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Eleições legislativas: o que é adequado dizer
Como usar a linguagem para promover amigos e difamar inimigos. Por Gustavo Barreto, 7/12/2005, especial para o FazendoMedia; Foto: Arquivo da Agência Carta Maior


Foram disputados neste domingo, 4 de dezembro, na Venezuela, 167 cargos na Assembléia Nacional, 12 no Parlamento Latino-Americano e cinco no Parlamento Andino. A tentativa de boicote por parte da oposição é mais uma dura derrota na pretensão da direita venezuelana de tirar a legitimidade do pleito. Além disso, até o fechamento da edição, o relatório eleitoral sugeria que todos os cargos na Assembléia Nacional ficaram com partidos aliados do governo.

O presidente Chávez adotou um discurso claro de que apóia o surgimento de uma nova oposição, mas considera obsoleta a atual, baseada no golpe de Estado e no boicote político às mudanças sociais e econômicas como forma de conseguir suas vitórias. A imprensa brasileira correu para dizer que "Chávez governa sem oposição" (O Globo de 6/12/2005) e que "país caminha para sistema chavista" (Folha de S. Paulo, 6/12/2005), numa clara alusão a uma suposta onda de autoritarismo por parte do governo, imagem recorrente e baseada no nada, já que todas as vitórias que Chávez conseguiu em sua carreira política foram no voto. Desde 1998, os partidos que lideraram o "boicote" - Ação Democrática (AD) e o partido social-cristão COPEI - já sofreram nove derrotas eleitorais consecutivas para Chávez.

Anote o seguinte detalhe: a tentativa de atacar o governo venezuelano consiste na reiteração de que quem manda no país é Chávez, ou o "chavismo". Pensando nisso, os jornais quase nunca utilizam, em manchetes, expressões como "governo" e são poucos os ministros que aparecem. Personifica desta forma todo um grupo de chefes de Estado e de políticas públicas na figura de Chávez. Seguindo a mesma lógica, evitam citar nominalmente os partidos pró-Chávez - a saber: Movimento Quinta República (MVR), Podemos, Pátria para Todos, Partido Comunista e União Popular. Se o fizerem, poderão dar pistas de que Chávez não é o ditador que se pinta por aí nos jornalões.

Eleições tranqüilas e direita desequilibrada

O jornal "O Globo" do mesmo dia afirma ainda que "Chávez poderá governar tendo como único freio a Constituição" e que ele usaria esse suposto poder em proveito próprio, alargando seu mandato. Os opositores que, ao boicotar as eleições, romperam um compromisso assumido com a Organização dos Estados Americanos (OEA) e a União Européia (UE), agora - acreditem - querem entrar na Justiça para anular o pleito como, citando, "um passo para levar o caso a tribunais internacionais"(1). O diário carioca continua escrevendo que "movimentos opositores acusam o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) de ter maquiado os números da abstenção, que, segundo alguns deles, teria chegado a 90%", mas o mesmo jornal, na edição de 5/12/2005 citando autoridades venezuelanas, informa outros dados que dão pistas sobre o que foi o chamado "boicote": apenas 556 dos 5.516 candidatos anularam suas candidaturas. Cerca de 10%, que O Globo insiste em chamar de "boicote parcial".

No mais, o que a imprensa precisa fazer para continuar sua pequena farsa internacional é mudar a linguagem de acordo com os seus interesses. Por exemplo: não utilize a palavra "golpe de Estado" para seus amigos, apenas para seus inimigos. "O Globo" já aprendeu a lição. Na notinha "De golpista a presidente", que conta resumidamente a história política de Chávez, o militante jornal pró-direita escreve que o "tenente-coronel Hugo Chávez, insatisfeito com as políticas neoliberais do presidente Carlos Andrés Pérez, tenta promover um golpe de Estado. Os rebeldes tomam cidades como Valencia e Maracay, mas não Caracas. Chávez, ao perceber a derrota, entregou-se ao governo, que aceitou que ele falasse na TV e pedisse que os rebeldes cessassem a rebelião, dizendo que o golpe falhara 'por agora'. Ele é preso e fica dois anos na cadeia".

