Lembrai-vos de 1954
Por Elio Gaspari, na Folha de S. Paulo, 21/12/2005
Beneficiada pelo irracionalismo da retórica do "nosso guia", a oposição quer encurralar o país. Procede como se precisasse de juros altos e estagnação econômica. Se Lula segura os gastos, o tucanato acusa o governo de frear o crescimento. Se a ministra Dilma Rousseff diz que a idéia de um vago ajuste fiscal de longo prazo é "rudimentar", o campo banqueiro do PSDB ataca-a como se ela planejasse o fim do mundo. Se Lula derruba o salário mínimo de R$ 384, a oposição o acusa de não cumprir o prometido. ("Nosso guia" prometeu dobrá-lo.) Se o companheiro vai na direção dos R$ 350, é um irresponsável que torrará R$ 4,6 bilhões. Admitindo-se que alivie o confisco do Imposto de Renda sobre os salários do andar de baixo elevando em 10% o teto da isenção dos trabalhadores, gastam-se mais R$ 1,3 bilhão. Juntando-se as duas despesas, chega-se a cerca de R$ 6 bilhões. É muito dinheiro, mas nunca é demais lembrar que os encargos da dívida interna e externa custam ao país cerca de R$ 120 bilhões anuais. Ao contrário do que acontece com o rentismo dos juros, cada centavo gasto com o salário mínimo retorna ao mercado da produção nacional. Esse dinheiro compra comida e vestuário. O que sobra serve para a construção de um puxado ou de uma laje. Estima-se que um aumento de 10% no salário mínimo reduz a pobreza nacional em 4%. Quando a Viúva esvazia a bolsa pagando os juros dos doutores Henrique Meirelles e Afonso Beviláqua, esse fato é apresentado como uma fatalidade histórica. Quando se fala em melhorar a vida do trabalhador, é demagogia. O PSDB tem dois candidatos a presidente da República (José Serra e Geraldo Alckmin) que ainda não conseguiram cumprir a promessa de campanha de integrar os bilhetes de ônibus, trens e metrô de São Paulo. Tudo indica que, se o fizerem, cobrarão uma tarifa burra mais elevada do que o carnê dos trabalhadores de Nova York. No Rio de Janeiro, onde está o terceiro candidato oposicionista, a situação dos transportes públicos é ainda pior. A oposição que acusa Lula de demagogia teme que iniciativas sociais e a melhoria da renda do andar de baixo permitam a reeleição do companheiro. Vai embutida nesse raciocínio a idéia de que a patuléia é composta por uma massa incapaz de discernir o alcance de seu voto. Se ele for reeleito, reeleito estará. As teorias
conspirativas do PT são pouco mais que fantasias. Mesmo assim, é
verdade que a política brasileira convive com uma militância
demófoba. Quando lhe convém, ela investe contra as conseqüências
da elevação do salário mínimo, erguendo a bandeira
da moralidade, contra "o clima de negociatas, desfalques e malversação
de verbas que vem, nos últimos tempos, envolvendo o país".
Essas palavras, que poderiam ter saído de um discurso de "nosso
guia" na sua encarnação oposicionista, foram tiradas de um
documento bem mais antigo: o Manifesto dos Coronéis, de fevereiro
de 1954. Seis meses depois, Getúlio Vargas se matou.
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