| Outras histórias
Luis Fernando Verissimo, 26/12/2004 Há dias, escrevi sobre
a briga pela memória nacional na questão do acesso aos registros
da repressão, no que é no fundo uma briga protelada pelo
poder. Se a História é sempre a versão do vencedores,
quando se discute que História teremos se está, na verdade,
tentando estabelecer quem foram os vencedores. A dúvida sobre quem
realmente “ganhou” e tem o direito de ditar a História não
se resume à notória indefinição política
brasileira, onde estar no governo e estar no poder são duas coisas
diferentes, mas existe hoje em todo o mundo. Brigas que já se julgavam
resolvidas, algumas há séculos, continuam acirradas, e em
muitos casos vencidos presumíveis é que estão por
cima, dizendo como os outros devem pensar e lembrar.
Não são só os índices de leitura de horóscopos que atestam o fracasso do Copérnico em convencer a Humanidade que a Terra não é o centro do Universo. A ciência em geral tem tido um péssimo desempenho na tarefa de vencer a crendice e o obscurantismo, embora a versão “oficial” da História humana desde, pelo menos, o século XVIII tenha sido a de conquistas irreversíveis da razão secularista, com alguns soluços de irracionalidade. A teoria da evolução de Darwin é outra que não convenceu muita gente. Numa enquete recente, mais de setenta por cento dos americanos pesquisados responderam que preferem a explicação bíblica da origem da sua espécie à de Darwin. Em vários estados americanos há leis que obrigam o ensino da versão bíblica junto com a da evolução, que deve ser identificada como apenas uma especulação teórica em contraste com a palavra de Deus. A influência do fundamentalismo religioso cresce na política e nos costumes dos Estados Unidos, reforçada com a reeleição do Bush, que diz aconselhar-se sempre com o Todo-Poderoso, e não está se referindo a Cheney. E cresce a radicalização do fundamentalismo islâmico, com influência direta da palavra do deus deles no estado de nervos de todo o mundo. Alguém já descreveu o que está acontecendo na Terra como a crise terminal dos monoteísmos ou do combustível fóssil, a escolher. Seja como for, não tem nada a ver com a História sensata que imaginaram para nós no século XVIII. Estávamos vivendo, sem saber, a História dos perdedores. E não temos, mesmo, jeito.
Queremos crer, o que não é o mesmo que acreditar. Sempre
conto que quando eu fazia o Horóscopo do jornal, nunca deixava de
ler no dia seguinte o que tinha previsto para o meu signo, Libra.
Fonte: O GLOBO, 26/12/2004
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