Combustíveis do futuro
Por Raphael Ferreira, do Boletim Olhar Virtual (UFRJ), 29/11/2005


Com cerca de 800 milhões de veículos em circulação no planeta registrados no ano 2000, o impacto ambiental da queima de combustíveis não renováveis, como o aquecimento global e a poluição aérea nas grandes cidades, já apresenta conseqüências danosas ao equilíbrio climático e à qualidade do ar que respiramos. Não é à toa que pesquisadores do mundo todo se apressam em estimular a procura de alternativas energéticas que respeitem o meio ambiente. O argumento ecológico em defesa do estudo de novos combustíveis ganhou força entre a comunidade científica. Mas não é o único.

A instabilidade política e econômica das regiões produtoras de petróleo chamou a atenção do Brasil para a procura de alternativas que reduzam ou eliminem sua dependência desse minério fóssil que, além disso, não é renovável, exigindo milhões de anos para se formar.

Visando a superação deste quadro insustentável, acadêmicos da UFRJ têm se destacado no cenário nacional com pesquisas inovadoras provenientes das mais diversas frentes de conhecimento. Segundo a professora Suzana Kahn Ribeiro, do Programa de Engenharia de Transportes da COPPE, de todos os combustíveis alternativos estudados atualmente, como o hidrogênio e o motor elétrico, o mais promissor em termos ambientais, técnicos e econômicos é o biocombustível.

“O biocombustível, por ser também um combustível líquido, como a gasolina e o diesel, pode funcionar utilizando a mesma infraestrutura existente. Com características similares aos combustíveis convencionais, ele pode ser usado nas frotas que já circulam, sem que haja necessidade de troca ou alteração nos motores”, explica Suzana, citando o álcool e o biodiesel como exemplos de biocombustíveis. “Em termos ambientais, o balanço de carbono pode ser nulo, ou seja, não impacta a camada de gases de efeito estufa. Além disso, também é vantajoso em termos locais, pois não tem enxofre, o que reduz a poluição regional”, diz a professora.

Já em termos econômicos, Suzana Ribeiro lembra que as vantagens dependem da região em que o biocombustível é produzido: “depende da região. Em regiões com mais disponibilidade de terra e clima adequado, a produção é mais vantajosa”.

Engajado em pesquisas de ponta na área de combustíveis alternativos, o professor Donato Aranda, coordenador do Laboratório de Tecnologias Verdes da Escola de Química (GreenTec/EQ), prova que a produção de biodiesel já se tornou um empreendimento de grande projeção nacional: “o GreenTec surgiu há dois anos, por idéia minha, e tem sido nosso principal objeto de trabalho. Trabalhamos também com derivados químicos de óleos vegetais e açúcar. Muitas teses foram geradas nessa área, já que o Brasil é um dos maiores produtores de óleos vegetais e o maior produtor de açúcar do mundo”.

Como exemplo de um dos projetos do GreenTec, o professor citou a Fábrica de Biodiesel, construída em associação com a empresa Agropalma, no estado do Pará. Além de ser a primeira fábrica de biodiesel com catalisador heterogêneo do mundo, a iniciativa é apoiada pelo governo federal. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, juntamente com a ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, esteve presente na inauguração da unidade, no dia 27 de abril de 2005. Em discurso, o presidente afirmou ser intenção do governo transformar o biodiesel, produzido pela fábrica a partir do óleo de dendê, na segunda fonte principal da matriz energética do país: “certamente, o mundo vai precisar cada vez mais utilizar outro combustível que não um derivado do petróleo. E é aí que entra a capacidade de um país como o Brasil, que pode produzir essa extraordinária alternativa”.

Só na semana passada, a f ábrica conseguiu vender cerca de 5 milhões de litros de Biodiesel em uma única venda, através dos serviços fornecidos com tecnologia patenteada pela Escola de Química da UFRJ. “Temos negociado também outras patentes com o apoio do Núcleo de Patentes da UFRJ, e cerca de 100 países já estão interessados”, afirma o professor Donato. Do valor arrecadado, uma porcentagem significativa será aplicada na própria universidade.

O projeto Biodiesel também se destaca por sua implicação social. Foi feito um acordo com a empresa Agropalma, garantindo a compra do óleo de dendê de agricultores familiares do Pará, propiciando-lhes uma renda de cerca de R$ 1.700,00 por mês, o que é bastante incomum para aquela região. Esse é apenas um exemplo do que se pretende realizar com todas as parcerias nesse projeto, tendo o BNDES como um dos exemplos de instituições que apóiam a iniciativa. Hoje, cerca de 150 famílias já são beneficiadas pelo acordo. E o planeta todo agradece.
 


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