Jornal Nacional: duas notícias
Por Gustavo Barreto, 2/11/2005


Boa noite. Temos duas notícias na edição desta noite. Uma boa, uma ruim. A ruim é que, mais uma vez, o JORNAL NACIONAL, principal produto comercial da TV Globo, tentou distorcer grosseiramente os avanços políticos da Venezuela. Fátima Bernardes faz chamada na edição de 2/11/2005, antes do ‘comercial’: “Você vai ver (...) porque a Venezuela de Hugo Chávez provoca tanta preocupação”. Depois do intervalo, distorce, distorce e distorce. E distorce mais um pouco.

Diz que há mais pobreza (70%, “em crescimento”), que a democracia é fraca, que não há transparência. Distorce, distorce e distorce mais um pouco. Por que, afinal, Fátima Bernardes acha que Chávez “provoca tanta preocupação”? Porque o presidente da guerra, George W. Bush, está na área e irá à Argentina, para a IV Cúpula das Américas. Bush faz sua primeira viagem de seu segundo mandato (na verdade, o primeiro conquistado no voto), quando visitará, a partir desta quinta (3/11), Argentina, Brasil e Panamá.
 

O "mundo" do JN é um tanto quanto distorcido..
A democracia terrivelmente em crise da Venezuela convocou a população não para perguntar coisas inúteis, como “você quer armas ou não”. A pergunta foi objetiva: você quer ou não quer que esse “ditador inescrupuloso” que seria Chávez fique no poder? Sem confusão nem retórica: o homem fica ou não fica? O “ditador”, imagina só, venceu bonito (desculpe a expressão, mas é isso mesmo). Todos os organizadores internacionais que acompanharam o processo reconheceram o exemplo. Não é minha intenção retomar dados que já se divulgou aos quatro ventos. Imagina qual seria o resultado do mesmo referendo na democracia norte-americana, que o JORNAL NACIONAL não questiona. Ou, imagina!, no Brasil.

O caos social e a imprensa

E por que a patrulha ideológica do JN acha que a Venezuela está equivocada em suas políticas governamentais? Por que lá, dizem, tem 70% de pobreza e isso só aumenta. Fontes? Para quê? Bobagem, jornalismo ‘moderno’ não tem isso não. E não tem transparência lá naquela republiqueta, sabia? Fontes? A oposição que financiou e preparou o golpe. A mesma que grita ‘liberdade’ contra supostos avanços do governo sobre os meios de comunicação e que provocou guerras e incitações ao caos antes e durante o golpe de 2002. E os governos anteriores a Chávez, o que fizeram? Nada disso veremos no JORNAL NACIONAL.

Juntos, os grupos Abril [veja referência abaixo] e Globo, por meio de seus principais produtos comerciais, preparam (ou tentam) o público brasileiro para saudar George W. Bush em sua investida pelo “livre” comércio. Ele quer – veja só – reforçar a democracia. A notícia boa? A consciência política é uma característica pessoal e intransferível e, uma vez que o cidadão é autônomo e livre dos tiros ideológicos da grande imprensa, inimputável. Além disso, esquece o JORNAL NACIONAL, pode ser uma consciência de classe que, mais dia menos dia, dirá NÃO a manipulações grosseiras e propagandas ideológicas repletas de mentiras.
 

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Leia também: Abril parceira do capital especulativo (29/10/2005)

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Gustavo Barreto é editor da revista Consciência.Net, colaborador do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC) e pesquisador na Escola de Comunicação da UFRJ


Observatório do JN

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