Importante e oportuna a presença das palavras com grifo nosso: "tenente-coronel", "golpe de Estado", "rebelião" e "por agora". Chávez, o coronelão, tentaria o golpe novamente por meio da rebelião. Os editores de "O Globo" não acharam "adequado" lembrar que Carlos Andrés Perez foi derrubado por denúncias de corrupção - como aconteceu com Collor no Brasil - e preso(2).

Agora, algumas linhas depois, na mesma nota, não se perca nas palavras: "Depois de dois dias de protestos antichavistas nas ruas, Chávez é deposto por rebeldes, sendo preso numa base militar. O empresário Pedro Carmona é apontado presidente pelos rebeldes. Porém, militares leais a Chávez promovem um contragolpe, invadem a base e libertam Chávez, que reassumiu o poder depois de 47 horas." Desta vez é Pedro Carmona, "empresário" que "depõe" Chávez, aquele que assume como "presidente" após "protestos" nas ruas. As palavras "rebelião" e "golpe de Estado" sumiram e os militares que devolveram a normalidade democrática ao país "invadiram" a base (!). A idéia de um coronelão golpista é substituída por "empresário"(3).

Falsas novidades

O índice de abstenção foi de 75%, segundo relatório do CNE na segunda 5, mas isso é outra falsa novidade. No pleito parlamentar de 2000, 56% não compareceram (o voto lá não é obrigatório). Nas eleições municipais do ano passado a abstenção foi de 69%, ou seja, seis pontos percentuais a menos que a de domingo. Além disso, esta foi a primeira vez que a votação foi somente para eleger congressistas. Antes, as eleições parlamentares eram realizadas junto com as presidenciais, que costumam ter maior participação.

Sem explicar o porquê, o editor do jornal venezuelano TalCual, Teodoro Petkoff, criticou o sistema eleitoral de seu país. "Este processo sepultou o sistema eleitoral da Venezuela. Este sistema eleitoral não merece a confiança nem dos opositores do governo nem de seus defensores". E assim seguem as denúncias vazias, sem uma única crítica em relação à votação em si. Houve fraude? Alguém foi pago para votar? Alguma denúncia de práticas eleitoreiras? Nada.

Pelo contrário. Para organismos independentes, a votação transcorreu sem incidentes, com um comparecimento maior nas áreas populares, onde o governo tem maior apoio. 150 observadores da União Européia, 100 da OEA e um grupo de 180 personalidades acompanharam a votação. "O processo foi normal e tranqüilo", afirmou Rubén Perina, chefe da missão de observadores da OEA. A Agência Carta Maior informa ainda que a organização venezuelana Ojo Electoral, a mais credenciada entre as nacionais dedicadas à observação, confirmou a normalidade do pleito em seu primeiro boletim.

No entanto, é preciso entender: tendo os compromissos político-ideológicos que a imprensa "brasileira" tem, realmente não fica bem dizer determinadas coisas. Espera-se que a nossa imprensa reconheça seus erros em tempo mais hábil do que os opositores ao governo na Venezuela, de forma que não agonize na lama de contradições na qual está inserida.
 

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1 César Pérez Vivas, secretário-geral do partido de oposição Copei. "Chávez governa sem oposição", jornal O GLOBO, 6/12/2005 [http://oglobo.globo.com/jornal/mundo/189532768.asp]

2 Emir Sader, "A luta entre o velho e o novo", Agência Carta Maior, 5/12/2005 [http://agenciacartamaior.uol.com.br/agencia.asp?id=1584&coluna=boletim]

3 "De golpista a presidente", jornal O Globo, 6/12/2005 [http://oglobo.globo.com/jornal/mundo/189532766.asp]


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