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Eleições legislativas: o que é adequado dizer
O presidente Chávez adotou um discurso claro de que apóia o surgimento de uma nova oposição, mas considera obsoleta a atual, baseada no golpe de Estado e no boicote político às mudanças sociais e econômicas como forma de conseguir suas vitórias. A imprensa brasileira correu para dizer que "Chávez governa sem oposição" (O Globo de 6/12/2005) e que "país caminha para sistema chavista" (Folha de S. Paulo, 6/12/2005), numa clara alusão a uma suposta onda de autoritarismo por parte do governo, imagem recorrente e baseada no nada, já que todas as vitórias que Chávez conseguiu em sua carreira política foram no voto. Desde 1998, os partidos que lideraram o "boicote" - Ação Democrática (AD) e o partido social-cristão COPEI - já sofreram nove derrotas eleitorais consecutivas para Chávez. Anote o seguinte detalhe: a tentativa de atacar o governo venezuelano consiste na reiteração de que quem manda no país é Chávez, ou o "chavismo". Pensando nisso, os jornais quase nunca utilizam, em manchetes, expressões como "governo" e são poucos os ministros que aparecem. Personifica desta forma todo um grupo de chefes de Estado e de políticas públicas na figura de Chávez. Seguindo a mesma lógica, evitam citar nominalmente os partidos pró-Chávez - a saber: Movimento Quinta República (MVR), Podemos, Pátria para Todos, Partido Comunista e União Popular. Se o fizerem, poderão dar pistas de que Chávez não é o ditador que se pinta por aí nos jornalões. Eleições tranqüilas e direita desequilibrada O jornal "O Globo" do mesmo dia afirma ainda que "Chávez poderá governar tendo como único freio a Constituição" e que ele usaria esse suposto poder em proveito próprio, alargando seu mandato. Os opositores que, ao boicotar as eleições, romperam um compromisso assumido com a Organização dos Estados Americanos (OEA) e a União Européia (UE), agora - acreditem - querem entrar na Justiça para anular o pleito como, citando, "um passo para levar o caso a tribunais internacionais"(1). O diário carioca continua escrevendo que "movimentos opositores acusam o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) de ter maquiado os números da abstenção, que, segundo alguns deles, teria chegado a 90%", mas o mesmo jornal, na edição de 5/12/2005 citando autoridades venezuelanas, informa outros dados que dão pistas sobre o que foi o chamado "boicote": apenas 556 dos 5.516 candidatos anularam suas candidaturas. Cerca de 10%, que O Globo insiste em chamar de "boicote parcial". No mais, o que a imprensa precisa fazer para continuar sua pequena farsa internacional é mudar a linguagem de acordo com os seus interesses. Por exemplo: não utilize a palavra "golpe de Estado" para seus amigos, apenas para seus inimigos. "O Globo" já aprendeu a lição. Na notinha "De golpista a presidente", que conta resumidamente a história política de Chávez, o militante jornal pró-direita escreve que o "tenente-coronel Hugo Chávez, insatisfeito com as políticas neoliberais do presidente Carlos Andrés Pérez, tenta promover um golpe de Estado. Os rebeldes tomam cidades como Valencia e Maracay, mas não Caracas. Chávez, ao perceber a derrota, entregou-se ao governo, que aceitou que ele falasse na TV e pedisse que os rebeldes cessassem a rebelião, dizendo que o golpe falhara 'por agora'. Ele é preso e fica dois anos na cadeia". Importante e oportuna a presença das palavras com grifo nosso: "tenente-coronel", "golpe de Estado", "rebelião" e "por agora". Chávez, o coronelão, tentaria o golpe novamente por meio da rebelião. Os editores de "O Globo" não acharam "adequado" lembrar que Carlos Andrés Perez foi derrubado por denúncias de corrupção - como aconteceu com Collor no Brasil - e preso(2). Agora, algumas linhas depois, na mesma nota, não se perca nas palavras: "Depois de dois dias de protestos antichavistas nas ruas, Chávez é deposto por rebeldes, sendo preso numa base militar. O empresário Pedro Carmona é apontado presidente pelos rebeldes. Porém, militares leais a Chávez promovem um contragolpe, invadem a base e libertam Chávez, que reassumiu o poder depois de 47 horas." Desta vez é Pedro Carmona, "empresário" que "depõe" Chávez, aquele que assume como "presidente" após "protestos" nas ruas. As palavras "rebelião" e "golpe de Estado" sumiram e os militares que devolveram a normalidade democrática ao país "invadiram" a base (!). A idéia de um coronelão golpista é substituída por "empresário"(3). Falsas novidades O índice de abstenção foi de 75%, segundo relatório do CNE na segunda 5, mas isso é outra falsa novidade. No pleito parlamentar de 2000, 56% não compareceram (o voto lá não é obrigatório). Nas eleições municipais do ano passado a abstenção foi de 69%, ou seja, seis pontos percentuais a menos que a de domingo. Além disso, esta foi a primeira vez que a votação foi somente para eleger congressistas. Antes, as eleições parlamentares eram realizadas junto com as presidenciais, que costumam ter maior participação. Sem explicar o porquê, o editor do jornal venezuelano TalCual, Teodoro Petkoff, criticou o sistema eleitoral de seu país. "Este processo sepultou o sistema eleitoral da Venezuela. Este sistema eleitoral não merece a confiança nem dos opositores do governo nem de seus defensores". E assim seguem as denúncias vazias, sem uma única crítica em relação à votação em si. Houve fraude? Alguém foi pago para votar? Alguma denúncia de práticas eleitoreiras? Nada. Pelo contrário. Para organismos independentes, a votação transcorreu sem incidentes, com um comparecimento maior nas áreas populares, onde o governo tem maior apoio. 150 observadores da União Européia, 100 da OEA e um grupo de 180 personalidades acompanharam a votação. "O processo foi normal e tranqüilo", afirmou Rubén Perina, chefe da missão de observadores da OEA. A Agência Carta Maior informa ainda que a organização venezuelana Ojo Electoral, a mais credenciada entre as nacionais dedicadas à observação, confirmou a normalidade do pleito em seu primeiro boletim. No entanto, é preciso
entender: tendo os compromissos político-ideológicos que
a imprensa "brasileira" tem, realmente não fica bem dizer determinadas
coisas. Espera-se que a nossa imprensa reconheça seus erros em tempo
mais hábil do que os opositores ao governo na Venezuela, de forma
que não agonize na lama de contradições na qual está
inserida.
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