Kirchner é a boa notícia

Por Elio Gaspari, do jornal O Globo, 2 de janeiro, 2004

A última boa surpresa do fim de 2004 veio de Buenos Aires. O presidente Néstor Kirchner prevaleceu sobre o terrorismo financeiro. Os credores de uma dívida de US$ 102 bilhões começaram a engolir a negociação do primeiro calote do século XXI. Kirchner oferece 25 centavos por cada dólar devido aos maganos da dolarização do presidente Carlos Menem, quindim do FMI, da banca e de um consórcio de larápios locais.

A paridade cambial custou à Argentina uma contração de 18% do PIB, entre 1998 e 2002 e uma revolta popular que defenestrou o presidente Fernando De La Rua. Em 2003, quando Kirchner anunciou sua proposta de renegociação, ameaçaram-no com o fim do mundo, dos créditos e da estabilidade política. Num triste papel, o representante brasileiro no FMI, Murilo Portugal, alistou-se na banda da banca. 

A economia argentina está de pé e a popularidade do presidente bateu os 65%. Para quem gosta de ganhar um dinheiro fácil na América do Sul, o cacife de Kirchner é melhor do que o de muitos hermanos. Ainda não completou dois anos de governo e tudo indica que no decorrer de 2005 recolocará a economia de seu país no patamar de 1998, véspera do colapso do peso. A Argentina cresceu 11,7% em 2003 e 8% em 2004. (Entre 1998 e 2004 a economia brasileira cresceu 14%.) 

Graças a Kirchner, relembra-se ao mundo que o mercado não é convento. Ele se move por intere$$e e só por intere$$e. Se a Bolsa de Buenos Aires rendeu 13% no mes passado, os investidores de 2005 querem que os credores da dívida de 1999 se danem. 

Num exemplo extremo, assim foi em 1822, quando o mercado londrino comprou 200 mil libras (11 milhões em dinheiro de 2004) de papéis da dívida do reino de Poyais localizado na costa da atual Nicarágua. Poyais nunca existiu, mas mesmo assim seu “Cazique”, um vigarista escocês, fez outra emissão parcialmente bem sucedida. No limite, o que determina a compra de um papel desses não é a existência ou não de um país, ou de um peso argentino que vale um dólar. É a expectativa de que alguém vá pagar 110 por um papel que custou 100. 

Só por isso é que o Citibank informou aos seus clientes que botar dinheiro na Argentina de Kirchner pode ser negócio mais seguro do que colocá-lo no Brasil da ekipekonomica de Lula.

(...) O Globo, 2 de janeiro, 2004

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