Os pássaros
Por Luis Fernando Verissimo, n'O GLOBO, 6/11/2005
Numa praia, você está em contato com o básico da existência. Sente a areia sob o seu corpo. O chão do planeta. Do seu planeta. Nada entre você e a Terra em que nasceu. Nem asfalto, nem esteira, nem nada. E você está bem. O cheiro do mar. O cheiro antigo do mar. Quantos cheiros do nosso dia-a-dia são os mesmos cheiros que um homem primitivo conhecia? Pouquíssimos. Só os cheiros naturais. O mar, o mato, a terra molhada pela chuva, os cheiros do nosso próprio corpo. Você se cheira. Loção de barba, desodorante e creme bronzeador. Coisas que o homem primitivo não usava. Se por alguma mágica você fosse transportado para a pré-História, causaria uma sensação nas cavernas. Não por causa do calção, dos óculos escuros ou da barba feita. Por causa do cheiro. Os pré-homens cercariam você, aspirando forte. Como você explicaria ter o cheiro de um campo florido? Mas o cheiro do mar é o mesmo desde o começo do mundo. Você se sente seguro, aí nessa praia. Nada pode atingir você, salvo uma eventual bolada. Você está em casa entre os elementos. É um molusco de óculos escuros no seu habitat. Respira o bom e farto oxigênio posto no mundo justamente para o seu sustento. E o ar é abundante e grátis, e não há problemas com fornecedor (greves etc.). Ninguém o consultou, mas você não mudaria esse arranjo por nada. Deus, o primeiro autocrata, fez o mundo como bem quis, sem ouvir as bases, sem debates, sem referendo. Sorte sua, pois, se o Criador tivesse optado pelo método democrático, o Universo ainda não estaria pronto e você estaria perdendo todos os bons programas na TV. Você vive no mundo como ele lhe foi dado por Deus e ainda não ouviu ninguém chamar o processo de fascismo divino. Você não se queixa. Acha o Universo um barato e não o faria diferente, apesar de concordar que certas coisas — os anéis de Saturno, por exemplo, ou o repertório do Julio Iglesias — são de gosto duvidoso. Já morango com nata, arco-íris, a estrutura molecular, trigal, mulher... Olha, Deus: gênio. Você está bem. Você está protegido. Aí, deitado nessa areia cálida, sentindo a Terra se mover com a doce familiaridade de um berço embalado. Você olha para o céu. Você vê pássaros se aproximando em formação contra o azul profundo. Pensa: que bonito. Pensa: a paz é isso, esse sol, esse céu, esses... Alguém perto de você diz: — Ai, ai, ai... — O que foi? — Podem ser aves migratórias... — E daí? — Você não soube? São as aves migratórias que estão espalhando a gripe. — A gripe? Mas... Você não completa a frase. Todos à sua volta na praia já começaram a correr. — Elas
vão dar rasante! Elas vão dar rasante!
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