| Definições
Por Luis Fernando Verissimo,
em O
GLOBO
O espírito de Natal traz sentimentos de solidariedade e congraçamento universal. Mas o espirito de Natal, como se sabe, dura uma semana. Como seria se, em vez do exemplo de Cristo, nos defrontássemos com uma emergência definidora de caráter? Como o anúncio de que um asteróide iria se chocar com a Terra, e não houvesse nada a fazer para evitar o nosso fim? Como nos comportaríamos? Nos convenceríamos, finalmente, de que somos uma única espécie frágil num planeta precário e viveríamos nossos últimos anos em fraternidade e paz ou reverteríamos ao nosso cerne básico e calhorda, agora sem qualquer disfarce? Nos tribalizaríamos ainda mais ou descobriríamos nossa humanidade comum, e como eram ridículas as nossas diferenças? Jogaríamos nosso dinheiro fora ou cataríamos o dinheiro que os outros jogassem fora pensando na remota possibilidade, ainda mais com reais, e comprar um lugar no último foguete a deixar a Terra antes do impacto? Perderíamos todo interesse nos prazeres da carne e trataríamos de salvar a nossa alma ou, pelo contrário, nos entregaríamos à lascívia, ao deboche e à gula, pagando tudo com cheques? Como os cientistas nos diriam até o segundo exato do choque com o asteróide com alguns anos de antecedência, seríamos a primeira geração sobre a Terra a viver com a certeza pré-calculada do seu fim — e a última, claro. Muitas seitas através da História e até hoje estabeleceram a hora e o modo do mundo acabar e se prepararam para o evento. Nós seríamos os primeiros com evidência científica do fim em vez da crença, o que nos levaria a tratar a ciência como hoje muitos tratam as crenças. Pois só a desmoralização total da ciência, só chamar seus sistemas de ocultismo e seus cálculos de feitiçaria, nos daria a esperança de que o asteróide, afinal, passaria longe. E se existissem mesmo foguetes salvadores e bases na Lua e em Marte esperando os sobreviventes, estaríamos diante de uma situação “Titanic”. Quem vai nos foguetes? Tem que ser americano? Quanto custaria uma terceira classe? Aceitam cartão? E outra coisa. Haveria uma natural hierarquização na escolha dos homens para fugir do planeta condenado. Quem iria? Os fortes e férteis, para continuar a raça humana em outro planeta, certo. Médicos e técnicos, claros. Empreendedores, para abrir negócios. E cronistas de meia-idade (ou, vá lá, dois terços de idade), sem dúvida. A Humanidade precisaria de cronistas, para lhe explicar seu destino desconhecido e distrai-la. Muito mais do que velhinhas sem qualquer serventia ou crianças que só irritariam todo o mundo com seu choro. Cronistas são indispensáveis! Ou então espero que aceitem reais.
|