa do medo do PT ou da frustração com o PT, obriga cada um a ir procurar a sua turma. Reacionários assumem seu reacionarismo, radicais da esquerda o seu radicalismo. E, o pior de tudo, a maioria assume a sua resignação.
 

Do jornal O Globo, 13.1.2005
 


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