VENEZUELA
Um povo que conquista sua cidadania
Por Claudia Jardim, de Caracas (Venezuela), Jornal Brasil de Fato, Edição Nº 140 - De 3 a 9 de novembro de 2005


 
Bairro 23 de Janeiro, periferia de Caracas. Quem entra na casa de Sinforoza das Mercedes, construída em uma das ladeiras do morro, imediatamente se depara com um diploma envolto em uma moldura de vidro preso à parede. Essa venezuelana de 63 anos não é médica, tampouco advogada. O diploma, exibido com orgulho, mostra que nesta casa, há menos de dois anos, havia uma analfabeta.

Sinforoza é uma das milhares de venezuelanas alfabetizadas entre julho de 2003 e outubro de 2005. A epopéia, disse o presidente Hugo Chávez, permitiu ao país ser declarado território livre de analfabetismo pela Organização da Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). A receita para erradicar o flagelo foi definir educação como prioridade de Estado, associar conhecimento acadêmico com sabedoria popular, e solidariedade interna e externa.

A Missão Robinson, programa que erradicou o analfabetismo, teve início em julho de 2003, baseado no método “Yo, sí, puedo”, desenvolvido pelo Instituto Pedagógico Latino- Americano de Cuba, adaptado ao contexto venezuelano.

A diferença

Sinforoza conta que nunca pôde estudar. Pequena, ajudou a mãe a criar seus nove irmãos. Casada, ficou viúva quando os seis filhos eram pequenos. “Como pensar em estudar? Tinha que trabalhar para dar comida a eles”, conta. “Depois, não pensei mais nisso. Não fazia diferença. Agora que sei ler e escrever, vejo a diferença que faz. Mudou a minha vida”, diz.

Entre os alfabetizados incluemse 70 mil indígenas que receberam educação bilingüe. Os deficientes visuais e auditivos e a população carcerária também foram incluídos no programa.

Além de vontade política, a sociedade foi convocada a apoiar o programa. Após o anúncio da Missão, mais de 125 mil pessoas se ofereceram como voluntários. À época, o requisito básico para ser facilitador era ter o primeiro grau completo.

“Quando o comandante convocou a participação de todos, imediatamente me apresentei. Era hora de sair do banco da universidade e ajudar na formação de outros compatriotas”, comenta a estudante de técnicas agropecuárias, Lilian Oropeza.

Ela, que após um ano de trabalho voluntário passou a integrar a Comissão Presidencial da Missão Robinson, afirma que a alfabetização contribuiu inclusive para melhorar a saúde da população. “No campo, grande parte das enfermidades resultava da falta de conhecimento. Hoje, a incidência caiu para 70%”, acrescenta.

Adaptação

A Missão também foi apoiada pelas Forças Armadas, cuja tarefa era bater de porta em porta, identificar a população analfabeta e conscientizá-la para se incorporar ao programa. O horário das aulas foi adaptado à realidade de cada comunidade para facilitar o seu acesso, foram organizadas turmas pela manhã, tarde, noite, ou nos fins de semana.

Em uma casa de pau-a-pique situada em uma das regiões litorâneas do país, Ocumare de Tuy, Estado Miranda, o agricultor Juan Castro, de 53 anos, conta que a jornada de trabalho o impedia de ir à escola. Assim, Castro foi aprender a ler e escrever. “Hoje, posso ir a Caracas sem medo de me perder. Sei ler os avisos. Devagarzinho ainda, mas eu chego lá”, emociona-se, enquanto prepara a terra para a próxima safra.

Rapidez

O método trazido pelos cubanos parte da premissa de que os adultos, pela sua história e vivência, podem aprender mais facilmente do que as crianças, a partir da associação da sua realidade com o aprendizado.

A maioria dos adultos que ingressaram no programa sabia calcular, mas não sabia ler. Apoiados nas aulas via televisão, os facilitadores auxiliam na associação entre o conhecido (números) e o desconhecido (letras). E em sete semanas um adulto pode ser alfabetizado.

“Quero aprender cada vez mais. Como era possível eu não saber que Antônio José de Sucre foi um dos heróis latino-americano? Agora conheço a nossa história”, orgulha-se Sinforoza. Depois de alfabetizada, ela passou à Missão Robinson II que agrega disciplinas regulares como História, Geografia, Espanhol e Matemática.

O programa de alfabetização serviu de esteio para a criação e consolidação de outras missões sociais, o sustentáculo da revolução bolivariana. A facilitadora Maglenys Salas conta que, na sala de aula, foi possível identificar outros problemas que passaram a ser atendidos por outros programas sociais.
“Muitos não enxergavam bem e não tinham recursos para comprar óculos”, exemplifica. O programa de saúde Bairro Adentro foi integrado à alfabetização para o atendimento oftalmológico. Cuba doou à Venezuela 300 mil óculos para distribuição à população.

Próximos passos

Alfabetizados, a grande maioria dos venezuelanos se incorpora ao novo modelo econômico e social impulsionado pelo governo, de construção de uma economia solidária e endógena, assentada na criação de cooperativas.

Enquanto era alfabetizada, Lina Ramos, integrante de uma ocupação de terra no Estado Guárico, soube da Missão Vuelvan Caras (de capacitação técnica para formação de cooperativas). “Fizemos o curso, criamos uma cooperativa e decidimos ocupar terras,” conta Lina. Ela é o exemplo do que o educador Paulo Freire chamava de “a transformação do trabalhador como agente político”, a partir do conhecimento.

“Nossa idéia é colocar em prática o modelo de desenvolvimento endógeno que o presidente fala”, explica Lina, debaixo de uma barraca de lona, na fazenda La Vaca, de 33 mil hectares, considerada improdutiva pelo governo. “Agora sim podemos”, reafirma.

Novos rumos

A missão não pára na alfabetização. A nova meta anunciada pelo presidente Chávez quer garantir a formação até o sexto ano e incentivar o processo de interpretação de textos com incentivo à leitura. “O primeiro poder que deve ter o povo é o conhecimento”, afirma. Uma vez por mês, uma biblioteca básica é distribuída gratuitamente à população, incluindo até mesmo obras de Machado de Assis. Entre os autores clássicos, recentemente foi distribuído Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, massificado nas praças Bolívar de todo o país. Visando a integração latino-mericana e a efetivação da Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba), Chávez propõe a extensão da Missão Robinson para a Bolívia e a República Dominicana.

Simón Rodríguez

Foi um dos intelectuais latinoamericanos mais importantes do século 19, no tocante à construção de um modelo de educação popular. Ele foi o principal mentor do libertador Simón Bolívar. O nome da Missão Robinson é tomado ao seu pseudônimo, Samuel Robinson, que usou do outro lado das fronteiras venezuelanas. Ele defendia a combinação da educação com o trabalho, com a promoção de escolas técnicas e agrícolas. Com Bolívar e Ezequiel Zamora (o general que lutava por terras e homens livres), Rodríguez integra a árvore das três raízes que condensam o pensamento da revolução bolivariana.


Original da matéria | Venezuela

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