‘São os galos
que tecem a manhã’
Por Petrônio Souza Gonçalves, 26/11/2005Há poucas horas de receber o Prêmio Nacional de Literatura, Prêmio Vivaldi Moreira, da Academia Mineira de Letras, como segundo colocado no concurso sobre o centenário de Afonso Arinos, o estadista da República, rememoro este artigo, escrito há bem pouco tempo. É um canto solitário, um canto que busca encontrar eco no vazio processo de incentivo aos novos escritores, aos que ainda encontram motivos para cantar as coisas desta terra, coisas que ainda não se perderam de nós. Munido neste espírito, comungando com este sentimento, estufo meu peito e salto meu canto surdo, silencioso, em busca de alguma resposta, alguma justificativa, algo que nós faça ver que estamos cada vez mais distantes de nós mesmo, pobres em nós mesmo... Por que isso?! É claro que nós, filhos da língua e versos de Camões, nunca deixamos de produzir versos, sonhos; literatura. Foi na Pátria de homens e livros que reconhecemos e consagramos os vários herdeiros de Camões. Entre alguns, lembramos de Iracema e seus lábios de mel, o príncipe parnasiano Olavo Bilac, o moderno Carlos Drummond de Andrade, além de muitos outros, durante tantos anos de literatura e história, em um país que aprendeu a ler e declamar sua glória. Hoje, assistimos passivamente ao mundo televisivo, tendo apenas uma tela como janela, e a literatura, perdida, enterrada no espaçamento criado entre o televisor e o espectador. Podemos dizer que vivemos atualmente sob um movimento silencioso e velado de distanciamento entre as gerações, entre as culturas nacionais, entre o agente criador e o agente leitor. A literatura é vítima deste balaio de medidas orquestradas para alienar e destruir a identidade e as várias manifestações de um povo. Hoje, ao falarmos em literatura, em poesia, em romances, só encontramos nomes reconhecidos se lembrarmos de outrora, daqueles que o tempo tratou de canonizar. Para falarmos de nomes atuais, de agora, poderemos ficar por horas, buscando apenas um nome de consenso. Por que isso?! Ora, não é verdade que os nossos autores, nossos escritores, pararam de produzir literatura, pararam de vender sonhos. Não! O que vem acontecendo com o passar dos anos é um processo de isolamento, de distanciamento entre o que nos faz pensar, nos faz elevar; e o que pode ser repensado, elevado a um estágio de consciência e razão superiores. É tudo tão bem manipulado, que mal percebemos a força deste braço mudo que nos mantém aprisionados, silenciados por um mundo menor, sem poesia alguma. É nesta hora que percebemos que o sol não nasceu além da página do papel jornal, infelizmente. Mas como
dizia Cabral, o descobridor da poesia em pedra, ‘são os galos que
tecem a manhã’ e fazem pairar acima de tudo isso, acima de nós,
uma cortina celeste de fraternidade e criatividade universal. Nos poleiros
dos concursos literários que ainda resistem Brasil afora, algumas
aves raras batem forte as asas e estufam o peito lastro em sonhos e histórias,
para cantar bem alto e forte que nem todos, eles conseguiram silenciar.
_____________________ |