Conta outra
Propaganda da direita e da grande imprensa avança com projeto conservador. Cassação política de José Dirceu encontra respaldo na inércia e ignorância de segmentos importantes da sociedade. Por Gustavo Barreto, 1/12/2005
O parlamentar petista, cassado nesta quarta (30/11) à noite em decisão polêmica, foi apresentado como um canastrão, autoritário, mentiroso, contraditório, politiqueiro. Mas o “veredicto” (sic) veio por um motivo: ele é arrogante. Foi, digamos, um “crime de personalidade”. A edição do JN desta quinta (1/12) teve a seguinte pérola. Pegaram um trecho descontextualizado de José Dirceu em uma audiência pública na Comissão de Ética da Câmara. Em outros momentos, Dirceu se saiu bem e desconstruiu argumentos confusos da oposição. No trecho em questão, Dirceu diz que não é arrogante e arranca risadas sinceras da “platéia”. Ou seja: ele provavelmente foi arrogante durante sua passagem pelo Congresso. Como esse, digamos, desvio moral foi apresentado pelo Jornal Nacional? Citando: “(...) E a risada veio como veredicto. O ex-homem forte do planalto estava irremediavelmente isolado”. Os extremamente éticos editores do JN esqueceram – puxa! – de falar sobre o que disse Dirceu em sua defesa. Esqueceram, mais uma vez, de dar conteúdo à edição de hoje. Ou seja: esqueceram de dizer que não há provas concretas contra ele. Um exemplo: você sabia que a CPMI dos Correios examinou as ligações telefônicas de Dirceu e não encontrou nenhuma chamada feita ou recebida de telefones de Marcos Valério? Jefferson ressuscitado, de novo Esqueceram eles – haja amnésia – que um dos principais argumentos da oposição é o de que “é impossível que José Dirceu não soubesse do esquema”. Isso foi repetido várias vezes como argumento, quem acompanhou as CPIs sabe. Evidentemente que instituições como a Polícia Federal e o Ministério Público não lidam com suposições tão idiotas. Mas o Jornal Nacional costuma dar voz a quem faz tais afirmações. Como hoje fez. Deu voz, como paladino da moralidade, a Roberto Jefferson (de novo), que foi cassado por não provar o que disse. É impressionante. Jefferson, anotemos, teve sua cassação aprovada pelo Conselho de Ética e referendada pela Câmara dos Deputados sob o argumento de que denunciou, sem apresentar provas, a existência de um esquema de pagamentos mensais para compra de apoio a parlamentares do Congresso – o famoso “mensalão”. E, veja que interessante, o mesmo Júlio Delgado (PSB) que votou a favor da cassação de Jefferson com base neste motivo (falta de provas) aceitou como verdadeira a tese do mensalão na sua função de relator do processo de Dirceu. O mesmo Delgado, que em 2004 era líder da bancada do PPS, poderia sofrer um processo por decoro parlamentar, já que o suposto mensalão já existia (conforme “denúncia” do próprio Jefferson). Utilizando a mesma linha de raciocínio, “é impossível que ele não soubesse do esquema”. Argumentos infantis Até Alberto Goldman, líder de oposição ao governo, entrou na estorinha de que não faria sentido haver “um papel assinado pelo corruptor e pelo corrupto”. Infantil, mal-intencionado, seja o que for, Goldman “se esqueceu” – de novo! – que as técnicas de investigação do Ministério Público e da Polícia Federal não se baseiam em premissas idiotas, tais como um papel de confissão. Há muito sendo investigado, sem nenhum documento comprovando o envolvimento de Dirceu em tal esquema. Registra-se aqui que não há defesa de um ou outro projeto. Trata-se de uma defesa da razão. Foram achadas outras coisas, tais como financiamentos de campanha irregulares, indícios de caixa 2 e por aí vai. E para isso não foi preciso “um papel assinado pelo corruptor e pelo corrupto”. Mas mesmo assim foram apontados culpados. Pessoas estão sendo indiciadas, com base em provas concretas. “Nesses casos, não há nenhuma necessidade de documentação”, diz Goldman, falando provavelmente sobre os casos que envolvem políticos que o PSDB e o PFL odeiam. No caso de um julgamento moral, de fato, não há porque ter documentação. E fica o alerta: ontem foi o Dirceu. Anteontem, para quem não ficou sabendo, os sem-terra, agora apontados pela direita como “terroristas” - tese legitimada pelos jornalões. Daqui pra frente, qualquer entidade, pessoa ou projeto com algum resquício de justiça social. Na verdade, há ampla documentação. Horas de campanha na TV, nos jornais e nos rádios da grande mídia, que fazem o que querem, de acordo com seus interesses, sem nunca serem questionados pelos deputados. Os mesmo, aliás, que receberam o “mensalão” e que, tomados repentinamente por um “impulso ético”, prenderam seu próprio “chefe”. Conta
outra.
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