A disputa do cafuné
No fundo, a disputa entre PT e PSDB é pela honra de ser o representante da elite urbana. Por Breno Costa, para a Revista Consciência.Net, dezembro de 2005


Faltam cerca de dez meses para mais um processo eleitoral rumo à Presidência da República e constata-se a enorme complicação na leitura da realidade em que se encontra o Brasil, de certa maneira impensada dez meses atrás. São “especialistas em política” que se contradizem, muitos boatos, poucas confirmações, ausência de explicações claras sobre os mais variados e palpitantes temas do cotidiano congressual, palaciano e ministerial. Na análise conjuntural da política nacional – exercício em alta no momento, vítima de excessos aqui e acolá – nos perdemos no emaranhado alucinante de notícias, notas e artigos dos jornais diários e nas bombas das publicações semanais. Esquecemo-nos, portanto, de uma análise mais estrutural do momento específico. Para isso, uma leitura dos clássicos da Política, pode ajudar.

O grande livro de Karl Marx sob a roupagem de cientista político, “O 18 Brumário de Louis Bonaparte”, relata comentadamente o intervalo que vai da queda da era Louis Philippe, em 1848, até o golpe de Estado perpetrado pelo sobrinho de Napoleão contra a Assembléia Nacional francesa (o Congresso deles) no dia 2 de dezembro de 1851, dando início à sua ditadura, após um período de mandato constitucional, eleito em sufrágio universal. No período que antecede a consumação do golpe anunciado, a defesa da Constituição e da autonomia do poder legislativo fica por conta e risco do chamado “partido da ordem”, que se divide em duas grandes facções: os legitimistas e os orleanistas. Enquanto os primeiros herdavam o legado da dinastia Bourbon, estes representavam o clã dos Orleans. Mais que essa separação “familiar”, contudo, os setores da sociedade burguesa republicana que apóiam dá a cara real a cada um dos lados. 

Pelo lado dos legitimistas estão os grandes proprietários de terra, ou seja, o latifúndio. Junto aos orleanistas, quem figura ali são os grandes financistas, os grandes industriais, enfim, a elite urbana. Jogando essa distinção para o Brasil, o PFL e o PSDB são os correspondentes mais aproximados dessa distinção entre a elite francesa à época. O PFL representa historicamente interesses conservadores, mas possui uma ligação muito mais forte com os grandes caciques do Norte e Nordeste, com os grandes latifundiários. Já o PSDB, surgido pós-ditadura, puxa para si a pecha de desenvolvimentista, afinado com a globalização da economia mundial, sob o signo de uma pretensa social-democracia. Nesse sentido, e isso ficou claro nos oito anos de FHC, o sistema financeiro internacional e a indústria e o comércio nacional sempre se sentiram muito à vontade sendo representados pelos tucanos do PSDB.

Falsa polarização

O que ocorre, portanto, é que se criou uma situação no Brasil, seguindo a tendência mundial globalizada, de preponderância nas grandes definições políticas desse grande capital de caráter muito mais urbano, com as grandes multinacionais, do que rural. Ou seja, nesse contexto, a luta pela hegemonia política numa sociedade sob tais moldes, deve se pautar pelo agrado a esse agrupamento da elite, que, é bom ressalvar, nunca entrou em conflito com a elite rural. Pelo contrário, sempre se complementaram. Quando há divergências, é circunstancial, derivados, em parte, da maior ou menor capacidade do capital urbano dar conta do escoamento da produção levada a cabo pelo capitalismo do campo. Ambos os lados estão comprometidos com a manutenção da ordem.

O que se configura hoje é que o Partido dos Trabalhadores provavelmente percebeu essa “polarização” e, diante da convicção de que o poder deveria ser conquistado, passou a disputar o direito de fazer cafuné nessa elite urbana e globalizada. Isso fica claro no governo Lula, com a política econômica adotada por Palocci, com a presença de Henrique Meirelles no comando do Banco Central, com a política de alianças firmada no Congresso. Essa disputa de bastidores entre PT e PSDB também se evidencia, em outra escala, na disputa pelo controle dos fundos de pensão estatais, briga que vem desde o governo Fernando Henrique, o que gera o acórdão verificado cada vez mais nitidamente no mundo sinistro das CPIs.

O que está colocado para a elite urbana nacional e internacional é saber quem tem maiores condições de representar seus interesses no Brasil. Lula já teve três anos para mostrar a que veio. O PSDB já teve oito e mesmo assim não foi capaz de segurar com firmeza o posto, a ponto do capital empresarial e industrial ter preferido o apoio à Lula em 2002, em detrimento da candidatura tucana de José Serra.

O “18 Brumário” pode ajudar a explicar esse fato aparentemente estranho. Marx mostra como Bonaparte e seu caráter golpista foram apoiados pela burguesia à época, mesmo não sendo ele um representante “de raiz” da classe. Segundo Marx, “a burguesia, a fim de preservar intacto seu poder social, tem que enfraquecer seu poder político”. Assim, desde que seus interesses de classe estejam garantidos, melhor que quem garanta esses interesses, estando no olho do furacão, seja alguém que represente, pelo menos em teoria, uma outra classe. Está aí o exemplo do Partido dos Trabalhadores...

Perpetuação da elite

A eleição de Lula foi, de fato, estratégica para os grandes bancos e as grandes indústrias por, entre esse e outros fatores, ter permitido uma “salutar e democrática” variação no poder, conferindo um providencial ar de legitimidade e de maturidade do processo. Sérgio Motta dizia, ainda no primeiro mandato de FH, que o PSDB deveria ficar 20 anos no poder. Como o falecido Sérgio Motta e seu PSDB falavam em nome de um capital urbano, e como o PT prossegue com o mesmo papel, não dá para dizer que o grande mentor do projeto político do PSDB perdeu a aposta.

Assim, quando nos noticiários se vê uma exultação política com a oposição entre PT e PSDB e o vislumbre de cenários de “pega-pra-capar” no horizonte eleitoral, relaxem. O que temos é uma disputa não por espaço de representação na sociedade, não uma disputa por projeto político (porque são iguais), mas uma batalha pela dialética tarefa de agradar determinado setor da elite (o setor que realmente manda e desmanda no mundo desenvolvido) e, em retribuição, receber a recompensa representada na perpetuação do poder e na adoção compensatória, para a sociedade, de políticas social-democratas, dentro dos limites impostos pelo neoliberalismo, é claro – antes que Keynes se revire no túmulo.

Como nos diz Marx no início de seu 18 Brumário, parodiando Hegel: “Todos os personagens de grande importância na história universal ocorrem, por assim dizer, duas vezes: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. Para nós, em 2006, somente a escolha entre o mesmo ou o mais do mesmo. Lembrando que a ordem dos fatores não altera o produto...
 

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Breno Costa é estudante de jornalismo da Universidade Federal Fluminense (UFF) e não quer o mais do mesmo.

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