Fora isso...
Por Luis Fernando Verissimo, de PARIS
Fora a revolução latente nos seus arredores, Paris continua a mesma festa, e o fato de você poder dizer isso sem parecer um pateta ou um insensível é parte do problema. Quem visita Paris geralmente nem fica sabendo que existem os banlieus, como um cinturão de desespero e mágoas em volta da cidade, ou imagina o papel do racismo nesta sociedade tão civilizada. A própria disposição da cidade, com um núcleo histórico magnificamente preservado na sua uniformidade arquitetônica, rodeado por uma outra cidade empresarial de grandes edifícios modernos, e com os guetos suburbanos formando um terceiro e longínquo círculo, favorece a idéia de uma Paris intocada um lugar tão cheio de história antiga que a história contemporânea só entra como uma dessacração, e em que você pode viver desatento aos problemas do mundo sem remorso. Mas, vez que outra, os problemas dos banlieus convergem para o centro e, então, como agora, os próprios parisienses descobrem a outra realidade que os cerca, e os ameaça. Na própria Paris central existem bairros inteiros de imigrantes e descendentes de imigrantes que convivem mais ou menos em paz. Numa zona como a da famosa Place Pigalle você vê gente na rua de mais raças do que sabia que existiam. Mas esta diversidade faz parte do folclore cosmopolita da cidade, não ameaça. Os banlieus são outra coisa. Não são redimidos nem pelo pitoresco nem pela proximidade com o centro. Sua posição em relação a Paris é uma metáfora perfeita para a pseudo-integração de muçulmanos e outras minorias na sociedade francesa. Estão integrados na paisagem social como em nenhum outro país europeu, mas nas margens. A distância real e simbólica entre Paris e seus banlieus também é uma metáfora para uma divisão mais antiga, a de metrópole e colônia. Escrevendo sobre a decisão do governo de decretar um estado de emergência para enfrentar os distúrbios baseado numa lei de 1955 usada para reprimir a insurreição na Argélia, que então pertencia à França, um articulista do Le Monde comentou a cruel ironia de se tratar os sublevados de hoje como eram tratados seus avós, e a ainda mais cruel evidência de que 50 anos não fizeram muita diferença na relação entre colonialistas e colonizados. Fora isto,
aqui na metrópole as folhas das amendoeiras da beira do Sena estão
amarelando e caindo e o Beaujolais Nouveau vem aí!
|