Crise na monocultura da soja

Por Frei Sérgio Antônio Görgen, outubro de 2004.
 

Avizinha-se uma grave crise na monocultura da soja.

Insumos em alta. A nova crise do petróleo contribui significativamente para isto. Os insumos químicos utilizados na produção de soja são, em sua grande maioria, derivados de petróleo. A energia básica usada na produção de soja é o óleo diesel. A soja é petro-dependente e, neste momento da história, isto significa aumento de custos.

Preços em baixa. Os preços internacionais voltaram aos seus patamares históricos de 10 a 11 dólares à saca de 60 quilos. A China, nova grande compradora, está com grandes estoques acumulados e aumentando a produção interna. A demanda mundial está, portanto, estagnada e equilibrada. Só uma grande quebra de safra em algum país grande produtor alteraria este quadro.

Maior oferta que consumo. Produção crescendo e se expandindo combinada com consumo estagnado gera excesso de demanda, que rebaixa imediatamente os preços. A produção mundial prevista para este ano (2004) é de 220 milhões de toneladas. O consumo gira em torno de 200 milhões de toneladas. Os estoques mundiais estão sob equilíbrio. Um bom planejamento estratégico recomendaria produzir menos soja. Embalado pela alta artificial dos preços nos últimos dois anos, o Brasil vai aumentar sua produção.

Migração de consumidores. A massiva produção de soja transgênica no mundo está provocando migração de consumidores. Cresce o número dos consumidores, em todas as partes do mundo, que optam por produtos entre eles o óleo vegetal não derivados de soja. Cresce o consumo de óleo de girassol, arroz, milho e oliva.

A combinação destes quatro fatores é nitroglicerina pura nas projeções e nas ambições do setor.

Endividamento. Soma-se a isto o excessivo endividamento dos produtores de soja. Provavelmente mais uma conta pública para todo o povo brasileiro pagar quando a crise estourar e os grandes agronegociantes do mercado da soja pedirem anistia das dívidas.

O Rio Grande do Sul será o estado mais afetado pela crise. Aqui a produtividade está bem abaixo da média nacional. A soja gaúcha é 90% transgênica e será a última a ser comprada num cenário de excesso de oferta. Os royalties de R$ 1,20 por saca de soja transgênica  colhida pesarão ainda mais nos custos. A Monsanto agradece.

A má qualidade da soja gaúcha. É  péssima no mercado internacional a fama da soja gaúcha. Produzida com sementes trangênicas contrabandeadas e sem controle de qualidade, misturadas com sementes tratadas com agrotóxicos, que já resultou na devolução de vários navios e fez o prêmio-porto embutido nos contratos de venda antecipada de soja dar prejuízos aos vendedores pela primeira vez na história da mercado da soja.

Tudo por causa da irresponsabilidade das lideranças do agronegócio gaúcho capitaneados pela Farsul e pelos veículos de Comunicação do Grupo RBS. Dizia-se à boca grande pelo interior do Rio Grande do Sul que os chineses comprariam qualquer soja, desde que o grão fosse amarelo. Aí os chineses descobriram grãos vermelhos (sementes tratadas para plantio com garboxim), fizeram análises laboratoriais e rejeitaram também soja amarela com partículas contaminadas com fungicidas, provavelmente resultado das pulverizações próximas ao período da colheita.

No mercado internacional, quem descuida da qualidade perde clientes. Os pretensos e prepotentes líderes do agronegócio gaúcho já comprometeram em passado recente  o mercado de carnes com a aventura da zona livre de aftosa sem vacinação e agora comprometem o mercado da soja com a transgenia e com os grãos envenenados.

Alternativas existem. Necessitam de mudanças drásticas na política agrícola nacional. Não possíveis com o Ministro Roberto Rodrigues e a turma da Monsanto (Amauri Dimarzio entre outros) à frente do Ministério da Agricultura.

As alternativas não significam o abandono da produção de soja, mas a combinação da produção de soja com outras culturas, aumentando a diversificação e eliminando os efeitos nefastos da monocultura. E também a implementação gradativa e consistente da produção de soja orgânica. Esta não depende dos insumos químicos e está livre do poder das multinacionais dos agrovenenos e de boa parte dos efeitos danosos da petro-dependência da produção de soja.
 

Frei Sérgio Antônio Görgen, deputado estadual Frei Sérgio (PT-RS), outubro de 2004.
Brasil

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