| Aposentado sim, otário
não
Por Rolando Lazarte,
29 de julho, 2004
E agora vocês,
ricos, comecem a chorar e gritar por causa das desgraças que estão
para cair sobre vocês. (...) Vejam o salário dos trabalhadores
que fizeram a colheita nos campos de vocês: retido por vocês,
esse salário clama, e os protestos dos cortadores chegaram aos ouvidos
do Senhor dos exércitos.
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São Tiago . Os homens fazem a história, mas não em circunstâncias que eles escolhem, e sim em circunstâncias dadas. Karl Marx No dia de São Tiago, apóstolo protetor de Mendoza, Argentina, não há como continuar a calar diante da triste circunstância em que o governo federal brasileiro coloca os professores universitários aposentados. Obrigados a pagar para a previdência social mesmo já “fora da atividade”, são por esse mesmo ato punidos por terem cumprido com o dever, como bem remarcara um colega na última assembléia da ADUFPB-JP. Na Argentina, semelhante confisco foi barrado pela mobilização dos aposentados, que obrigou o governo daquele país a respeitar os parcos vencimentos de quem “se retirou da vida ativa”. Tal inatividade, todo aposentado sabe, e muito mais uma força de expressão do que uma realidade. Deixar de trabalhar é um luxo reservado a esses ricos que vivem do trabalho dos demais. Escolher no quê trabalhar, um luxo de quem, após ter contribuído à geração da riqueza cultural do seu povo, ainda pode decidir em quê setor de atividade se somar, quer de forma gratuita ou remunerada. Trabalhos voluntários, frequentemente comunitários, recebem de bom grado a experiência, o saber e o sabor de quem deixou boa parte da sua saúde nas salas de aula. A expressão artística renasce. Floresce. Não se suplica um direito. Não se pede sensibilidade a quem vive da miséria do seu próprio povo. Resiste-se com a força da moral e da dignidade, do trabalho de formiga, freqüentemente anônimo, mas nem por isso menos fecundo ou menos socialmente útil. Em tempos antigos, os sábios eram chamados para aconselhar a comunidade. Nos dias de hoje, descartados como sucata. Agredidos pela dureza de um sistema sem alma. Tratados de “vagabundos” pela socialdemocracia amarela recentemente apeada do Poder com as suas excessivas luzes intelectuais. Tratados de “otários” por uma sucessão governamental à qual, por respeito a uma militância de base decentíssima, nos vemos obrigados a tratar ainda com respeito. Que comam os que têm fome. E os professores aposentados, que continuem a resistir, um ofício em que são craques. Hoje Brasil e Argentina se defrontam
mais uma vez no campo do futebol. Verde amarelo ou azul e branco? Ganhe
quem ganhar, no campo da vida seguimos a trabalhar, aposentados ou não,
pela consolidação de uma rede de apoio psicossocial que garanta
uma vida melhor à pessoa humana, não importa a classe social,
o nível salarial, o grau acadêmico obtido.
Rolando
Lazarte,
Sociólogo (Doutor em Ciência) e membro do Grupo de Estudos
e Pesquisas em “Saúde e Sociedade” da UFPB, autor de Max Weber:
Ciência e Valores (São Paulo, Cortez Editora, 2001, 2ª
edição). Contato: elzarat@yahoo.com.br
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