| Bolsas vazias
Por Luiz Garcia, colunista de O Globo, 11/1/2005 As camadas de baixa renda têm baixíssima escolaridade de nível médio. Muitos (estudantes) não têm nem o ensino fundamental. É uma frase do ministro da Educação, Tarso Genro. Ele está coberto de razão. Pena que só agora esteja chegando perto de perceber as conseqüências disso. Talvez já entenda que, devido a essa triste situação, o programa Universidade para Todos, que lançou no ano passado, é um equívoco, a partir do nome. Genro não podia mesmo brigar com os números: das 112 mil bolsas de estudo oferecidas pelo ProUni, a maioria das vagas não preenchidas está nas cotas separadas para negros, pardos etc., que são maioria absoluta na baixa renda e na baixíssima escolaridade. O governo anuncia nova tentativa de ocupar as vagas. Será a quarta, e tem tantas chances de dar certo quanto as três primeiras. É óbvio, já que nada mudou no perfil dos candidatos: são jovens que receberam um ensino médio (oferecido por escolas públicas estaduais e municipais) ruim demais. A debilidade não se anulará pela repetição das tentativas. Mesmo que se recorra ao golpe baixo de redução das notas mínimas, e ainda que as universidades criem programas especiais para ajudar os candidatos, qualquer técnico do quinto escalão do MEC pode explicar ao ministro que educação de emergência é uma contradição em termos. Reconhecer os efeitos de séculos de injustiça social é fácil. Tentar resolvê-los a toque de caixa mostra triste soma de ingenuidade e demagogia. Quantas vezes isso já não foi dito e escrito por quem entende do assunto? Não está em questão o sistema de cotas. O que está à vista é a prova de que adiantam muito pouco soluções amparadas apenas na indignação contra a histórica injustiça social, e limitadas a pouco mais do que abrir as portas da universidade “para todos”. O efeito de séculos não se elimina de uma hora para outra, a canetadas. O próprio nome do programa do MEC mostra o seu equívoco. Um projeto certo teria apelido bem mais comprido: Bom Ensino Básico Para Todos, Bom Ensino Médio Para Todos, Universidade Para Quem Quiser e Precisar. Infelizmente, o título é pouco dramático, não cabe em manchetes. Pior, é coisa de longo prazo. Tem, para qualquer político, o defeito de começar num governo e só mostrar resultados em outro, sabe-se lá quando. O MEC pode alegar que, praticamente em todos os casos, ensino básico e ensino médio são responsabilidade de estados e municípios. Verdade. Isso faz com que qualquer solução comandada de Brasília seja complicada e demorada. É sempre assim com esses desagradáveis problemas seculares. As cotas podem existir desde já, preenchidas por quem pode encarar o desafio do ensino superior. De preferência, numa situação em que a universidade deixe de ser apresentada como a única escada para se subir na vida. Ou em que se pense que ela só existe para abastecer os níveis mais elevados do mercado de trabalho. Por falar nele, nada impede que já se comece a dotá-lo de cotas, para negros, índios, mulheres, deficientes físicos etc. Enfim, trata-se simplesmente
de fazer agora aquilo que agora é viável. E não parar
de buscar o que se considere idealmente justo e desejável — para
logo que for possível.
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