A velha técnica jornalística que serve a interesses espúrios

Por Mário Augusto Jakobskind, no Fazendo Media (www.fazendomedia.com), 31/10/2005.
 

Mais uma vez a revista "Veja" colocou as mangas de fora. A nova "denúncia" deixou claro, se é que ainda havia dúvidas, quem pauta a publicação da família Civita. Dizer que Cuba doou dois ou três milhões de dólares para a campanha de Lula em 2002 tem objetivos definidos e obedece a interesses que remetem ao Departamento de Estado norte-americano e a oposição, capitaneada pelo PSDB/PFL. No primeiro caso, jogar no ventilador este tipo de denúncia, na antevéspera da reunião dos países americanos em Mar del Plata e a passagem do Presidente estadunidense George W. Bush por Brasília, serve a que interesses? O objetivo é claro: enfraquecer o governo brasileiro, não apenas na questão da imposição da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), como também enquadrar Lula, que visivelmente tem áreas divergentes com o gigante do Norte, apesar de no plano econômico seguir as diretrizes das finanças internacionais.

O governo Bush quer que o Brasil termine com a história de política externa independente e posicionamentos de aproximação com o governo da Venezuela. Bush e os extremistas de direita que estão no governo estadunidense querem de todas as formas impedir que o Presidente Hugo Chávez continue convencendo os seus pares no sentido de fortalecer um bloco regional. Bush quer que Lula aja de forma a neutralizar Chávez. Bush quer que Lula esfrie com Cuba.

O governo imperialista de Bush não se conforma com o fato de que Cuba tem um projeto, a Operação Milagre, que contempla os setores pobres da América Latina em assistência médica. Cuba, por exemplo, acabou de firmar um convênio com o Uruguai para dar assistência médica especializada gratuita aos carentes. Já faz isso com a Venezuela, Equador, e sempre oferece ajuda no setor médico aos países que necessitam, sobretudo em momentos de tragédias naturais. Para a direita fundamentalista estadunidense, isso é mera "propaganda comunista". O cristianismo de Bush prefere que os doentes-pobres morram a se curarem em Cuba. 

A "Veja" pensa igual aos fundamentalistas que ocupam a Casa Branca e, por isso, lança matérias como a que apareceu em sua última edição, com o claro objetivo de tentar azedar as relações entre dois países soberanos. Aí vem a oposição com ACM Neto, Rodrigo Maia e até a turma dos ex que integram o PPS, com o deputado Raul Jungmann, para pedir o impeachment do Presidente constitucional brasileiro. Ora, senhores golpistas, filhos e netos de golpistas, devagar com o andor. Que história é essa de aumentar a "crise" em função de mais uma matéria plantada pela "Veja"? Qual a credibilidade que pode ter um Jorge Bornhausen que disse que a "denúncia era gravíssima"? Basta olhar o passado deste senhor para observar como ele e os seus têm se colocado no cenário político brasileiro. Estão sempre ao lado do poder econômico, até porque, segundo Bornhausen não esconde, "é preciso acabar com esta raça" (raça dos que se opõem aos poderosos). Depois ainda reclama quando é confundido com um nazista... 

A publicação dos Civita é useira e vezeira em plantar notícias do gênero. Recentemente "denunciou" que as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) fizeram doações em dinheiro à campanha de Lula, numa matéria também sem eira nem beira, que se diluiu entre as mentiras rotineiras da publicação. Os Civita, defensores incondicionais do Deus mercado, há anos adotam uma prática jornalística sem escrúpulos, na base da mentira e meias verdades. É comum "Veja" editar com estardalhaço matérias sem provas. É comum o aparecimento de declarações falsas e deturpadas, na base da manipulação da informação, com o único objetivo da matéria final ser editada de acordo com o que foi estipulado com antecedência por uma pauta pré-determinada. Não é à toa que muitos jornalistas que conhecem a estratégia dos Civita alcunharem a publicação carro-chefe do grupo de "sujíssima" Veja.

Tem mais: a "denúncia", sem a mínima comprovação, na base da declaração de dois ex-assessores do então Prefeito Antonio Palocci, de Ribeirão Preto, envolvendo um secretário já falecido (o que teria recebido os dólares em Brasília para entregar em São Paulo), teve grande repercussão em outros órgãos de imprensa, que na prática cumpriram o objetivo de ampliar a bobajada.

Neste comentário não está em questão atacar ou defender o Presidente Lula, mas, sim mostrar como se utiliza impunemente uma técnica jornalística que tem por base servir a interesses espúrios com o claro objetivo de desestabilizar não apenas um governo mas um país e até mesmo o relacionamento entre duas nações. 

Este, portanto, é o momento de a sociedade brasileira ficar atenta, porque os golpistas históricos, no caso agora os civis, estão querendo armar uma investida contra um Presidente na base de um cara que já morreu ter dito a dois assessores que estava com uma encomenda com dólares vindos de Cuba. Criar celeuma em torno de um fato como esse é, realmente, imaginar que os brasileiros são débeis mentais e vão se deixar envolver por este jogo primário e que não deveria ter condições de seguir adiante, como estão tentando os Bornhauzens, Maias, ACMs, Jungmans e outros da mesma natureza. 

Está na hora de os próprios jornalistas e suas representações sindicais, tanto a nível nacional como regionais, colocarem na ordem do dia esse tipo de discussão. O tema manipulação da informação praticado pela grande mídia conservadora deve ser também, claro, objeto de preocupação de estudantes e professores dos cursos de Comunicação de todo país. Afinal, não é possível continuar assistindo em silêncio essa prática espúria que desabona o jornalismo. Em outros termos, é preciso que os jornalistas brasileiros fiquem atentos para não se deixarem envolver por este jogo grosseiro dos que ainda têm a coragem de se intitular democratas desde criancinha.

Não foi à toa que, recentemente, o Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Imprensa aprovou uma moção alertando os jornalistas brasileiros a não se deixarem envolver por manobras espúrias, visivelmente servindo interesses escusos, no caso da manipulação da informação relativa aos acontecimentos na Venezuela. 

Se estendermos essa prática a outras editorias da mídia conservadora, veremos que nada acontece por acaso. Por estas e muitas outras, todo cuidado é pouco em relação aos golpistas de sempre que na hora agá contam com o apoio externo, sobretudo dos Estados Unidos.

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Mário Augusto Jakobskind é jornalista e escritor. Foi colaborador dos jornais alternativos Pasquim e Versus, repórter da Folha de S. Paulo (1975 a 1981) e correspondente da Rádio Centenária de Montevideo, além de editor de Internacional da Tribuna da Imprensa (1989 a 2004) e editor em português da revista cubana Prisma (1988 a 1989). Atualmente é correspondente do semanário uruguaio Brecha e membro do conselho editorial do Brasil de Fato. É autor, entre outros, dos livros Dossiê Tim Lopes - Fantástico/Ibope (Europa, 2004), A Hora do Terceiro Mundo (Achiamê, 1982), América Latina - Histórias de Dominação e Libertação (Papirus, 1985) e Cuba - apesar do bloqueio, um repórter carioca em Cuba (Ato Editorial, 1986).

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Original publicado dia 31/10/2005 em http://www.fazendomedia.com/jakobskind.htm

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