O monopólio
do silêncio
Por Gustavo Barreto, 4/11/2005
Longe dos holofotes, a vida real. Enquanto a mídia faz escândalo pelos R$ 55 milhões do “valerioduto” e supostos grampos em gabinetes, um relatório do Tribunal de Contas do Estado (TCE) da Bahia aponta uma movimentação, entre 2003 e abril de 2005, de R$ 101 milhões em uma conta bancária não registrada no sistema de controle do Erário baiano. O TCE – o conselheiro Pedro Lino à frente – possui em mãos um relatório de 200 páginas sobre estranhas relações contratuais entre o governo baiano, a agência de publicidade Rede Interamericana/Propeg, do publicitário Fernando Barros, e organizações não-governamentais formadas por servidores públicos. Conforme assinala a revista CARTA CAPITAL (edição 366 – 2/11/2005), que teve acesso ao documento, está no centro da investigação a Bahiatursa, estatal de turismo local subordinada à Secretaria de Cultura e Turismo estadual. Fernando de Barros é intimamente ligado ao clã dos Magalhães e ao PFL baiano, além de ser um campeão local de licitações. O relatório do TCE cita como exemplo de gasto não-discriminado os R$ 2,25 milhões da estatal de turismo em apoio à campanha da Rede Globo “Amigos da Escola”. CARTA CAPITAL relembra que a família do senador Antonio Carlos Magalhães é proprietária da TV Bahia, retransmissora da TV Globo no estado. Mantém, ainda, o jornal ‘Correio da Bahia’, panfleto político cujo objetivo é propagar os interesses do clã de ACM no estado. Uma
organização política não-eleita
Comunicação
ou política?..
Para
completar a feijoada em família, o atual presidente da Bahiatursa,
Cláudio Taboada, foi indicado por ACM Neto para o cargo. Ambos têm
uma ligação política fraternal, tendo ACM Neto apoiado
Cláudio para secretário-geral do Diretório Nacional
do PFL jovem, conforme consta no site
do próprio deputado. O Tribunal de Contas da Bahia mostra, para
quem quiser ver, a relação do escândalo (quase o dobro
do total movimentado no ‘valerioduto’) com o governador Paulo Souto, o
senador César Borges, ACM avô, ACM Neto e TV Globo.
Nesse
contexto, é urgente começar a perceber esta emissora não
como uma parceira dos poderes políticos A ou B, e sim como um poder
político em si. Um partido institucionalmente organizado, que não
passa pelo processo eleitoral, presente no Brasil inteiro, cuja principal
característica é possuir o mais completo sistema de comunicação
de que poderia dispor uma organização política. Faz
parcerias conforme seus próprios interesses empresariais e ideológicos
e possui como maior arma – para além da gritaria moralizante constante
que nos “obriga” a ficarmos escandalizados (com quem eles querem que fiquemos)
– o direito de não colocar no ar o que for ‘indesejável’.
Quem possui o monopólio da palavra também possui, antes de
tudo, o monopólio do silêncio.
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