Disciplina militar:
um caso “exemplar”
Por Gustavo Barreto, 16/11/2005
Outro leitor diz que as Forças Armadas investigaram “com rigor o caso” e afastaram “quem tinha de ser afastado”. Outra carta começa com “corretíssima a decisão do comando” (...) “que o exemplo dado pelo Exército sirva de lição para o Brasil, onde virou moda os chefes não saberem o que ocorre dentro de sua casa”. A única carta que faz uma pergunta pertinente – “será que esta distorção moral poderá estar instaurada nos demais batalhões do Brasil?” – é ingênua e, provavelmente, vinda de um civil. O leitor diz ainda que “infelizmente, tratam-se de jovens doentes” e que “poderia ter resultado uma pesquisa nesse sentido, para que a prática seja exposta e enterrada, e os brutamontes tratados”. Quatro distorções fundamentais Mais uma vez, a Globo – com apoio de muitos leitores, é verdade – trata de levar desinformação para seu público, após ter feito algo que parecia ser de utilidade pública. Destaca-se, antes de tudo, que é infantil o sentimento “anti-militar” que muitas pessoas nutrem. Os militares são uma das bases de sustentação importantes para uma sociedade desenvolvida. Seus serviços na Amazônia, por exemplo, merecem atenção e respeito. Infelizmente, não é essa a regra. Em primeiro lugar, a distorção maior: pergunte a qualquer praça – principalmente recrutas, soldados e cabos – se ele já não ouviu falar, presenciou ou sofreu tais práticas, mesmo que de forma menos cruel do que a mostrada no vídeo (sem choques e ferro quente, mas com os mesmos requintes de crueldade). Isto não é princípio de uma determinada infantaria de Curitiba. É uma realidade nacional, vem de cima para baixo e todos os militares a conhecem. Herança de uma tradição corporativa que continua viva. Pergunte a um praça, não custa nada. Dois: por conta disso, não existe seriedade nenhuma, muito menos rigor. O Exército, pelo contrário, fará de tudo para proteger os sargentos envolvidos. Basta aplicar com “rigor” uma pena interna – como um regime de prisão no qual o militar não poderá sair do quartel, mas terá um quarto com vídeo, televisão, liberdade relativa interna e outras regalias. Preso mesmo só de cabo para baixo. Três: neste caso, os chefes sabem muito bem o que acontece – até porque passaram pelo ritual. A “moda” lá é, portanto, aceitar que práticas “inadmissíveis” que ocorrem há décadas passem despercebidas diante da sociedade. Reina entre os praças a lei do silêncio, que justificadamente têm medo da disciplina militar. Quatro: É evidente a ingenuidade do leitor que fala em “distorção moral” e “jovens doentes”. O que se chama como tal eu prefiro qualificar de “tradição militar” e “jovens em treinamento”. A propósito,
não estou afirmando, com isso, que os autores das cartas ao GLOBO
não acreditem no que estão falando. É no entanto no
mínimo estranho que das cinco cartas publicadas com destaque na
edição de quarta, quatro sejam visivelmente de louvor (!)
ao Exército e duas delas aproveitem o episódio para, fora
de contexto, criticar o governo Lula. Antes de eleger tal tom, O GLOBO
poderia tratar de pesquisar mais sobre o tema. No entanto, se este for
de fato o perfil de leitores do jornal, é melhor deixar para lá
mesmo. Até porque atualmente, no lugar de leitores conscientes,
entramos na Era do “público-alvo”.
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